O ex-presidente Jair Bolsonaro criticou duramente nas redes sociais uma operação suspeita do Banco Master junto à Caixa Econômica Federal cinco meses antes de Flávio Bolsonaro (PL) iniciar a negociação para que Daniel Vorcaro aportasse R$ 134 milhões na produção de um filme sobre a trajetória política do pai. A manifestação pública de Bolsonaro contradiz a versão adotada pelo filho 01 e pré-candidato ao Planalto.
Flávio e aliados da direita têm sustentado que não havia suspeitas sobre Vorcaro e seu banco à época das tratativas, mas ao longo de 2025 várias reportagens sobre aportes de fundos de previdência estaduais e municipais nos mesmos moldes da questionada operação da Caixa também foram publicadas, além de questionamentos sobre a compra do Master pelo BRB e notícias a respeito de irregularidades na relação entre os dois bancos.
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A negociação de Flávio e Vorcaro, que levou à injeção de R$ 62 milhões na produção de “Dark Horse” e só não foi adiante por conta do colapso do Master, foi revelada pelo The Intercept Brasil na última quarta-feira. Como mostramos no blog, o banco chegou a declarar em seu Imposto de Renda o pagamento de R$ 2,3 milhões a uma empresa ligada ao desenvolvimento do filme, e o acerto com Vorcaro foi confirmado pelo publicitário Thiago Miranda, que intermediou as conversas com Flávio ao lado de Eduardo Bolsonaro e do deputado Mario Frias (PL-SP).
Em pronunciamento oficial nas redes, o presidenciável do PL alegou ter conhecido o dono do Master apenas em dezembro de 2024, “quando não existiam acusações nem suspeitas públicas sobre o banqueiro”.
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Mas, em 12 de julho do mesmo ano, Jair Bolsonaro compartilhou em suas redes sociais uma reportagem publicada pela equipe da coluna sobre a demissão de dois gerentes da Caixa Asset, divisão de investimentos do banco estatal, responsáveis por um relatório se opôs à compra de meio bilhão de reais em letras financeiras do Master, operação descrita como “altamente arriscada e atípica” à época.
Ao reproduzir um print da manchete que destacava o nome do Banco Master, Bolsonaro disparou contra a operação de Vorcaro e a associou ao “sistema”: “Os senhores não leram errado. Impediram de acontecer e foram DEMITIDOS. Não é mais questão de todo dia, mas sim a cada hora [sic]. Por isso o sistema está agindo com tanto afinco em suas ações”
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A publicação irritou Vorcaro a ponto de ele desabafar com sua então noiva, Martha Graeff, pelo WhatsApp no dia seguinte. Os diálogos constam em arquivos extraídos do celular do dono do Master apreendido pela Polícia Federal (PF) e entregues à CPMI do INSS.
“O pior de ontem foi ter o Bolsonaro postado [a matéria]. Recebi mais de mil msgs [mensagens no] Instagram”, escreveu o banqueiro. “Idiota”, completou.
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“Wow, não acredito”, reagiu Martha.
“Depois todos os amigos, o próprio Ciro [Nogueira, ex-ministro da Casa Civil de Bolsonaro] ligou, mas não tinha como tirar [do ar]. [O] cara é um beócio. Alguém falou que era coisa [do] PT [e] ele postou”, esbravejou.
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Após a revelação da existência do relatório e dos indícios de retaliação aos técnicos responsáveis pelo documento, a operação entre o Master e a Caixa acabou suspensa.
O caso da Caixa Asset, porém, não era o único episódio nebuloso que pairava sobre Vorcaro e seu banco.
Àquela altura, o banqueiro já era processado por fraudes na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e, a despeito do livre acesso a lideranças dos três Poderes, tinha péssima reputação no mercado. Nos bastidores da Faria Lima, a crise de liquidez do banco já era dada como certa e muitos suspeitavam da viabilidade do modelo de negócios da instituição, totalmente amparado no Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
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Por esse motivo, a tentativa mal-sucedida de compra do Master pelo Banco BRB, anunciada em março de 2025, foi vista desde o princípio como uma operação para salvar o Master da falência ou de uma liquidação pelo Banco Central (BC), cenário que acabou se concretizando em novembro do mesmo ano.
Parte dos alertas partiu de interlocutores do setor financeiro que mantêm interlocução frequente com o entorno do senador e do PL. O presidente da CVM até julho de 2025, João Pedro Nascimento, foi indicado para o cargo por Flávio Bolsonaro ainda no mandato presidencial de seu pai.
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Após serem apresentados em dezembro de 2024, Flávio e Daniel Vorcaro mantiveram conversas regulares pelo WhatsApp para tratar sobre o filme “Dark Horse” ao longo de 2025. No período, a negociação entre o Master e o BRB emperrou e passou a sangrar em praça pública com o racha na diretoria do BC sobre a tratativa, que acabou barrada.
Em 8 de setembro, cinco dias após o Banco Central rejeitar o negócio com o banco de Brasília, Flávio mandou um áudio cobrando de Vorcaro pagamentos atrasados para a produção do filme sobre Jair Bolsonaro.
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“Sei que você também está passando por um momento dificílimo, essa confusão toda, sem você saber exatamente como vai encaminhar isso tudo. E apesar de você ter dado a liberdade, Daniel, da gente te cobrar, eu fico sem graça de ficar te cobrando, tá? Mas enfim, é porque tá num momento [sic] muito decisivo aqui do filme. Como tem muita parcela para trás, cara, tá todo mundo tenso e fico preocupado aqui com o efeito contrário ao que a gente sonhou para o filme”.
No dia 30 do mesmo mês, o jornal Estado de S. Paulo revelou que a PF havia aberto um inquérito para apurar possíveis crimes contra o sistema financeiro na operação de venda do Master para o BRB. A investigação levaria à primeira prisão de Vorcaro em novembro.
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Flávio, inclusive, cobrou novamente o banqueiro na véspera da ação da Polícia Federal que o prendeu preventivamente prestes a embarcar em um jato particular no Aeroporto Internacional de Guarulhos depois que investigadores suspeitaram de uma possível fuga para o exterior.
“Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”, escreveu o senador e pré-candidato do PL ao Planalto.
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A negociação entre Flávio e Vorcaro não é o único elo entre o clã Bolsonaro e a órbita do executivo. O pastor e empresário Fabiano Zettel, cunhado do dono do Master e tido pelos investigadores como seu operador financeiro, doou R$ 3 milhões para a campanha de Jair à reeleição em 2022 e outros R$ 2 milhões para seu afilhado político Tarcísio de Freitas (Republicanos) na corrida pelo governo de São Paulo.
Apesar dos diálogos revelados ontem, diante da repercussão das doações após a prisão de Zettel pela PF, Flávio declarou à CNN Brasil em março passado que a família jamais teve “vinculação, contrapartida ou contato pessoal” com Daniel Vorcaro.

