A Bolsa voltou a cair na sessão desta terça-feira e atingiu o menor patamar desde 20 de janeiro passado, aos 174 mil pontos. O principal índice da Bolsa, que registrou alta firme e se valorizou até 23% até meados de abril, reduziu seu ímpeto no ano. Agora, o Ibovespa diminuiu sua valorização para 8% no ano. Da máxima recorde registrada no dia 14 do mês passado, acima dos 198 mil pontos, o índice registra queda de 12%.
Mas o que causou a perda de tração da renda variável? Entenda abaixo em três pontos:
Conflito no Irã maior do que o previsto
Após dois meses e vinte dias de conflito no Oriente Médio, com o tráfego no Estreito de Ormuz comprometido e o preço do petróleo ainda acima dos US$ 100, a perspectiva é de que a commodity neste nível de preço por um tempo maior do que o estimado inicialmente implique em juros maiores nas economias.
É que, como o petróleo é matéria-prima importante para transportes em todo o mundo, a elevação dos custos com combustíveis implica em um aumento de preços generalizado em bens e serviços nas economias globais. Pelo Estreito de Ormuz, também há tráfego importante de fertilizantes, essenciais para a agricultura. Com o fluxo restrito, o aumento dos preços também implica em repasse para alimentos.
E o movimento também é negativo para a renda variável:
— As expectativas inflacionárias para o mundo como um todo pioraram. Aqui, se a taxa terminal prevista para a Selic estava por volta de 11,5% antes do conflito, hoje está por volta de 14%. Isso impacta num custo financeiro mais alto para as empresas por mais tempo — diz Marcel Andrade, responsável pela área de Soluções em Investimentos da SulAmérica Investimentos.
Com custos de dívida maiores, fica difícil para as empresas destinarem mais dividendos aos acionistas. E, com juros maiores, a tendência é de menor consumo dos produtos e serviços de empresas listadas, também limitando seus resultados.
Realização após alta firme
Para Fernando Fontoura, sócio da gestora Persevera Asset, a valorização firme do início do ano — que chegou a 23% em reais e superou os 30% se medida em dólares, comparação que importa para o estrangeiro — também contribuiu com o movimento de realização neste momento:
— Qual a história ao longo deste ano? É essencialmente de movimentos liderados pelo investidor estrangeiro. E o que temos é pausa do gringo. Desde a metade de abril, o trade (investimento) deu muito certo e parece que o gringo resolveu “botar no bolso” — ele diz.
A Bolsa brasileira chegou a ver a entrada de R$ 65 bilhões do investidor estrangeiro, mas, desde meados de abril, vê uma reversão deste ímpeto. Somente em maio, a classe já retirou R$ 9 bilhões do mercado de ações brasileiros e, no ano, o aporte internacional está positivo em R$ 46,9 bi.
Volta de apostas em inteligência artificial
Após resultados fortes do primeiro trimestre e mesmo diante do conflito no Irã, as apostas em inteligência artificial voltaram a tomar espaço na agenda dos investidores globais. É que apesar dos países emergentes estarem se valorizando diante da tese de um dólar mais fraco — movimento iniciado no ano passado —, as companhias de tecnologia demonstram resiliência e entrega:
O primeiro ponto é a reversão do fluxo de capitais. Existia dúvida grande sobre empresas de tecnologia grandes, sobre capex (investimentos) em IA. Por isso, os mercados emergentes vinham recebendo bastante fluxo. Só que os resultados das big techs mo primeiro trimestre vieram fortes e a dúvida que se tinha sobre o capex parece sumir, de que (os investimentos estão) se pagando. Logo, houve reversão de fluxo de capitais para as empresas de tecnologia americanas — diz Andrade, da SulAmérica.
Peso eleitoral
Ainda que menor, as eleições estão, em parte, no preço do câmbio e do mercado acionário.
Os juros futuros, que prevê o ritmo de inflação nos anos seguintes, tem sido majoritariamente pressionados pela alta do preço do petróleo, mas também tem refletido o peso eleitoral. A avaliação é de Felipe Tavares, economista-chefe da BGC Liquidez.
Para ele, a perda de competitividade do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como pré-candidato a presidência diante da revelação de ligação com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Master, tende a pressionar a estimativa dos juros futuros.
— A mudança de um ciclo político era positiva para as perspectiva de reformas (dos gastos públicos). O nome que se mostrava favorito para fazer essas mudanças era o Flávio. Quando as pesquisas mostram que essa mudança de ciclo está mais difícil, você afasta a probabilidade de ter reformas a partir de 2027 — avalia ele, sobre o peso nos juros mais longos.
O mercado financeiro vê uma mudança do espectro político como mais provável de reduzir a trajetória entre a relação da dívida pública e o PIB. Esta relação deve ultrapassar os 80% do PIB neste ano, prevê algumas instituições. Esta relação é considerada sensível. Com este patamar, os investidores pedem juros mais altos para apostar no país, já que as chances de um eventual calote são maiores. E, como visto acima, juros maiores tendem a diminuir a velocidade do crescimento da economia e impactar os resultados financeiros das empresas.
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