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Popularização do murumuru garante renda e preservação na Amazônia

BRCOM by BRCOM
março 10, 2026
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Safra do murumuru na região vai de abril a junho — Foto: Valeria Bezerra/Embrapa Amapá

Quando sugeriu, em 2013, ao poder público e à sua própria comunidade trabalhar com a manteiga de murumuru como alternativa a uma antiga usina de óleo vegetal abandonada em Nova Cintra (PA), o agroextrativista Osmarino Lagos Souza precisou ser insistente. Com o tronco cheio de espinhos, a planta era rejeitada pelos produtores que consideravam que ela atrapalhava a exploração do açaí e de outros frutos, enquanto o governo estadual já tinha tido uma experiência negativa ao tentar usá-la para produção de biodiesel.

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— Na época o governo do Estado não me deu muita atenção, mas insisti dizendo que se a gente continuasse daria para empregar algumas pessoas que estavam vivendo só de Bolsa Família, e era interesse da gente ajudar essas famílias e também preservar o patrimônio do Estado — relata Souza.

Naquele período, em seu primeiro ano como presidente da Cooperativa dos Produtores de Agricultura Familiar e Economia Solidária de Nova Cintra (Coopercintra), Souza conseguiu recursos para reativar a usina de óleo vegetal processando cerca de 25,8 toneladas de caroço de murumuru vendidas por cerca de R$ 15 o quilo. Mais de uma década depois, esse valor saltou para R$ 40 o quilo, e o volume adquirido dos cooperados chega a 258 toneladas.

Ao todo, cerca de 200 coletores fornecem as sementes de murumuru para a Coopercintra atualmente, obtendo uma renda média de R$ 3 mil por safra, que vai de abril a julho, quando os frutos se desprendem da árvore.

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O valor se soma a outras cadeias da sociobiodiversidade exploradas na região, como o próprio açaí, a borracha e o buriti.

— As coisas melhoraram bastante na nossa região. Hoje, graças a Deus, quase toda comunidade tem energia e internet, já tem esse desenvolvimento — comemora Souza.

A chefe de pesquisa e desenvolvimento da Embrapa Amapá, Valéria Bezerra, explica que a valorização do murumuru tem contribuído também para a manutenção das demais cadeias da sociobiodiversidade na Amazônia.

— Teve um processo aqui de tirar praticamente tudo, deixar apenas o açaí porque o é o que dá mais dinheiro. E o que aconteceu? As abelhas foram embora. As abelhas indo embora, não tem fertilização dos frutos, não existe fruto — afirma Bezerra.

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A estimativa da Embrapa é de que cada árvore de murumuru renda, em média de 12 a 21 litros de manteiga. Considerando o valor de venda de R$ 40 obtido pela Coopercintra, esse volume representaria uma renda de até R$ 840 por cada pé de murumuru manejado pelos extrativistas.

— O murumuru dá uma renda muito boa, assim como todos os óleos obtidos da floresta — acrescenta a chefe de pesquisa e desenvolvimento da Embrapa.

Safra do murumuru na região vai de abril a junho — Foto: Valeria Bezerra/Embrapa Amapá

Dentre os compradores da manteiga de murumuru produzida pela Coopercintra está a gigante Natura. A empresa foi uma das primeiras a incluir a matéria-prima em seus cosméticos, ainda em 2003, depois de um processo de pesquisa para identificar potenciais ingredientes amazônicos.

— Existem registros de que na década de 1940 o murumuru já era uma espécie utilizada pelas comunidades tradicionais para fazer sabão em barra — relata o gerente-sênior de abastecimento das cadeias da sociobiodiversidade na Natura, Mauro Costa.

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Hoje com uma rede de fornecedores que soma mais de três mil famílias extrativistas, a empresa enfrentou resistência das comunidades quando propôs a exploração do murumuru.

— Muitos diziam que não fazia sentido ter o murumuru dentro do sistema de produção, optavam pela queima e a derrubada do murumuru para ampliar áreas de açaizais, mas depois de todos esses anos podemos dizer que temos uma cadeia sólida e robusta, com muitas famílias ganhando inclusive mais do que o que ganham com o açaí — recorda o executivo.

Segundo Costa, das 52 comunidades amazônicas com quais a Natura mantém parcerias, pelo menos 13 trabalham com o murumuru. Em Santarém do Oeste, também no Pará, a Cooperativa dos Trabalhadores Agroextrativistas do Oeste do Pará (Ascoper) está se preparando para se tornar mais uma fornecedora da companhia.

De acordo com o presidente, Manoel Edivaldo Santos Matos, a expectativa é colher 1,5 tonelada de frutos este ano para uma produção-teste, que avaliará a qualidade da manteiga gerada na região.

— A gente sabe que o murumuru tem mercado porque fizemos intercâmbio com outras cooperativas daqui do Estado. A partir daí, nós partimos então para essa atividade para ampliar nossa cesta de produtos — comenta Matos.

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Caso a produção se revele promissora, a expectativa da Ascoper é produzir até 15 toneladas por temporada, com um rendimento médio de 20% de manteiga após o processamento.

— Era uma palmeira que a gente não tinha conhecimento, então pegava para derrubar. Com o conhecimento desse potencial para gerar renda, ela se torna mais uma atividade e aquilo que seria derrubado não será mais. Então, é muito importante, tanto do ponto de vista ambiental quanto social — afirma Matos.

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