Este texto foi enviado na newsletter semanal O Crítico Antigourmet, em que Ian Oliver faz resenhas da gastronomia de São Paulo. Quer receber o conteúdo antes da publicação on-line? Clique aqui para se inscrever.
Existe uma regra não escrita na gastronomia paulistana: você pode criticar o prefeito, o Neymar, o trânsito, o STF, o banco que foi liquidado, mas nunca, sob hipótese alguma, critique a pizzaria que o sujeito frequenta desde a infância. A pizza, em São Paulo, não é apenas um prato; é um patrimônio afetivo, um marcador de identidade e, como ficou claro nos últimos dias, um motivo excelente para perder a compostura na internet.
Ao longo de quase um ano, um grupo de nove avaliadores — do qual fiz parte — embarcou em uma missão hercúlea: mapear, provar e ranquear as 100 melhores pizzas da cidade. A metodologia foi rigorosa. Elegemos a margherita como régua universal, já que ela não permite esconder falhas de massa ou molho sob montanhas de catupiry. Avaliamos fermentação, qualidade dos ingredientes, equilíbrio e execução. Pagamos nossas contas. E, na última semana, publicamos o resultado no Instagram.
O que se seguiu foi um estudo fascinante sobre a psicologia do consumidor paulistano. Nos mais de 5 mil comentários acumulados nas postagens, a indignação não era sobre a metodologia, mas sobre a audácia de questionar certezas estabelecidas.
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A crítica mais recorrente foi a clássica “faltou a pizzaria X”. É uma reação natural. O paulistano tem uma relação monogâmica com sua pizzaria de bairro. Ele não quer saber se a fermentação da massa é de 48 horas ou se o tomate é San Marzano; ele quer a segurança do hábito. Quando a sua pizzaria não aparece no ranking, ele não entende isso como uma escolha editorial, mas como uma ofensa pessoal.
Houve quem se ofendesse com a presença de redes de fast-food como Domino’s e Pizza Hut, ainda que nas últimas posições. “Como podem estar na frente da minha pizzaria favorita?”, questionaram. A resposta é dolorosa, mas necessária: porque, por piores que sejam, elas entregam exatamente o que prometem, com um padrão industrial inabalável. Já a pizzaria “tradicional” que cobra R$ 120 por um disco de massa crua afogado em queijo de qualidade duvidosa está se levando a sério. Com isso, comete uma falha grave: a pretensão.
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Outro ponto de atrito foi a suposta preferência pelas pizzas napolitanas em detrimento das “tradicionais paulistanas”. “O ranking é só de napolitanas”, reclamaram alguns. Não é verdade. Houve pizzas inspiradas no estilo napolitano mal ranqueadas, e também paulistanas que foram bem (como a Castelões e a Braz, que ficou no top 10). O que acontece é que a pizza napolitana, por premissa, exige um rigor técnico que a pizza paulistana muitas vezes ignora em nome da fartura.
A pizza paulistana clássica — aquela com borda grossa, massa pesada e cobertura que desafia a gravidade — tem seu valor nostálgico. Mas, quando submetida a uma análise técnica, muitas vezes desmorona. O excesso de ingredientes não é um estilo; é, frequentemente, um atalho para mascarar uma massa medíocre. E quando apontamos isso, a reação é visceral. Como bem observou um comentarista indignado com a nossa avaliação da Cristal (que amargou a 100ª posição): “A Cristal é a pizzaria da burguesia paulistana… a pizza em si é uma droga!”. Ele entendeu o ponto. A Cristal vende status e pretensão, não pizza.
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E, claro, não faltaram os ataques aos mensageiros. “Críticos são arrogantes e nunca abriram um negócio”, disparou um leitor. “O pix não chegou”, acusou outro, sugerindo que as posições foram compradas. É a velha tática de desqualificar o árbitro quando não se gosta do resultado do jogo.
A verdade é que avaliar comida é um exercício de vulnerabilidade. Exige colocar o próprio paladar à prova e, mais importante, ter a coragem de dizer que o rei está nu — ou, neste caso, que a pizza da moda é apenas um pedaço de pão caro. Quando apontamos que a Paul’s Boutique (54ª posição) ou a Fôrno (60ª) vivem mais de hype e influenciadores do que de consistência, sabíamos que haveria retaliação. Mas a crítica gastronômica não existe para validar o gosto da maioria; ela existe para tensioná-lo.
No fim das contas, o ranking cumpriu seu papel. Ele tirou a pizza do pedestal da intocabilidade e a colocou no centro do debate. Fez as pessoas discutirem fermentação, qualidade de ingredientes e, sim, até o “tamanho lunar de uma fatia de tomate”. Se isso incomodou, ótimo. São Paulo ama pizza. E justamente por isso, ela merece ser tratada com mais rigor.
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