A inclusão é tema mais que urgente da atualidade, com o mundo encarando o desafio de evitar que a inteligência artificial agrave a desigualdade na formação educacional e, consequentemente, as condições na corrida por inserção no mercado de trabalho. Como fazer para integrar quem não se encaixa no padrão normativo imposto foi o mote da palestra que reuniu Andrea Bussade, presidente do Rioteama, o ator e escritor Gigante Leo e a CEO do Incluir pela Arte, Vanessa Bruno. Mãe de um filho autistas não verbal, Andrea relatou que conviveu com rejeição nas escolas e nas ruas. — As pessoas chegavam a sair do elevador quando viam meu filho.
O bullying é um assunto em comum entre o trio de palestrantes, e combatê-lo, um longo caminho a ser percorrido.
— Sou empresária e tenho dificuldade que me vejam assim. As pessoas costumam me ver como cega, não como alguém que toma decisões. A gente é muito além de um corpo com deficiência visual. Estamos muito distantes ainda que entendam que temos capacidade — diz Vanessa, que perdeu a visão há 11 anos e atua em prol da arte inclusiva e da acessibilidade.
Leo revela que é único de sua família que nasceu com nanismo. Na infância, porém, nunca foi tratado como “coitadinho nem como um cara incrível”, como lembra.
— Era tratado pela minha mãe exatamente da mesma forma como ela cuidava dos meus irmãos, e isso foi fundamental para minha formação. Nunca me vi como vítima nem como herói, mas como o Leo — diz ele, que se casou, tem uma filha (“ambas sem nanismo”) e é um graduado funcionário do ramo da ciência da computação. Sempre com bom humor, conta que a mulher, que não tem nanismo, já recebeu parabéns por estar casada com ele. E recorda outro episódio constrangedor: entrou num restaurante e ouviu do atendente, com voz de criança, a pergunta: “quer papar?”
No Brasil, há 14 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência, obrigadas a lidar cotidianamente com diversos empecilhos de ordem física e também psicológica.
— Precisamos descobrir onde essas pessoas estão e ocupar os lugares de tomada de decisão, pois vivemos sendo excluídos deles. A gente precisa ser representada por nós mesmos. Temos que chegar ao ponto em que as pessoas estranhem quando chegarem a um lugar e não encontrarem deficientes. Somos 7,7% da população — afirma Vanessa.
Em meio a tantas barreiras a superar, Leo destaca a expressão “acessibilidade comportamental”, que remete à dificuldade de as pessoas enxergarem as potencialidades de quem é portador de deficiência.
— Não há deficientes qualificados para ocupar cargos públicos? Claro que tem, mas vemos pouquíssimos nessas posições. Todos somos deficientes, mas o mundo está adaptado para as suas deficiências, não para as minhas — diz ele, que é corroborado por Vanessa.
— É preciso ver para além da deficiência. A sociedade é feita para corpo normativo, quem está fora do padrão não é aceito. Isso só vai mudar quando a pessoa chegar num médico, por exemplo, e ele tiver deficiência. A gente tem potências além disso. O homem de 2025 vai à Lua passear e a gente ainda está debatendo os mesmos temas. As pessoas não sabem sair da caixinha delas e lidar com o outro — diz ela.
— Não tem Super-Homem com nanismo. Por que não podemos ter um super-herói cadeirante? As pessoas têm que começar a normalizar essas situações. Espero que daqui a dez anos eu ligue a TV e veja diversos atores e apresentadores com deficiência. Ir ao médico e encontrar a mesma coisa. Espero daqui a dez anos não ter mais que ficar falando sobre capacitismo — afirma Leo. — Os jovens são a voz que pode enxergar as mudanças.
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Estreante nesta edição, a Cafeteria Talentos mostrou, na prática, como a inovação pode ajudar no processo de inclusão. Utilizando protótipos criados com impressoras 3D para tornar o preparo de alimentos mais acessível, nove pessoas com deficiência vivenciaram um cenário de experiência profissional, atuando na preparação de itens do cardápio e no atendimento ao público.
Entre as tecnologias assistivas — como são chamados os recursos desenvolvidos com o objetivo de aumentar o nível de autonomia de pessoas com deficiência —usadas na cafeteria, havia estabilizadores para espremedores de frutas e suportes para jarras. A prototipagem das soluções foi resultado de uma parceria entre o Laboratório Maker e o Centro de Referência em Educação Inclusiva Sesc Senac (CREI).
— Nosso objetivo com a Cafeteria Talentos foi mostrar as potencialidades dos jovens com deficiência — afirma a nutricionista Luciana Candeia, do CREI, que atende de graça pessoas com transtorno do espectro autista e Síndrome de Down.
— O processo de trabalho também é um aprendizado. Todos eles puderam compreender melhor os conceitos de responsabilidade, higiene, planejamento e colaboração. Nossa premissa é mostrar que eles podem.
Tadeu Josué da Costa Moreira, de 27 anos, foi um dos que participaram da prática. Recém-formado no curso do Senac RJ, ele agora almeja emprego em uma lanchonete.
— Essa experiência foi gratificante. Gosto de trabalhar, fazer coisas novas e ajudar. Aprendi muito — reconhece Moreira, que é uma pessoa com autismo.
— Com o curso, perdi o medo de mexer em fogão e peguei o jeito de cortar alimentos como tomate e laranja.
Mais de 3 mil atendimentos foram realizados na cafeteria durante os três dias do evento. Além dos jovens com deficiência, a equipe que trabalhou no espaço contou com 14 alunos sem deficiência e idade acima de 50 anos, que também já concluíram o curso do Senac RJ, e profissionais da instituição.
Todos os alimentos servidos eram livres de ultraprocessados, 100% vegetais e sem açúcar, glúten ou lactose, para que pudessem ser consumidos por qualquer pessoa, independentemente de haver restrições alimentares.
O cardápio também seguia a linha inclusiva, com versões em braile e linguagem simples, que transmite informações de forma clara e objetiva.
Em uma das versões, foram empregadas estratégias de comunicação aumentativa e alternativa (CAA), com o uso de esquemas visuais para auxiliar pessoas com necessidades complexas de comunicação (NCC), que têm dificuldade de se expressar verbalmente, explicou a fonoaudióloga do CREI Nathalya Herzer.

