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Pai, mãe, irmão, irmã, cachaça e família

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abril 23, 2026
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Meus avós, no detalhe, tiveram 23 filhos. Cinco morreram bebês e um aos 20 anos. Ficaram os 17 da foto. Minha mãe, Dinah, é a terceira da direita para a esquerda — Foto: Arquivo pessoal

Você tem duas opções na vida. Não falo de política, direita ou esquerda. Falo de família. Ou se aproxima ou se distancia. Ou ama e releva as diferenças, pessoais e ideológicas. Ou briga, odeia e critica, tornando-se indiferente aos laços de sangue. Família não se escolhe. Não é como amizades.

Passei o fim de semana em Atafona, litoral norte do Rio, vila de pescadores que vem sendo engolida, de maneira implacável, pelo mar amarronzado do rio Paraíba do Sul. Uma vez por ano, a família Aquino se reúne numa assembleia na sede da fábrica da Thoquino, em São João da Barra, onde quase tudo começou para mim.

Foi ali que minha avó Maria Julia e meu avô Joaquim Thomaz de Aquino tiveram 23 filhos e fundaram uma fábrica de bebidas, com o Cognac de Alcatrão e a cachaça Praianinha. A empresa continua familiar e brasileira. Agora com vodka e cerveja premiadas. Completa 118 anos em junho. Nas reuniões anuais, percebemos ser muito mais que acionistas. Somos herdeiros de um romance improvável.

Essa história de amor se iniciou quando minha avó casou, aos 15 anos, com meu avô, sinaleiro de trem, à revelia de sua família. Quase todo ano Maria Julia tinha um filho. Mas não se resignava a parir e criar.

Ajudava o marido no Café Central, primeiro negócio do casal, tocando a moenda do caldo de cana. Fazia pastel. Goiabada cascão. E depois, foi parceira na fábrica de bebidas. O “conhaque do milagre” nasceu de uma fórmula secreta deixada, em sinal de gratidão, por um gringo que aportou doente em São João da Barra e foi tratado por minha avó.

Acreditamos nessa lenda. A família poderia ser personagem do realismo fantástico na Macondo do colombiano García Márquez. Até os nomes repetidos da família Buendía me remetem aos Aquino. Se algum filho de Maria Julia morria, ela batizava um novo com o mesmo nome. Histórias surreais nos parecem normais.

Fui das poucas a nascer no Rio, entre os netos. Eu e minha irmã, cariocas de Copacabana, passávamos os verões em Atafona. Íamos ao encontro de 50 primos, e de ruas de areia e vento. Churrascos, caranguejadas. Frutas exóticas para nós. E doces muito doces, como chuviscos e cajuzinhos. Andávamos a cavalo. Atolávamos na praia.

Depois, a vida me afastou da família. Por cinco décadas. Morei em Londres, Paris. Casei algumas vezes. Tive filhos. Tive amores, com e sem caráter.

Após a morte de meus pais, voltei a Atafona. E me surpreendi com a força dos laços de sangue dos Aquino. Como se a distância física tivesse sido só um hiato, sem arranhar a essência que nos une. É uma família que ri, chora, briga, faz as pazes, conversa, lembra o passado, e, claro, bebe. Honrando Maria Julia e Joaquim Thomaz.

Não discutimos política. Sabemos, nas entrelinhas, em quem cada um vai votar.

Essa pode não ser a sua história de família. Muitas vezes, a distância se instala e o silêncio se impõe. Ou então a briga, por dinheiro, ciúme ou ideologia, se torna tão amarga que corta a conexão.

Vi o novo filme de Jim Jarmusch, “Pai Mãe Irmão Irmã”. São três histórias familiares, com o humor cortante do diretor do fabuloso “Night on Earth”. Há amor e ternura, mas tamb um silêncio constrangedor entre filhos e pai, entre filhas e mãe. Como se nada tivessem a falar uns para os outros. Brindam com café e chá.

Os irmãos e irmãs são bem diferentes entre si – como costumam ser no mundo real. Uns falam mais e se preocupam mais com os pais. Outros não estão nem aí. Uns são metódicos, outros são místicos. O fio condutor das histórias é o distanciamento.

Quando nada mais interessa ou quando tudo incomoda, os encontros se tornam formalidades e obrigações. Olhamos a hora de ir embora.

Como será seu Dia das Mães?

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