País hoje com uma das maiores comunidades de brasileiros na Europa, a Irlanda se tornou epicentro de casos de xenofobia e racismo contra imigrantes vindos do Brasil, com ampla repercussão nas redes sociais. Diante da proliferação de denúncias, O GLOBO reuniu depoimentos de brasileiros que vivem há anos no país. Os relatos expõem casos de preconceito recorrentes e reforçam o sentimento de hostilidade, marginalização e negligência dessa população.
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O Brasil está entre as três nações estrangeiras com mais pessoas vivendo em território irlandês, e ocupa o primeiro lugar da lista entre nações não-europeias. Segundo dados do Itamaraty, pelo menos 80 mil brasileiros viviam no país em 2024 — o que corresponde a 1,46% da população total —, contra 50 mil em 2021, o que representa um salto de 60% em apenas três anos.
Entre os episódios de violência contra brasileiros em solo irlandês, um caso recente é o da cabeleireira paulistana Lays Mendes, que mora desde 2017 em Dublin, capital do país, e conta sofrer ataques frequentes. Uma mulher não identificada faz questão de passar semanalmente em frente ao salão da brasileira para fazer ofensas de cunho racista e xenófobo. Lays registrou em vídeo um dos episódios, no fim de outubro.
— É um mix, sofro preconceito por ser brasileira mas ainda mais por ser uma mulher preta — afirma Lays. — É muito doloroso, nosso coração fica machucado.
Outras agressões, filmadas e postadas nas redes sociais pela cantora Valéria Mendes, irmã da cabeleireira, que em uma das ocasiões visitava o local, rapidamente ganharam projeção dentro dos grupos de emigrantes brasileiros na Irlanda. O vídeo teve mais de 6,5 milhões de visualizações entre TikTok e Instagram.
Lays chegou a procurar a polícia local, mas diz que os agentes relevaram a situação, comportamento que, na visão dela, está ligado à sua origem.
— A Garda (polícia nacional da Irlanda) não fez absolutamente nada — diz. — Somos imigrantes, isso torna tudo mais difícil.
A cabeleireira afirma que já pensou em voltar com os filhos para o Brasil, após as agressões. Um é brasileiro, de 13 anos. O outro nasceu na Irlanda, e tem seis anos. Ambos estão totalmente integrados ao país.
— Retornar, hoje, para eles, é recomeçar tudo do zero — afirma a paulistana.
A designer Júlia Sales, de 32 anos, deixou Salvador rumo a Dublin em 2017. Ela afirma que também já foi vítima de negligência policial por conta do seu país de origem e diz que há um clima de hostilidade.
— Ao meu ver, as pessoas estão perdendo a vergonha de serem explícitas e violentas, mas elas sempre nos viram como inferiores — conta. — Em 2020, fui atropelada por um carro que acelerou de propósito enquanto eu atravessava a rua e fugiu do local. Quando fui na ‘Garda’ (nome dado para a força policial nacional da Irlanda), me disseram que não podiam fazer nada, apesar da rua onde o episódio ocorreu ter câmeras de vigilância e de eu ter dado diversas informações sobre o ocorrido.
Diretor da Rede Irlandesa Contra o Racismo (Inar, na sigla em inglês), Shane O’Curry explica que a percepção da população brasileira na Irlanda acompanha a ascensão de grupos de extrema direita que propagam o discurso anti-imigração dentro do país, assim como acontece no restante da Europa. Entre os dias 21 e 22 de outubro, a capital irlandesa foi palco de uma série de protestos anti-imigração marcados por casos de vandalismo e confronto entre os manifestantes e a polícia local, além de terem culminado em 23 prisões.
Mas apesar dos casos de xenofobia serem recorrentes, O’Curry afirma que o governo local não possui um sistema de coleta de dados robusto para compreender a gravidade do fenômeno no país.
— A polícia produz uma pouquíssima estatística com relação a crimes de ódio, e o Estado não tem uma estratégia para rastrear casos de preconceito — afirma. — Se você não sabe o tamanho do problema, não tem como resolvê-lo.
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Uma pesquisa realizada em 2024 pelo Instituto Ipsos aponta que o número de irlandeses que consideram a imigração assunto-chave a ser debatido no país é de 22%, o equivalente a quase um entre quatro habitantes. Em 2023, o número era de apenas 15%. Segundo Shane O’Curry, a preocupação, quando aliada à onda extremista, coloca a população estrangeira, incluindo a brasileira, como culpada por fenômenos como o aumento da criminalidade e a diminuição de postos de trabalho, a exemplo do que ocorre em outros países da Europa.
A junção destes fenômenos pode se materializar, inclusive, em casos de agressão física extrema, como aconteceu com o goianiense Alexandre Athos, de 24 anos, que viveu na Irlanda entre agosto de 2023 e janeiro de 2025. Em 31 de outubro de 2024, por volta da meia-noite, ele estava fazendo uma entrega de comida em uma residência de Cork, segunda maior cidade do país, quando foi atacado por um grupo de pelo menos três jovens irlandeses.
— Após a entrega, estava deixando o endereço com minha moto quando fui surpreendido por um carro que deu marcha-ré na minha direção em alta velocidade — lembra. — Quando desviei do veículo, um rapaz pulou da porta traseira com uma bandana cobrindo o rosto e veio na minha direção.
Após o episódio, Alexandre foi perseguido pelo veículo durante mais de 10 km. Ele conta que o grupo arremessava garrafas em sua direção enquanto o seguia aos risos.
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— Dava pra ver que aquilo para eles era uma diversão — afirma.
Alexandre lembra que, ao fazer uma curva, acabou caindo com a moto e sendo alcançado pelo grupo. Então, o mesmo homem com a bandana novamente desceu do carro e entrou em confronto com ele, que conseguiu revidar.
— Quando me defendi, ele pareceu ficar atordoado e voltou para o carro, o que me deu tempo para ir até a minha moto e tentar tirar a chave da ignição e jogar longe, para não ser roubado — lembra o goianiense. — Depois disso, não me recordo de mais nada, só lembro de acordar no chão com uma fratura exposta na perna.
Ele afirma que o grupo o atropelou pelo menos duas vezes, o que o fez ficar internado durante uma semana. Ele só se recuperou totalmente após retornar ao Brasil, em fevereiro deste ano.
Alexandre afirma que foi vítima do ataque por ter sido associado como imigrante, o que, na visão dele, o tornava um “alvo fácil” para grupos conhecidos pela população brasileira no país como “Nanás”. Eles são formados por jovens irlandeses que praticam sistematicamente atos de vandalismo, furtos e agressão, como no caso do goianiense.
— Eles sabem que quem está fazendo trabalho de delivery naquele horário muito provavelmente seria um imigrante — afirma. — Eles se aproveitam do fato de que nós estamos mais afastados das leis e não somos vistos pelas autoridades da mesma maneira que os nativos.
Questionado, o Itamaraty, por meio da Embaixada do Brasil em Dublin, não comentou os relatos de xenofobia no país, mas afirmou que permanece à disposição de brasileiros para prestar assistência e, se necessário, intermediar contatos com as autoridades locais. O ministério afirmou ainda que brasileiros no exterior podem buscar o Consulado do Brasil responsável pela região onde se encontram e que a lista completa dos Consulados brasileiros pode ser consultada no Portal Consular do Itamaraty.
*Estagiário sob supervisão de Marlen Couto

