A Justiça de São Paulo condenou mais um site que prestava serviços ligados a fraudes na internet, como à manipulação de audiência em sites de streaming. A decisão da 12ª Vara Cível determinou o bloqueio definitivo do domínio “Boom de Seguidores”.
Fazenda de cliques: como funciona o esquema de compra e venda de engajamento nas redes sociais
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O caso faz parte da Operação Authêntica, do Ministério Público de São Paulo em conjunto com o CyberGaeco, com apoio de entidades da indústria como a IFPI e a Pro-Música Brasil. Esta já é a terceira condenação em primeira instância envolvendo serviços do tipo.
Segundo a IFPI, o Brasil já figura entre os maiores mercados fonográficos do mundo, com a América Latina liderando a expansão global, o que acende o alerta para uma maior fiscalização.
Na internet, ainda é possível encontrar vendas de equipamentos para montagem de fazendas de celulares, que consiste no agrupamento de vários aparelhos que podem trabalhar simultaneamente no play de uma música no Spotify, por exemplo. Ou para engajar posts em redes sociais, com likes e comentários. É possível montar uma fazenda de celulares com cerca de US$ 100.
Histórico da fraude
As primeiras fazendas de clique surgiram nos primeiros anos da década passada, em países do Sudeste da Ásia, como Filipinas e Indonésia, atendendo a mercados externos. No Brasil, elas têm ganhado tração nos últimos anos, com uma clientela 100% nacional, que abrange influencers, políticos e artistas, como ressalta o professor da Universidade Estadual de Minas Gerais Matheus Viana Braz. Há dois anos, ele coleta dados sobre o trabalho dessas fazendas e diz que, em muitos casos, o perfil que paga pelo serviço já tem milhares de seguidores, mas o like nem sempre é garantido. Quando precisa que um determinado post tenha bons números de curtidas e comentários (normalmente trabalhos publicitários, os famosos #publi), é hora de recorrer ao exército arregimentado pelas click farms made in Brazil, que prometem engajamento vindo de gente de verdade.
Destes valores, quase nada fica com os “clicadores em série”, o que mostra a precarização desse trabalho. Num grupo de WhatsApp que reúne 218 participantes, de diversas partes do Brasil, uma integrante contava na sexta-feira à tarde que “lucrou” R$ 1,30 (isso mesmo, um real e 30 centavos) depois de ficar “trabalhando” por cinco horas. Estes profissionais do clique não gostam de revelar seus nomes e admitir que exercem a atividade, o que torna tudo ainda mais nebuloso. Mas o site do Ganhar no Insta divulga uma tabela de pagamento: uma curtida no Instagram vale, no máximo, R$ 0,01.
Diante de uma remuneração tão baixa, surge, então, um paradoxo: o trabalhador do clique tenta se desdobrar e cria contas falsas para realizar ações de forma automatizada, os chamados bots, espécie de robôs. O resultado é uma proliferação de perfis aparentemente reais (com fotos, destaques e curtidas), mas todos fake, atuando nas redes de forma mecânica. No fim das contas, nada é o que parece ser.

