Oito garrafas de Château d’Yquem produzidas no fim do século XIX e escondidas por décadas sob o piso de um castelo na República Tcheca passaram por um delicado processo de restauração e deverão integrar uma futura exposição pública. Os vinhos faziam parte de uma coleção de 136 garrafas descoberta sob o assoalho da capela do castelo de Becov nad Teplou, no oeste do país.
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Considerado um dos vinhos brancos doces mais valorizados do mundo, o Château d’Yquem restaurado foi produzido em 1892 e 1896. As garrafas têm cerca de 130 anos.
A coleção pertencia à família nobre Beaufort-Spontin, que deixou a antiga Tchecoslováquia às pressas no fim da Segunda Guerra Mundial. Os proprietários eram suspeitos de colaboração com os nazistas. O esconderijo guardava não apenas os vinhos, mas também o relicário de São Mauro.
O local foi descoberto em 1985 pela polícia secreta do regime comunista. O relicário foi levado imediatamente para Praga, passou por restauração e retornou depois a Becov, onde passou a ser exibido ao público em 2002. As garrafas, porém, permaneceram esquecidas no esconderijo.
Somente há dez anos, durante um inventário, a coleção foi redescoberta e uma operação de recuperação teve início. O Château d’Yquem, localizado em Sauternes, na região francesa de Bordeaux, assumiu a restauração dos oito exemplares de sua produção encontrados no conjunto.
O processo de verificação incluiu exames laboratoriais e uma degustação limitada para avaliar a autenticidade e o estado de conservação do vinho.
— Provamos uma quantidade muito pequena para ter certeza de que, do ponto de vista aromático, do equilíbrio no paladar e da percepção geral, o vinho correspondia a um Château d’Yquem daquela idade — explica Toni El Khawand, mestre da adega do Château d’Yquem.
Os testes laboratoriais confirmaram a autenticidade das garrafas. Após essa etapa, as rolhas foram substituídas e cápsulas protetoras passaram a revestir os recipientes originais.
Como o vinho havia cedido gradualmente ao oxigênio ao longo das décadas, a vinícola precisou reengarrafá-lo. Depois do procedimento, apenas cinco garrafas originais retornaram completamente cheias ao castelo.
Durante a apresentação das peças restauradas, El Khawand descreveu a experiência de abrir o vinho como um encontro com o passado.
— O que realmente fazemos quando o abrimos é revelar uma cápsula do tempo. Retiramos essa rolha que manteve o líquido isolado do ambiente ao redor e, de certa forma, da passagem do tempo — diz.
Segundo o mestre da adega, o vinho surpreendeu pelo frescor mesmo após mais de um século.
— É muito, muito fresco, com uma frescura quase ácida.
Ele relatou ainda aromas de cedro, frutas secas, açafrão, canela e noz-moscada, além de “aromas mais típicos de um Château d’Yquem dessa idade: notas de chocolate, café, mocha e aromas de oud”.
Coleção pode valer milhões, mas destino deve ser museu
Embora safras recentes do Yquem sejam vendidas por centenas de dólares por garrafa, o Instituto Nacional do Patrimônio da República Tcheca estima que toda a coleção possa alcançar cerca de US$ 5 milhões em um eventual leilão.
El Khawand evitou atribuir valor financeiro ao conjunto.
— Antes de tudo, isso tem valor moral e histórico — defende.
Para ele, a importância das garrafas ultrapassa o mercado de colecionismo.
— Em última instância, é uma memória. Uma memória líquida, certamente, mas é uma memória de todos aqueles que vieram antes de nós, do trabalho que foi realizado.
Não há planos para vender as garrafas. O castelo de Becov pretende exibir todos os recipientes da coleção que ainda contêm vinho e conhaque, incluindo um xerez Pedro Ximénez de 1899 e um vinho do Porto de 1892.
Para viabilizar a mostra, o local iniciou uma campanha de arrecadação destinada a financiar a nova exposição. A responsável pelas coleções do castelo, Katerina Nyvltova, afirmou que o avanço do projeto dependerá dos recursos obtidos.
— Se conseguirmos arrecadar o dinheiro, certamente vamos querer fazer uma análise mais aprofundada dos vinhos. E, se pudermos restaurar o restante, certamente faremos isso — diz.

