Vem da plateia o diagnóstico favorável, pero no mucho, recebido por grande parte dos teatros no país em 2025. A rigor, o público cresceu — e estrelou cenas imprevisíveis ao longo dos últimos 12 meses. No Rio de Janeiro, onde os equipamentos municipais registraram um aumento de 65,6% no número de espectadores em comparação aos dados de 2024, segunda a prefeitura, uma pequena turba madrugou na porta do Centro Cultural Banco do Brasil, no último mês, para garantir ingressos para “Um julgamento”, com Wagner Moura. Na capital paulista, uma montagem inédita de “Wicked” estreou em março com 80 mil ingressos vendidos. Detalhe: o musical segue em cartaz, sem parar, no Teatro Renault.
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Os exemplos se somam a outras dezenas de casos bem-sucedidos. Mas, a bem da verdade, nem tudo são vitórias no jogo teatral. Pequenos e médios produtores, além de atores com rostos desconhecidos, percorrem um périplo não só para conquistar pautas nos tablados, mas para levar gente às salas. Fazer teatro continua a ser uma gincana, como ressaltam profissionais do setor.
— O boca a boca ainda é a melhor ferramenta de divulgação. Mas isso exige tempo, o que traz dificuldade, tendo em vista que a duração média das temporadas foi reduzida para três ou quatro semanas a fim de atender a alta demanda — afirma Eduardo Barata, presidente da Associação dos Produtores do Teatro. — Sinto também que há um olhar mais mercadológico por parte das empresas patrocinadoras, que vêm apoiando, quase com uma “censura” velada, apenas espetáculos que não questionem padrões políticos e comportamentais e que também falem para a toda a família.
Companhias com trajetórias sólidas levaram aos palcos as grandes peças da temporada. Encabeçam a lista o Teatro Oficina — que, até agora, acumula um público de mais de 22 mil pessoas com a montagem de “Senhora dos afogados” sob direção de Monique Gardenberg, em cartaz até 23 de dezembro em São Paulo — e o Grupo Galpão, que, em todas as temporadas de “(Um) ensaio sobre a cegueira”, adaptação do romance de José Saramago dirigida por Rodrigo Portella, teve ingressos esgotados logo nos primeiros dias de vendas. Aliás, há uma boa notícia à vista: em cartaz até 14 de dezembro no Sesc 24 de Maio, na capital paulista, o espetáculo voltará à cena em 2026, no Rio e em Belo Horizonte.
— Acho que tudo isso é um reflexo da ânsia do público pelo encontro presencial que o teatro possibilita — celebra Eduardo Moreira, um dos fundadores do Grupo Galpão.
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Coletivos que também levaram peças concorridas aos palcos foram a Cia Brasileira (com “Ao vivo”, protagonizada por Renata Sorrah), a Cia Mungunzá (com “Elã”, dirigida por Isabel Teixeira), a Aquela Cia (que celebrou 20 anos com a irreverente “Veias abertas 60 30 15 seg”) e a Companhia do Latão (com “A banda épica na noite das Gerais”).
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Sintoma relacionado à dificuldade da produção de peças com elenco numeroso, os monólogos roubaram a cena. Lançaram-se sozinhos nos palcos, com êxito, Eduardo Moscovis (com “O motociclista no globo da morte”, dirigido por Rodrigo Portella, em cartaz até 14 de dezembro no Teatro Poeira), Danielle Winits (com “Choque! Procurando sinais de vida inteligente”, encenada por Gerald Thomas), Gregório Duvivier (com “O céu da língua”, visto por quase 200 mil pessoas), Ana Beatriz Nogueira (com “A procura de uma dignidade”, baseado num conto de Clarice Lispector) e Gabriela Duarte (com “O papel de parede amarelo e eu”).
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Ano sim, ano também, os musicais firmam as bases do mercado teatral. Saíram daí, não à toa, os maiores orçamentos e arrecadações do setor no Brasil. Com uma diferença: em 2025, uma tendência explorada nos últimos tempos foi reforçada com vigor. Além das versões de títulos importados — entre os quais “Hair”, “Meninas malvadas”, “Rocky” e “Dreamgirls” —, prevaleceram nos palcos produções essencialmente brasileiras, com dramaturgias acerca de figuras nacionais, várias delas em plena atividade. Alguns exemplos são “Djavan — O musical: vidas para contar”; “Chatô e os Diários Associados — 100 anos de uma paixão”; “Pérola Negra do samba”, sobre Jovelina Pérola Negra; “TV Colosso — O musical”; “Raul Seixas, o musical”, com Bruce Gomlevsky; “Vozes negras — A força do canto feminino”, sobre cantoras e compositoras como Elizeth Cardoso, Dona Ivone Lara, Alcione, Margareth Menezes, Iza e Ludmilla; “Para não gritar”, sobre a vida e a obra de Caio Fernando Abreu; “Território do amor”, sobre Elizeth Cardoso, Maysa, Dalva de Oliveira e Dolores Duran… E por aí vai.
Em Nova York, o teatro musical vive uma crise sem precedentes, o que tem gerado um alerta geral, conforme relatam produtores. Das 18 montagens que estrearam na Broadway nesta temporada, quase nenhuma obteve lucro. Títulos como “Boop!” e “Smash” custaram pelo menos US$ 20 milhões para serem encenados, e cada um deles fechou menos de quatro meses após a estreia, em 2025. A alta taxa de fracasso é atribuída a uma série de fatores. Os custos de fazer espetáculos de música e dança dispararam nos últimos anos, enquanto os preços dos ingressos para musicais permaneceram relativamente estáveis — o valor médio é de US$ 110 (o equivalente a quase R$ 600). Jason Laks, presidente da Liga da Broadway, estima que apenas cerca de 10% dos musicais, em 2025, são rentáveis, cerca de metade da média histórica. Em contrapartida, sucessos de longa data — entre os quais “Aladdin”, “O Rei Leão” e “Mamma mia!” — continuam em alta. Executivos chamam atenção, porém, para a necessidade de renovação no repertório dramatúrgico: apenas com novidades, como eles sublinham, o ecossistema teatral seguirá saudável.
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Referência maior na dança contemporânea, o Grupo Corpo completou cinco décadas de atividades, em 2025, com o espetáculo “Piracema”. A coreografia criada por Rodrigo Pederneiras e Cassi Abranches, com trilha inédita de Clarice Assad, se inspirou no movimento das águas dos rios — e no fluxo migratório dos peixes contra a correnteza —, numa abordagem poética sobre a fugacidade de elementos da natureza.
Outra companhia que comemorou aniversário, de maneira tardia, foi o Balé Folclórico da Bahia. A trupe excursionou por cidades do país com “O balé que você não vê”, dirigido por Zebrinha e Vavá Botelho. O espetáculo — originalmente previsto para celebrar os 30 anos do grupo — só conseguiu captar recursos financeiros para uma temporada, sete anos após a data. A montagem, coincidentemente, se inspira na luta cotidiana de bailarinos em meio aos reveses profissionais da área.
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Artistas conhecidíssimos entre o grande público — famosos sobretudo por trabalhos de grande repercussão na televisão e no cinema — voltaram aos tablados após um longo período de afastamento dos teatros. A começar por Wagner Moura, distante dos palcos desde 2009, quando encenou “Hamlet”. Na crista da onda com o sucesso atual do filme “O agente secreto”, cotado para indicações ao Oscar do próximo ano, o artista estrelou uma nova montagem da diretora Christiane Jatahy, que se inspirou num clássico texto do norueguês Henrik Ibsen.
Em “Um julgamento — Depois do do inimigo do povo”, que teve temporadas curtíssimas em Salvador e no Rio de Janeiro — e que irá compor, em 2026, a programação dos festivais de teatro de Avignon, Edimburgo e o Holland Festival —, Wagner dá vida a um cientista acusado de prejudicar a economia da cidade onde mora depois de alertar a população e os turistas que as águas do balneário local estão contaminadas. Outros medalhões que também retornaram à ribalta, com êxito, foram Natália do Vale, que não integrava do elenco de uma peça há 23 anos, e José de Abreu, há 12 anos sem pisar no palco de um teatro. A atriz tem enchido o Teatro Vannucci, na Gávea, no Rio, com a comédia romântica “A sabedoria dos pais”, estrelada junto a Herson Capri (a temporada se estende até o dia 14). Já Zé de Abreu impressionou ao surgir caracterizado como um homem com 300 quilos no drama “A baleia”, que inspirou o filme homônimo, com Brendan Fraser.
No ar na novela “Três graças”, Juliano Cazarré também rompeu um hiato de uma década distante dos teatros ao estrear o monólogo “Compliance”. A comédia escrita e dirigida por Fernando Ceylão segue os passos de um coach que promete a salvação para milhões de seguidores enquanto mantém a própria vida em frangalhos.
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A “wickedmania” invadiu o Brasil na esteira do lançamento nos cinemas, em novembro, da nova sequência de “Wicked”, um dos maiores blockbusters do ano, com Cynthia Erivo e Ariana Grande. Em São Paulo, a montagem inédita inspirada na narrativa — que, por sua vez, tem trama ancorada em elementos do clássico “O mágico de Oz” (1939) — vendeu, até agora, nada menos do que um milhão de ingressos. A produção, dirigida por Ronny Dutra, é estrelada por Fabi Bang e Myra Ruiz.
Das páginas aos tablados
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Trunfos da literatura contemporânea francesa subiram aos palcos. Autor badalado e com passagem recente pelo Brasil, Édouard Louis inspirou obras inventivas a partir de livros lançados recentemente no país. Foram os casos de “Eddy — Violência & metamorfose”, da Polifônica Companhia de Teatro, que completou dez anos, e “Papaizinho”, com Caio Scot e Felipe Rocha. “Paixão simples”, com Aline Fanju, também verteu para os tablados o livro homônimo de Annie Ernaux.

