“Calada, porca!”, gritou Donald Trump, presidente dos EUA, a uma jornalista da agência Bloomberg, Catherine Lucey, depois que esta lhe perguntou por que não queria publicar os arquivos sobre a investigação de Jeffrey Epstein.
Poucos dias mais tarde, na passada terça-feira, Trump voltou a agredir verbalmente uma outra jornalista, Mary Bruce, após esta o questionar sobre um possível conflito de interesses relacionado aos negócios de sua família na Arábia Saudita, durante a visita à Casa Branca do príncipe herdeiro Mohamed bin Salman.
Donald Trump não é o primeiro chefe de estado grosseiro e misógino da História. Suspeito, porém, que seja o mais dedicado — e, até agora, o mais impune.
Alguns dos seus admiradores, como Jair Bolsonaro e o filipino Rodrigo Duterte, distinguiram-se por alardearem uma rudeza semelhante. Durante um comício, em 2016, pouco antes de ser eleito presidente das Filipinas, Duterte produziu uma inacreditável obscenidade, a propósito do estupro e homicídio da missionária australiana Jacqueline Hamill: “Eu estava bravo por ela ter sido estuprada, mas ela era tão bonita. Então pensei — eu deveria ter sido o primeiro.”
Os manifestantes acharam graça — riram!
O lamentável episódio recorda um outro, muito familiar aos brasileiros, quando, em 2014, Jair Bolsonaro disse ao Jornal Zero Hora que a deputada Maria do Rosário (PT) não merecia ser estuprada: “Ela não merece porque ela é muito ruim, porque ela é muito feia, não faz meu gênero, jamais a estupraria. Eu não sou estuprador, mas, se fosse, não iria estuprar, porque não merece”.
Por detrás da máscara do sujeito másculo, poderoso, que Donald Trump tanto gosta de exibir, esconde-se um homenzinho frágil, inseguro, aterrorizado pela força e o grande mistério da natureza feminina. Trump insulta as mulheres, animado pela mesma cobardia eufórica com que um minúsculo poodle rosna contra um leão enjaulado.
Há quem defenda que Donald Trump e os seus discípulos recorrem deliberadamente a tais insultos como uma linguagem tribal. Aquela foi a forma que encontraram para anunciar: “eu sou como vocês”. A misoginia pública funcionaria assim como uma espécie de tatuagem — um marcador identitário.
Donald Trump, e os seus discípulos, não constituem o problema principal destes dias perplexos. O público que ri, aplaude, partilha e reproduz tais grosserias é a parte essencial do espetáculo. É aí que a misoginia deixa de ser desvio e se torna sistema: um idioma comum, uma gramática de pertença. Quando um líder poderoso ataca uma mulher, não está apenas a humilhá-la — está recordando aos seus seguidores que o mundo continua sendo deles, e que o insulto ainda é um lugar seguro onde podem abrigar-se do pavor de perder o domínio.
Talvez por isso estes episódios nos inquietem tanto: porque mostram que, apesar de todos os avanços, basta um porco triunfar para que muitos outros se sintam autorizados a grunhir. A boa notícia é que, ao contrário do que eles supõem, o futuro não lhes pertence. Pertence às corajosas mulheres que não aceitam o “cala-te, porca!”, e às sociedades que, graças a elas, começam a ver o evidente — nenhuma democracia resiste quando metade da humanidade é humilhada.

