O grupo de participações pouco conhecido, mas que vem chamando a atenção desde que passou a patrocinar o Palmeiras, informou que se associou a “um consórcio formado por investidores dos Emirados Árabes Unidos” para comprar o banco de Daniel Vorcaro e promete “aporte imediato” de R$ 3 bilhões para “fortalecimento da estrutura de capital do banco.”
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O negócio ainda precisa seguir muitas etapas para ser confirmado, entre eles o aval do Banco Central, mas significou ontem uma luz no fim do túnel para o Master após a frustrada negociação com o Banco de Brasília (BRB), instituição financeira controlada pelo governo do Distrito Federal.
O anúncio surge após meses de especulações sobre o futuro do Banco Master, que se notabilizou pela emissão de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) a taxas acima das praticadas pelos concorrentes, mas que vem enfrentando desafios em seu balanço. Em jogo está a capacidade do Master de honrar os compromissos financeiros desses papéis.
Com o negócio, todos os ativos e passivos do Master, incluindo os CDBs que pagavam até 140% do CDI, passam para o novo Banco Fictor. Por isso, as conversas entre BC e Fictor devem envolver também o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que emprestou R$ 4 bilhões ao Master.
Os CDBs são garantidos pelo FGC em até R$ 250 mil por CPF de investidor. Mas como o Master não foi liquidado, o recurso do FGC não resultou em pagamento direto aos credores.
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A transação abrange a compra de 100% do Banco Master S.A., que concentra cerca de R$ 30 bilhões dos CDBs emitidos pela instituição financeira de Daniel Vorcaro, e ativos como precatórios, consignados e investimentos estruturados (como a participação em empresas de capital fechado).
A expectativa de pessoas próximas ao negócio é que, como se trata de grupo privado, com investidores internacionais, o negócio agora seja aprovado pelo BC. De acordo com a mesma fonte, o controle do Master ficaria em uma espécie de holding entre a Fictor e investidores internacionais.
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O Master também emitiu CDBs por meio de outras empresas, como o Will Bank, que não fazem parte da transação. Mas os sócios da Fictor afirmaram que seu negócio sairá de “maneira concomitante” com a venda do Will Bank e do Banco Master de Investimento a outros investidores “ainda nesta semana”. Segundo eles, não há coincidência de investidores nas transações.
A despeito da preocupação do mercado com a solvência do Master, os sócios do Grupo Fictor sustentam que o balanço é saudável e será possível honrar o volume bilionário de CDBs emitidos a taxas altas.
— Estimamos em R$ 30 bilhões os passivos de CDBs, mas o ativo do banco, segundo contas preliminares, é da ordem de R$ 45 bilhões. E há ativos, como alguns precatórios, que, na nossa avaliação, estão subavaliados. Consideramos a relação entre ativo e passivo controlada. Não vemos dificuldades (com CDBs) — disse Rafael Paixão, um dos sócios da Fictor, à coluna Capital, do GLOBO.
CDBs dificultaram operação com o BRB
Em setembro, o BC vetou a venda do banco para o BRB, instituição estatal do Distrito Federal que havia anunciado em março planos de adquirir parte relevante do Master. Desde então, o banco de Daniel Vorcaro vem se movimentando para vender ativos.
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Um dos principais motivos para negativa do regulador ao negócio com o BRB foi o risco de sucessão dos CDBs emitidos pelo Master. Por outro lado, o ativo para fazer frente ao pagamento futuro desses títulos aos investidores que o adquiriram é bastante ilíquido, como precatórios (dívidas judiciais para as quais não cabe recurso) e investimentos em empresas em dificuldades financeiras.
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Mesmo com esses títulos retirados da operação, o regulador avaliou que havia um risco de corresponsabilidade pelo BRB em meio aos problemas de liquidez do banco privado.
O que a Fictor propõe de diferente?
O Grupo Fictor quer afastar o Banco Master do segmento do investidor de varejo e “posicioná-lo no mercado internacional”, disseram os três principais sócios da holding à coluna Capital, do GLOBO, ontem. A operação seria protocolada ainda na noite de ontem junto ao BC, que, assim como o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), já foi avisado previamente, disseram Rafael Góis, Rafael Paixão e Phillippe Rubini.
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O grupo disse ter formado consórcio com investidores dos Emirados Árabes Unidos para comprar o Master e fazer aporte de R$ 3 bilhões. Mas não revelou os nomes dos investidores. Segundo os sócios da Fictor, o Master tem patrimônio líquido de R$ 7 bilhões, que será aumentado para R$ 10 bilhões após o aporte planejado.
— Já conhecíamos o negócio porque atuamos em consignado e, primeiro, nos interessamos por precatórios. Há sinergia clara, já que um dos pontos fortes da Fictor é contar com mais de mil assessores comerciais (os antigos “pastinhas”) que geram negócios como consignados, e o Master não conta com rede desse tipo — disse Rafael Gois.
Embora digam que já tenham realizado due diligence (avaliação contábil) no Master, os sócios da Fictor afirmam ainda estar apurando o valor pelo qual o banco foi avaliado na transação.
Se a transação for aprovada, diz Paixão, a ideia é fazer a “transição” no perfil do banco:
— Queremos migrar o negócio, focado em varejo, CDB e plataforma, ao segmento do cliente de wealth (gestão de fortunas) e do mercado exterior, com produtos como emissão de bonds internacionais.
A Fictor indicará como presidente do banco Antonio Oliveira Neto, que trabalhou no Master entre 2017 e 2019 e atuou em JPMorgan e HSBC. A Fictor terá o desafio de convencer o BC.
— O BRB tinha dinheiro público, discutia-se muito quem era maior ou menor. Agora, é um consórcio novo, que tem lastro, com dinheiro privado, e que trará novos controladores, com a saída total do Daniel (Vorcaro) — defendeu Paixão.
O negócio proposto pela Fictor deve seguir o mesmo rito legal do processo envolvendo o BRB, que foi rejeitado pelo BC em setembro pelos riscos contidos. Até a noite de ontem, o pedido da Fictor ainda não havia sido protocolado.
Procurado, o BC disse que não comenta casos específicos. “Qualquer operação de transferência de controle de instituição financeira precisa passar pela análise e aprovação do Banco Central, de acordo com a Lei 4.595/64”, informou.
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Segundo o comunicado divulgado ontem pela Fictor, que não informa o valor final da transação, a compra não inclui o Will Bank nem o Banco Master de Investimentos, “que estão sendo negociados com grupos de investidores distintos.” No pacote está o Letsbank (antigo BlueBank), porém.
Segundo fontes, o Will Bank pode ficar com o Mubadala, gestor do fundo soberano de Abu Dhabi, e o Banco Master de Investimento ficaria com fundos de Reino Unido e Emirados Árabes.
“O pleito submetido ao Banco Central prevê alterações relevantes na diretoria estatutária, a formação de um novo conselho e a mudança da denominação social da instituição, que passará a se chamar Banco Fictor”, disse o comunicado, acrescentando que a operação ainda precisa passar pelo BC e pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).
Mistério sobre investidores envolvidos
Não está claro quais são os investidores árabes envolvidos no negócio, mas a Fictor afirma que eles “somam mais de US$ 100 bilhões em ativos sob gestão.” Se o negócio for aprovado, o consórcio diz que vai adquirir todas as ações de Vorcaro e “elegerá um novo presidente para a instituição.”
“A operação representa o passo de entrada da Fictor no mercado financeiro brasileiro. Seguimos alinhados às melhores práticas de governança, com foco na distribuição de produtos sólidos e desenhados para responder com precisão às demandas do mercado nacional. Mantemos o que sempre guiou nossa trajetória: investir na economia real.”, disse em nota Rafael Góis, sócio da Fictor Holding Financeira.
“Trata-se de transação privada, com players complementares e de alcance global”, acrescentou Vorcaro no comunicado. O nome dos investidores será revelado, segundo os sócios da Fictor, diretamente de Dubai na próxima sexta-feira.
Conheça a empresa compradora
O Grupo Fictor é uma empresa internacional de serviços financeiros, infraestrutura e alimentos com escritórios em São Paulo, Miami e Lisboa. A holding brasileira foi fundada em 2007, em São Paulo, e é comandada por seu sócio-fundador e CEO, Rafael Góis.
Criada originalmente como uma startup de tecnologia, a empresa passou por um reposicionamento em 2020 e se transformou em uma companhia de investimentos e gestão de ativos (private equity), com foco em setores considerados estratégicos da economia.
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Grupo Fictor abrange dez negócios diferentes, segundo seu site, atuando nos setores de alimentos, financeiro, agronegócio e infraestrutura. Sua expansão ganhou ímpeto com atividades no agronegócio, especialmente na comercialização de commodities, o que gerou capital para financiar uma estratégia intensa de fusões e aquisições a partir de 2018. O foco principal desse movimento foi consolidar mercados fragmentados, sobretudo na cadeia de proteína animal.
Na indústria alimentícia, adquiriu frigoríficos e marcas como Vensa, Dr. Foods, Fredini e a UPI da Mellore Alimentos. Em infraestrutura e energia, criou a Fictor Energia e a Fictor Real Estate, focadas em geração distribuída, energia solar e logística. Nos serviços financeiros, desenvolveu a gestora Fictor Asset e a fintech FictorPay, com plataforma de pagamentos.
Em dezembro de 2024, a Fictor realizou um IPO reverso: adquiriu 76% da Atom Participações (empresa de trading e educação financeira), mudou seu objeto social para agronegócio e renomeou a companhia para Fictor Alimentos, que passou a negociar na B3 sob o ticker FICT3. A companhia vale hoje R$ 142 milhões na Bolsa. Segundo entrevistas à época da operação, o objetivo era comprar ativos “estressados” e em recuperação judicial que atuam no setor de alimentos.
Em outubro de 2025, a FictorPay sofreu um ataque cibernético: R$ 26 milhões foram desviados via Pix após vulnerabilidade numa empresa terceirizada, a Dilleta Solutions. As credenciais vazadas permitiram 282 transações para cerca de 271 “contas-laranja”. As investigações apontam que a falha ocorreu fora da infraestrutura direta da FictorPay, envolvendo prestadores de serviço.
A Fictor Asset, braço de gestão de investimentos do grupo, aparecia no último ranking divulgado pela Anbima, no mês passado, com pouco mais de R$ 240 milhões sob custódia, sendo 99% do montante em fundos multimercado.
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Adicionalmente, a FictorPay lançou em 2025 um cartão B2B (business-to-business) com a bandeira American Express, com a expectativa de movimentar até R$ 1,8 bilhão em transações ainda no mesmo ano.
Segundo relatórios da Fictor Alimentos (ITR), em meados de 2025 a empresa adquiriu a Unidade Produtiva Isolada da Mellore em Betim (MG) com capacidade mensal de cerca de 1.691 toneladas, e aprovou um aumento de capital de R$ 60 a 70 milhões para financiar essa integração.
Desde março deste ano a empresa é uma das patrocinadoras do Palmeiras. O acordo de fechado com o time paulista garante R$ 30 milhões por temporada e tem duração de três anos, que podem ser prorrogados para quatro.
A marca da Fictor está estampada na frente e nas costas do uniforme dos jogadores da base palestrina e nas costas do time principal (masculino e feminino). O projeto inclui a mudança do torneio Sub-17 organizado pelo time, que passou a se chamar Copa Fictor.

