
Veerle Hegge, esposa do primeiro-ministro da Bélgica, Bart De Wever, rompeu seu silêncio em um livro no qual descreve com dureza sua anorexia, uma doença que esteve prestes a lhe custar a vida.
— Sofrer de uma doença mental ainda é um tabu. Incomoda as pessoas — conta a professora de 53 anos, que compartilha sua vida há quase 30 anos com De Wever, em entrevista à AFP.
Ela diz que é uma doença na qual é possível se “afundar cada vez mais” se não se pede ajuda:
— É importante obter ajuda cedo quando se está doente. Mas isso só é possível se o entorno se envolve.
O novo livro, intitulado “O peso do silêncio”, em tradução livre (sem edição no Brasil), centra-se nos seis meses em que essa “campeã do vômito”, como ela mesma se descreve, passou em uma unidade psiquiátrica.
Seu transtorno alimentar esteve prestes a lhe custar a vida há dois anos, mas agora ela já não está hospitalizada em tempo integral e pode passar os fins de semana em casa.
No entanto, Veerle afirma que sentiu uma grande solidão, assim como culpa por ter abandonado sua família e seus quatro filhos, com idades entre 18 e 24 anos.
Veerle Hegge, esposa do primeiro-ministro belga.
JOHN THYS / AFP
‘Silêncio pesado’
O livro conta, entre outras coisas, o “silêncio pesado” de um trajeto até o hospital em 2024 ao lado de seu marido, que então era prefeito de Antuérpia. Em casa, o tema de sua doença era “cuidadosamente evitado”.
Veerle recorda que seu marido frequentemente se sentiu “impotente” diante do que ela vivia, mas agradece por ele ter permanecido ao seu lado. Ao longo da obra, a professora mergulha o leitor em sua intimidade e em sua infância com uma mãe depressiva e, às vezes, tirânica, além da atmosfera de silêncio que reinava em sua própria família.
A autora também revela um trauma oculto por mais de quarenta anos: sofreu abusos sexuais por parte de um rapaz mais velho quando tinha cinco ou seis anos.
Veerle Hegge, esposa do primeiro-ministro belga.
JOHN THYS / AFP
— Aceitar essa verdade abriu todas as comportas. Dezoito meses depois, fui internada pela primeira vez em uma emergência por um transtorno alimentar em estado avançado. O impacto no meu corpo e no meu equilíbrio interior foi enorme — lembra.
Na casa da família em Antuérpia, onde recebe a AFP, Veerle afirma estar melhor e receber demonstrações de carinho desde a publicação de seu livro. As mensagens vêm de pessoas que enfrentaram a doença de perto e que lhe agradecem por ter abordado um tema tão difícil.
— Alguns dos que encontro se agarram a mim ou começam a chorar… Há muita tristeza e sofrimento — conta.
Veerle Hegge, esposa do primeiro-ministro belga.
JOHN THYS / AFP
