Dua Lipa é uma garota de sorte. Em uma semana por aqui, ela conseguiu algo que persigo há tempos e fracasso miseravelmente mesmo com 50 anos de praia: encontrar uma boa caipirinha. Depois de rodar alguns bares, elegeu a do Chanchada, em Botafogo, a melhor da cidade. Gostou num grau que o drinque aparece tanto quanto o Cristo Redentor em seu carrossel de memórias da viagem a trabalho.
- Axé, Garçom! A cidade é preta também no cardápio do bar
- Copo americano? Copo Lagoinha! Um símbolo de consenso afetivo
Mas apesar de ser tão apreciada pelos estrangeiros quanto nossos cartões-postais, a bebida é maltratada pelos cariocas. Dos botequins aos bares de coquetelaria, é vista com um certo desdém, principalmente por quem está atrás do balcão. Exagero? Nem é.
Desafio quem tiver disposição e fígado em dia a fazer uma pesquisa de campo. Ir a bares dos mais diferentes tipos e bairros e pedir uma sugestão de drinque. Aposto que vai aparecer uma enxurrada de negroni, fitzgerald, Aperol Spritz e um sem fim de batidas da casa com receitas exclusivas que já estão na família há anos, mas raramente escapam do coco, maracujá e amendoim.
Outro dia, uma amiga que sabe muito de cachaça e preza por uma caipirinha bem-feita achou que estava segura num hotel elegante e que se gaba por ter um bar de excelência. Bons bartenders, insumos de qualidade e prática de tanto realizar o desejo dos hóspedes estrangeiros, que ostentam nossa bandeira líquida em fotos nas redes sociais como um troféu. Tudo parecia estar a seu favor. Só que não. Ressabiada após o primeiro gole, descobriu em poucos minutos de conversa com o garçom que o drinque de R$ 45 tinha sido feito com uma daquelas cachaças que sobram até em encruzilhada.
Ano passado, esse descaso quase tirou a caipirinha da lista dos 50 coquetéis mais vendidos no mundo feita anualmente pela Drinks International. Mas no ranking de 2025, divulgado no mês passado, o jogo virou. Subimos 15 degraus, voltando para o meio da lista, na 32 posição. Até a publicação britânica ressaltou a importância do feito: “A caipirinha merecidamente subiu para o meio da tabela este ano. O coquetel emblemático do Brasil, e de sua bebida nacional, a cachaça, se define por sua atmosfera descontraída e preparo descomplicado”.
Mesmo de preparo simples, uma boa caipirinha exige alguns cuidados. O primeiro deles é ter em mente o que é uma caipirinha. Não me venha com caipivodca, caipisaquê ou coisas do tipo. Caipirinha é com cachaça, limão, açúcar, gelo e só. Você só gosta com morango, caju ou lichia? Não bebe cachaça de jeito algum? Tudo bem, vai fundo. Só não é caipirinha.
Mestre dos Magos da coquetelaria popular brasileira e responsável pela mamata nunca acabar na Casa Porto, no Largo da Prainha, Tomé sabe que o sucesso da receita começa já na escolha do limão. Tem que ser de casca fina. A sequência dos cortes também faz toda a diferença. “Tiro as duas calotas do lado e o talo, corto em quatro e depois cada pedaço em três”.
Mise en place feito, hora de ir para o que interessa. Limão no copo, uma colher de açúcar e carinho para macerar. Sem força para não amassar a casca da fruta e deixar aquele sabor amargo. Uma dose de cachaça branca, gelo picado, aquela mexidinha de baixo para cima, e pronto! Se for para mim ou para a Dua, com pouco açúcar, por favor.

