Fernanda Torres estava no elenco da novela “Selva de Pedra”, da TV Globo, quando recebeu o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes, no dia 19 de maio de 1986, há exatos 40 anos, por “Eu sei que vou te amar”, de Arnaldo Jabor. Aos 21 anos, a filha de Fernanda Montenegro e Fernando Torres já tinha atuado em três outras novelas e recebido o prêmio de melhor atriz no Festival de Gramado por “A marvada carne”, de André Klotzel. Cannes foi o primeiro reconhecimento internacional da artista, que, no ano passado, venceu o Globo de Ouro de Melhor Atriz por “Ainda estou aqui”, de Walter Salles.
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Em 1986, a atriz foi a Cannes para a exibição de “Eu sei que vou te amar”. No filme, a personagem dela e o ex-marido, encarnado por Thales Pan Chacon, protagonizam um jogo da verdade sobre a vida. Mas Fernanda não pôde ficar na França até o fim do evento, por causa das gravações de “Selva de Pedra”. Quando circulou a notícia sobre o prêmio, ela já estava no Rio, mas ninguém da imprensa conseguiu encontrar a artista para comentar a grande novidade. Naquela segunda-feira, a atriz tinha passado a manhã gravando e, depois, cansada, decidiu ficar “escondida” dos repórteres.
Apenas no dia seguinte, às 8h, quando chegou aos estúdios da Globo para gravar 40 cenas de “Selva de Pedra”, Fernanda deu entrevista sobre a premiação. Ela contou que soube da novidade por meio de um telefonema do seu então marido, o diretor Lui Faris, que estava em Cannes. “Minha primeira reação foi de total espanto. Fiquei repetindo pra me convencer: ‘Gente, eu ganhei, eu ganhei’. Não sei como teria sido se eu estivesse lá na premiação. Aqui, foi indolor. Não tinha expectativas. Mas resolvi não ver ninguém. Tirei o dia para descansar e pensar na vida”.
Naquele dia, as gravações de sua personagem Rosana Reis, na novela, foram por vezes interrompidas quando os colegas de cena transgrediam o script fazendo menções ao prêmio e causavam risos em todo o set. Logo no ensaio, Miguel Falabella invadiu o estúdio e, bem ao estilo de seu personagem Miro, de “Selva de Pedra”, gritou: “Jamais vou te perdoar por isso!”. A partir daí, ficou difícil para Denis Carvalho, diretor da novela, retomar o clima de seriedade do trabalho. A cada novo grito de “ação”, algum membro do elenco dava um jeito de encaixar uma caco sobre o prêmio em Cannes.
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“Quando o Jabor chamou para fazer o teste, eu li o roteiro e disse pra mim mesma que aquela ali não era eu”, relembrou Fernanda ainda no camarim, preparando-se para gravar. “Mesmo assim, decidi fazer o papel de uma mulher bem mais velha. Foi uma loucura de tanto trabalho. Dois personagens falando o tempo todo, trancados dentro de uma casa. Mas Jabor acreditou, e eu também”, descreveu ela, antes de continuar: “O filme é um parque de diversões do cinema. Tem plano, contraplano, close, grua… É uma produção independente, mas não é hermética. Foi uma surpresa pra mim vê-lo pronto”.
Depois de “Selva de Pedra”, Fernanda só voltou a aparecer numa novela em 2001, quando atuou em “Filhas da mãe”. Mas, ao longo da carreira, a atriz brilhou em séries para a TV como “Os normais” e “Entre tapas e beijos”, trabalhou em grandes filmes como “Terra Estrangeira” (1996), “O que é isso, companheiro?” (1997) e “Casa de areia” (2005) e protagonizou diferentes espetáculos teatrais. Em 2013, estreou como escritora com o elogiado livro “Fim” (Companhia das Letras). “Ainda estou aqui”, na qual interpreta a advogada Eunice Paiva, é o trabalho mais recente de Fernanda a vir a público.

