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O técnico da seleção demitido pelo presidente do Brasil antes da Copa

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junho 3, 2026
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"A Saga do Tri": Zagallo (Bruno Mazzeo), Pelé (Lucas Agrícola) e João Saldanha (Rodrigo Santoro) — Foto: Divulgação

O clima na seleção brasileira não estava nada bom quando João Saldanha reuniu os jogadores e a comissão técnica no gramado do Itanhangá Golf Clube, em São Conrado, na Zona Sul do Rio, para tentar apaziguar os ânimos. “Vocês devem estar lendo muita coisa nos jornais, mas é preciso que saibam que eu não pedi demissão e nem vou pedir”, disse o treinador gaúcho na tarde daquela terça-feira, 17 de março de 1970: “Fui convidado para o cargo e levo o barco até o fim, se quiserem”.

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Por volta das 19h do mesmo dia, em reunião na sede da Confederação Brasileira dos Desportos (CBD), o dirigente Silvio Pacheco comunicou a decisão do presidente da entidade, João Havelange, de “dissolver” a comissão técnica, semanas antes da viagem para a Copa do Mundo do México. No estacionamento do prédio, em conversa com repórteres ávidos por informações, Saldanha reagiu à notícia com a sua peculiar ironia: “Dissolver, não, porque não somos sorvetes”, disse ele. “O que aconteceu é que fomos demitidos”, concluiu, antes de dar a partida em seu Volkswagen.

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O episódio é um dos muitos resgatados pela série “Brasil 70: A Saga do Tri”, com Rodrigo Santoro no papel de Saldanha. A produção, que estreou na semana passada, remonta a trajetória da seleção a partir da contratação do treinador até a conquista da Taça Jules Rimet, na Cidade do México. Ao longo de cinco episódios, a série usa inteligência artificial para reproduzir lances históricos dos jogos, mas também traz à tona dramas pessoais e conflitos internos envolvendo jogadores e comissão técnica, às voltas com as tentativas do governo militar de usar a seleção para fazer propaganda do regime.

“A Saga do Tri”: Zagallo (Bruno Mazzeo), Pelé (Lucas Agrícola) e João Saldanha (Rodrigo Santoro) — Foto: Divulgação

A CBD causara surpresa, em fevereiro de 1969, ao chamar Saldanha para conduzir a seleção ainda nas eliminatórias da Copa que aconteceria no ano seguinte. Além do inusitado que era um comentarista esportivo à frente do time, o cronista gaúcho era militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), banido pela ditadura militar que governava época. “No Brasil, é preciso coragem, muita coragem, para escolher o homem certo”, elogiou Nelson Rodrigues em sua coluna no GLOBO. “A partir do momento em que escolheu João Saldanha, Havelange descobriu, ao mesmo tempo, o caminho da vitória”.

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O jornalista nascido em Alegrete, no Rio Grande do Sul, não era pessoa fácil. Intransigente e irascível, arrumava encrenca com quer que fosse. Em 1967, depois de sugerir que o goleiro Manga, do Botafogo, tinha sido “comprado” antes de um jogo contra o Bangu, Saldanha, que era botafoguense roxo, chegou a disparar dois tiros no chão e colocou o atleta para correr na sede do clube carioca. Hoje, essa atitude certamente renderia uma punição. Na época, ficou por isso mesmo.

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O cronista era louco por futebol, tinha um conhecimento invejável sobre o esporte e comunicava bem a sua forma de ver o jogo. Ex-jogador do Botafogo, tornou-se um dos comentaristas mais populares do país. Não abria mão de fazer críticas severas quando, por exemplo, os cartolas do esporte interferiam com o que acontecia entre as quatro linhas em prol de seus interesses. Era, acima de tudo, alguém preocupado com a integridade do futebol. Chegou na seleção dizendo que não aceitaria acordos de bastidores para escalar este ou aquele jogador só para agradar gente poderosa.

Pelé, Jairzinho e Zagallo após jogo contra Inglaterra na Copa de 1970 — Foto: Arquivo/Agência O GLOBO
Pelé, Jairzinho e Zagallo após jogo contra Inglaterra na Copa de 1970 — Foto: Arquivo/Agência O GLOBO

Nelson Rodrigues chamava Saldanha de “João sem medo”. O treinador mandou às favas o conhecido apelido de “seleção canarinha” e avisou que montaria um “time de feras”. Seu elenco tinha como base as equipes do Santos e do Botafogo e, portanto, valia-se do entrosamento entre os jogadores dos dois melhores times em ação naqueles tempos. Sob a sua batuta, o escrete formado por craques como Pelé, Tostão e Gerson obteve uma sequência histórica de seis vitórias em seis jogos das eliminatórias, garantindo com facilidade uma vaga no Mundial de 1970.

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Tudo parecia pronto para a conquista da Taça Jules Rimet, após uma campanha terrível na Copa da Inglaterra, em 1966. Mas havia uma tempestade a caminho. Saldanha jamais escondera suas críticas ao governo militar. Como mostra a série da Netflix, em janeiro de 1970, durante o sorteio dos grupos da Copa, no México, ele entregou a representantes de diversos países um dossiê citando mais de 3 mil presos políticos e centenas de opositores torturados e assassinados pelo regime. O Brasil vivia, então, o período mais violento da ditadura militar. O Ato Institucional 5 (AI-5) estava em pleno vigor.

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O governo dos generais estava em franca campanha para se aproximar da seleção. Queria faturar apoio público com o eventual êxito do time no México. Em 8 de março de 1970, um repórter assuntou Saldanha sobre uma entrevista em que o presidente Médici manifestou sua vontade de ver o atacante Dario José dos Santos, o Dadá Maravilha, do Atlético-MG, convocado para a seleção brasileira. Foi quando o treinador respondeu com uma declaração célebre que, nos bastidores, viria a selar sua demissão: “O presidente escala o ministério, e eu escalo a seleção”.

João Saldanha no banco durante empate da seleção com Bangu em 1970 — Foto: Arquivo/Agência O GLOBO
João Saldanha no banco durante empate da seleção com Bangu em 1970 — Foto: Arquivo/Agência O GLOBO

O atrevimento coincidiu com uma fase em que a equipe vinha sendo questionada. No dia 4 de março, o Brasil perdera de 2 a 0 para a Argentina num amistoso em Porto Alegre, com Médici no estádio. Quatro dias depois, a seleção deu o troco, vencendo por 2 a 1 no Maracanã, no Rio, outra vez sob os olhos do presidente, que assistiu ao jogo com radinho de pilha no ouvido. Entretanto, no dia 14 do mesmo mês, o time empatou em 1 a 1 com o Bangu. A crônica daquela partida publicada pelo GLOBO criticou um elenco “sem padrão, sem ritmo e sem condição física satisfatória”.

Na noite de 12 de março, em um de seus arroubos de fúria, Saldanha entrou armado e esbravejando na concentração do Flamengo, em São Conrado, para tirar satisfação do treinador rubor-negro, Dorival Knipel, que horas antes ofendera duramente Saldanha em entrevista no rádio. O clube carioca reagiu exigindo da CBD um pedido público de desculpas e ameaçando entrar na Justiça contra o “invasor”. Dias depois, o presidente da comissão técnica, Antônio do Passo, pediu demissão criticando a falta de padrão de jogo e de “tranquilidade” no ambiente da seleção. Crise instalada.

Para completar, no dia 16 de março, Saldanha revelou que não escalaria Pelé para um amistoso contra o Chile, dali a seis dias, em São Paulo. Havia especulações de que o craque não estava enxergando bem à noite. Ainda assim, o técnico foi questionado. Ao se justificar, ele proferiu um termo racista que não seria tolerado hoje: “Cheguei à conclusão de que o crioulo está mal e precisa descansar um pouco mais para voltar a sua melhor forma”. Horas mais tarde, na derradeira reunião na sede da CBD, no Centro do Rio, Saldanha foi demitido com toda a sua comissão técnica.

À época com 39 anos, Mário Jorge Lobo Zagallo foi escolhido como treinador, pregando “humildade” no comando. No dia 20 de março, Dadá Maravilha chegava ao Rio para treinar com a seleção.

O capitão Carlos Alberto Torres segura taça com presidente Médici em Brasília — Foto: Arquivo/Agência O GLOBO
O capitão Carlos Alberto Torres segura taça com presidente Médici em Brasília — Foto: Arquivo/Agência O GLOBO

Nos jornais daquela época, não há pistas de que a influência de Médici pesara na demissão. O próprio ex-treinador, em seus artigos diários publicados no GLOBO, não definiu a desavença com o presidente como motivo para sua saída, alegando que a demissão fora provocada mais por seus constantes embates com cartolas do Brasil e da Europa. Hoje, porém, sabemos que a imprensa estava sob rígida vigilância, com censores do governo presentes nas grandes redações para impedir qualquer conteúdo prejudicial à imagem do regime. Após o fim da ditadura, em 1985, a verdade veio à tona.

Em 25 de maio de 1987, Saldanha foi entrevistado no programa “Roda Viva”, da TV Cultura. Ele revelou que sabia que seus dias na seleção estavam contados quando Médici assumiu a presidência, em outubro de 1969, após a morte de Artur da Costa e Silva. Segundo o jornalista esportivo, com Médici, “começou a pressão”. Saldanha disse que Havelange chegou a implorar: “Pelo amor de Deus, chama o Dario que a gente fica bem com os homens”. Mas que ele, então, respondia, “Havelange, não adianta se abaixar, quanto mais a gente se abaixar, mais eles vão malhar”. Ainda de acordo com o ex-treinador, ele deixou claro que Dario não seria convocado: “Aí, pronto, me mandaram embora”.

Em 2014, numa entrevista à “Rádio Gaúcha”, o próprio Dadá Maravilha reconheceu a influência de Médici tanto em sua convocação para a Copa do México quando na queda do treinador que se recusava a chamá-lo. “O presidente falou que eu tinha que ser convocado e mandou tirar o Saldanha. Quem me contou foi o João Havelange, então presidente da CBD. Aí, o Havelange botou o Zagallo e ele disse: ‘conheço a fera, ele merece’. Fico triste em falar que o presidente me convocou. Mas ele pedindo a convocação me ajudou muito, isso eu tenho que reconhecer. Médici, descanse em paz”.


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