Abre-caminho, chega-te a mim, chora-nos-teus-pés, pega-e-não-me-larga, folha-da-felicidade e chama-dinheiro. Podem parecer palavras de ordem ou preces, mas são nomes de ervas, essências, plantas e perfumes que, manipulados pelas mãos das herdeiras de conhecimentos ancestrais, se transformam nos mais requisitados produtos do Ver-o-Peso, de Belém (PA). Todos os dias, as famosas erveiras do mercado levam suas criações para a maior feira a céu aberto da América Latina, um dos pontos turísticos obrigatórios da capital paraense. Para a COP30, elas lançaram banhos e perfumes temáticos, tanto para levar boas energias aos participantes quanto para as belenenses encontrarem seus potenciais gringos amados.
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Na primeira semana, em função das reuniões intensas da conferência — e também do horário do mercado, que fecha às 18h, quando muitos ainda estão na COP — o movimento de estrangeiros não foi tão grande quanto esperado, dizem as erveiras. Mas muitos turistas nacionais já vinham se esbaldando com os produtos antes mesmo do fim de semana, quando os feirantes se prepararam para multiplicar as vendas.
As erveiras de Belém
Uma das erveiras mais conhecidas de Belém, Beth Cheirosinha, no ramo há mais de 50 anos, criou o “banho da COP30” para o evento, usando ervas como o dinheiro-em-penca, a folha-da-fortuna e a folha-da-felicidade. O produto custa R$ 20.
— É para dar tudo certo nas reuniões com o povão que vem de fora — explica a desenvolta Bernadete Freire da Costa, famosa como Beth Cheirosinha, criadora de diferentes banhos. — Eu sempre indico para as pessoas tomarem banho de descarrego para tirar o olho gordo, a inveja, o mau-olhado. Faz uma limpeza geral, espiritualmente.
Beth herdou o conhecimento sobre as ervas de sua mãe, que aprendeu com sua avó. Hoje, os filhos e netos dela também dominam a técnica. Ou seja, os saberes já chegaram à quinta geração. Essa transmissão é tradição entre as erveiras, que normalmente trazem as folhas do “interior de Belém”, como explicam, referindo-se a cidades próximas como Abaetetuba, Barcarena, Boa Vista, Jenipaúba, Coaraci e Mosqueiro.
As essências, perfumes e banhos são criados nas casas das erveiras ou até nos boxes da feira.
— O meu carro chefe é o perfume “atrativo do amor”, preparado com carrapatinho, agarradinho, chega-te-a-mim, chora-nos-teus-pés, pega-e-não-te-larga, faz-querer-que-não-te-quer, vai-buscar-quem-tá-longe e queira-ou-não-queira-eles-vão-ter-que-me-querer. É só escrever o nome do amado ou da amada e colocar dentro; usa-se como um perfume, que eles vêm todos babando — afirma Beth Cheirosinha.
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Além das limpezas espirituais e dos pedidos amorosos ou por dinheiro, as essências também servem como curas medicinais, diz a erveira. Para essa finalidade, destacam-se a andiroba e a copaíba, plantas que podem até ser compradas inteiras na feira. Seus óleos, extraídos, são usados para cicatrizar ferimentos e curar inflamações e doenças diversas, diz Beth Cheirosinha. Podem ser usadas em chás também.
— O caboclo já prepara o óleo e traz direto aqui. É muito bom — diz Beth, de 75 anos, que reforça ser preciso acreditar na cura. — Eu acredito, eu tenho fé. Minha avó faleceu com 115 anos, só tomava remédio natural. Mamãe faleceu com 90, e eu estou aqui, linda, maravilhosa.
Maria Iracilda, que trabalha há 45 anos com as ervas, diz que o Ver-o-Peso é sua segunda casa. Ela também transmitiu os conhecimentos para seus filhos e netos, e criou um perfume especial COP30, com patchouli e “tudo que tem a ver com a mata”.
— Os perfumes são feitos de ervas da Amazônia para atrair coisas boas, paz, saúde, felicidade, prosperidade. Tudo de bom tem no perfume da COP30 — diz Iracilda.
Mãe da erveira, Edileia Barros criou 11 filhas no Ver-o-Peso, no meio da feira das ervas.
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— Continuamos no ramo, eu e mais quatro irmãs. Quem vive das ervas vive mais tempo, porque sabe o que é bom e o que não é — explica Barros.
Além das essências para energizar os participantes da COP, as erveiras também criaram um perfume que vem sendo sucesso na feira: o chama-gringo, feito especialmente para as moças belenenses que querem tentar a chance com estrangeiros durante a conferência.
— As meninas já estão fazendo o pacote. Compram o chama-gringo, com o afasta-homem-liso e afasta-homem casado — explica Bianca Nunes, filha de Iracilda, que ressalta que existem perfumes para todas as finalidades e públicos. — A gente vai buscando aquela essência da qual vai sair um perfume gostoso e agradável. Olhamos o que as pessoas estão procurando.
As essências de nomes inusitados costumam fazer sucesso com os estrangeiros, contam. Edileia Barros diz que já vendeu alguns chama-gringo para os próprios. Além disso, há produtos com nomes mais “picantes”, como chora-no-meu-charque, levanta-que-tá-morto e pega-gay-bonito-e-gostoso. Até o príncipe William ganhou um perfume, na semana passada, durante sua visita ao Museu Paraense Emílio Goeldi. Ninguém confirmou qual frasco lhe foi entregue, mas um dos palpites é que seria o perfume da bota (fêmea do boto), que serve para pedidos amorosos.
— Eles gostam dos nomes mais salientes — diz Nunes.
Na feira também tem erveiro. Pajé Carlos Souza é descendente de mãe Coló e neto de mãe Titeta, quem lhe ensinou as técnicas:
— Muitas pessoas vêm atrás de curandeiro e de curandeira. Então, aqui a gente tem de tudo, tem perfume, tem ervas, tem banho e tem essências para atrair mulher, homem, para afastar também, para curar doença, para ganhar dinheiro. Tem de tudo.

