Um ambiente informal e democrático, no qual músicos e público se reúnem em torno de uma mesa para tocar e cantar, tudo isso regado a cerveja gelada e muita descontração. Assim são as rodas de samba. Elas se estabeleceram no Rio de Janeiro a partir dos encontros nas casas das tias baianas, como Ciata, no começo do século passado. De lá para cá, elas se multiplicaram e se espalharam pelos diversos cantos da cidade, sobretudo nos últimos anos. O GLOBO reuniu um time de 50 bambas, entre sambistas, produtores culturais, jornalistas, profissionais do mundo do samba e influenciadores e pediu que elencassem suas favoritas, dando origem a uma lista bem diversa. CLIQUE AQUI E CONFIRA A SELEÇÃO.
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Consta, oficialmente, que são 150 rodas na cidade, mas como há uma defasagem de dois anos desde o último levantamento feito pela prefeitura, há quem aposte que esse número já tenha passado de 250. Tem para todo gosto: das mais tradicionais às moderninhas; das muito badaladas às menos conhecidas; e das mais distantes até aquelas pertinho da sua casa. Os jurados indicaram suas três rodas por ordem de preferência, com peso diferente para a mais bem colocada.
O ranking do GLOBO está disponível em uma ferramenta on-line, mas cada leitor pode criar seu próprio top 10, selecionando suas rodas de samba favoritas. Esse resultado ainda pode ser compartilhado nas redes sociais.
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Na votação do GLOBO, o primeiro lugar coube ao Terreiro de Crioulo, roda surgida há 14 anos em um quintal de Realengo, na Zona Oeste, com capacidade para receber até 1.200 pessoas. A roda atrai público de diferentes regiões da cidade e, com o sucesso, passou a se apresentar em outros locais, inclusive fora do Rio. Considerada também a roda carioca mais preta, seus tambores ecoam ancestralidade em chão de terra batida que remete à África.
O cantor e compositor Arlindinho, apontou o Terreiro de Crioulo entre suas favoritas. Para o artista, ela é um símbolo de resistência. Pelo regulamento, ele não pôde votar na sua roda Arlindinho das Antigas — que ficou entre as dez mais votadas.
— O Terreiro de Crioulo representa a resistência do samba de raiz, do samba antigo. Se o samba é uma religião, podemos dizer que eles são o culto. Já fizemos algumas coisas juntos e também já participei em alguns eventos deles. A energia e a ancestralidade do samba com certeza está ali com eles — disse o sambista.
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Forte interação com o público faz o sucesso do Terreiro de Crioulo
Marina Calderon
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A roda de Realengo surgiu com o objetivo de resgatar sambas que não se ouviam mais nas rádios, de compositores como Candeia, Monarco e outros tantos da Velha Guarda. A ideia era também atrair um público que estava distante do samba, por conta do horário em que a maioria desses eventos normalmente acontecem, em geral, muito tarde.
— A gente queria recuperar os antigos (frequentadores), com um samba que começasse às 5h da tarde e terminasse às 10h da noite, com aquele papo de peixinho frito, torresmo, mocotó, feijoada e cantando samba — explica PH Mocidade, um dos fundadores e organizadores do Terreiro de Crioulo.
Moradora de Realengo, a analista de integração Jocilene Tavares, de 44 anos, concorda com o júri de bambas que a apontou como a melhor roda da cidade:
— É, sem sombra de dúvida, a melhor roda do Rio. Gosto do ambiente. Tem um clima familiar e é seguro, além do samba, obviamente, que é de primeira qualidade e de que gosto muito. Os músicos são todos muito bons. E tem essa coisa de ancestralidade e raiz — aprova a frequentadora
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Samba do Trabalhador se tornou programa obrigatório das segundas-feiras, no Clube Renascença
Marina Calderon
A segunda roda mais votada surgiu de uma maneira despretensiosa há mais de duas décadas no Clube Renascença, no Andaraí. A ideia inicial era promover um encontro descontraído de músicos nas tardes de segundas-feiras, tradicionalmente dia de folga para essa categoria profissional. Deu tão certo que, 21 anos depois, virou programa obrigatório de cariocas e turistas.
Para Moacyr Luz, que comanda o Samba do Trabalhador, a posição que a roda ocupa reflete o trabalho feito pelos músicos para levar o samba adiante, com esperança, harmonia e união:
— Enquanto houver uma roda de samba, a vida vai ter esperança, harmonia e a união das pessoas. O samba é um jornal, cada música é uma notícia e a gente está aí para denunciar ou comemorar. Se estamos entre os primeiros hoje, é porque fazemos parte de um conjunto de rodas boas que existem no Rio e no Brasil, que sempre levam o nome do samba para tudo que é lugar — festeja Moa, como é conhecido.
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O gerente de marketing Josias Fernandes, de 44 anos, morador no Santo Cristo, conta que frequenta o Samba do Trabalhador praticamente desde o começo. E, ao longo do tempo, presenciou seu crescimento:
— O que não mudou foi qualidade do samba. Também não era para menos, todos são músicos profissionais do mais alto nível — testemunha o gerente de marketing Josias Fernandes, de 44 anos, morador no Santo Cristo.
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A medalha de bronze coube a uma roda comandada pela dupla Mosquito e Inácio Rios, dois dos sambistas mais respeitados de sua geração: a Encontro Casuais. Há pouco mais de dez anos, os dois amigos resolveram unir seus talentos e desde então lotam o Beco do Rato, na Lapa, nas noites de quinta-feira. A roda é marcada por improviso, convidados surpresa e forte interação com o público.
— Encontro Casuais é uma roda muito sincera, verdadeira e nunca se repete. O repertório é sempre novo, a gente sempre explora o nosso conhecimento e tem boa frequência. É um público que sabe o que está rolando e o que está cantando. O Inácio é um grande cara, que sempre chega com pérolas e coisas novas e da antiga, para deixar a gente municiado de repertório. E o Beco do Rato tem cada vez mais se tornado um polo do samba carioca. Acho que é por isso que o Encontro Casuais junto com o Beto do Rato só tem crescido — define Mosquito.
Mosquito comanda com Inácio Rios a roda Encontros Casuais, às quintas-feiras, no Beco do Rato
Marina Calderon
Se num samba você perguntar por Pedro Assad Medeiros, ninguém vai saber quem é. Mas Mosquito, seu apelido e nome artístico é uma figurinha carimbada no meio. Em breve, seu talento poderá ser conferido também nas telas, onde dará vida a outro bamba: Zeca Pagodinho, na cinebiografia “Deixa a vida me levar”. Já Inácio é filho de um sambista consagrado: Zé Katimba. Ele respira samba desde criança. Para o sambista, o sucesso da roda está nos encontros tanto no palco como na plateia.
— O Beco do Rato é um reduto de sambistas, a casa de samba do Rio de Janeiro. E o Encontros Casuais é isso: você poder receber um ator, uma atriz, outro sambista, um artista de outra vertente. Aqui todo mundo se confraterniza, canta samba, e a gente vai assim. Quem quer conhecer o samba feito no Rio vem aqui, onde estamos há 11 anos — completa Inácio Rios.
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Terreiro de Mangueira é um sucesso que atrai um público apaixonado pelo samba
Reprodução
O Top 5 é completado pelo Terreiro de Mangueira e pelo Samba da Volta. A primeira roda surgiu há cerca de sete anos numa laje da Rua Visconde de Niterói, na subida da Mangueira. O crescimento se deu à base do boca a boca e ganhou impulso depois de uma visita feita pela sambista Teresa Cristina. Bastou um comentário elogioso da cantora e compositora nas ruas redes sociais para tornar o espaço um dos mais disputados da cidade.
— O que não mudou foi a nossa essência nem o nosso repertório. Continuamos fazendo o nosso samba sem grandes ambições — analisa Valmir Ferreira Marques, um dos organizadores da roda, onde é possível ouvir de Cartola, Nelson Cavaquinho e Candeia a Paulo César Pinheiro.
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O Samba da Volta foi fundado após o isolamento da pandemia de Covid
Vitor Melo
Surgida após a pandemia, daí o nome, o Samba da Volta contribuiu para a renovação do público das rodas de samba, atraindo muitos jovens. Nascida na Rua do Ouvidor, cresceu e se mudou pouco depois para a Rua da Constituição, também no Centro, num endereço que durante a semana serve de estacionamento. O sucesso a levou para outros endereços na cidade, onde também se apresenta, como as quadras das escolas de samba.
— O Samba da Volta nasceu de forma muito espontânea, entre amigos, na rua, movido apenas pelo amor ao samba e pela vontade de estar junto para celebrá-lo. Ver a nossa caminhada alcançar essa posição com votos de tanta gente que admiramos e se inspira é muito simbólico para todos nós. É um reconhecimento da nossa verdade, da nossa entrega e da nossa responsabilidade em reverenciar os sambistas que vieram antes de nós — afirma Claudio Henrique Vaz, músico do Samba da Volta.
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No princípio era a roda
A origem das rodas, segundo historiadores, pode estar ligada à necessidade de produção de novas identidades em terras brasileiras pelos escravizados. Para eles, estar em roda era uma maneira de integração, mas também de proteção. Na virada do século XIX para o século XX, a lei da vadiagem pressupunha que a pessoa podia ser detida para averiguação caso fosse pega tocando instrumentos, o que levou as rodas para quintais, como o de Tia Ciata, na região conhecida como Pequena África.
Autor do livro “Diálogos suburbanos: identidades e lugares na construção da cidade”, Rafael Mattoso diz que a história da roda não é exclusivamente ligada ao samba, mas foi o samba que popularizou essas rodas. O especialista conta que, a partir dos anos 1970, as rodas de samba se tornaram mecanismos de resistência cultural num período em que havia forte influência das músicas norte-americanas.
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Wanderso Luna, presidente da Rede das Rodas de Samba, diz que as rodas de samba começaram a crescer e ganhar mais visibilidade a partir de 2014. Foi quando, em parceria com a prefeitura, a rede começou a montar em parceria com a prefeitura o Mapa das Rodas de Samba, cuja edição atualizada deve ser divulgada na próxima semana pela Secretaria Municipal de Cultura. A iniciativa tem como dos objetivos preservar, organizar e fortalecer a cultura do samba de rua.
— Criou-se um novo mercado. Hoje, grandes artistas estão fazendo suas rodas. Virou uma marca do Rio. Está na moda e ocupando os espaços públicos. As rodas de samba são um movimento forte e genuíno e estão se profissionalizando cada vez mais.
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Segundo Wanderso, uma roda de samba pode empregar de oito a mais de 80 pessoas, com as mais diferentes funções:
— Já existem categorias profissionais que vivem só do samba, mais especificamente das rodas, como garçons, produtores e videomakers, além de influencers especializados nesse tipo de evento. Ou seja, já existe uma cadeia produtiva que vai além da cerveja e da comida — conclui.
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Conheça a metodologia
As 50 personalidades convidadas pelo GLOBO, entre sambistas, produtores culturais, jornalistas, influenciadores e demais profissionais ligados ao mundo do samba listaram suas três rodas de samba favoritas, por ordem de preferência. Cada voto tinha um peso diferente: o primeiro valia três pontos, o segundo dois e o terceiro um.
Os votos com maior peso mais foram usados como critério de desempate. Organizadores não puderam votar na própria roda. Foram incluídas na lista todas as que tiveram ao menos três pontos. As demais, que também foram votadas, estão abaixo.
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Veja quem votou:
Alan Rocha (ator e músico), Alex Ribeiro (sambista), Arlindinho (sambista), Babi Cruz (produtora), Celynho Show (artista e malandro), Dorina (cantora) , Feyjão (cantor e compositor), Gabriel da Muda (músico e cantor), Gabrielzinho de Irajá (cantor e compositor), Geiza Ketti (produtora), Geraldo Ribeiro (jornalista), Henrique Souza (produtor), Hugo Ojuara (sambista), Jorge Luiz Jeronymo (locutor de rodas de samba), José Reinaldo Marques (curador da FliSamba), Juninho Thybau (sambista), Leonardo Bruno (jornalista e escritor), Luana Carvalho (cantora e empresária), Lúcio Pacheco (empresário), Luis Filipe de Lima (músico), Marcelo Moutinho (escritor), Marcos Salles (produtor), Maria Menezes (cantora), Marina Gonçalves (jornalista), Marquinhos de Oswaldo Cruz (cantor e compositor), Mart’nália (cantora), Matheus Pessanha (cantor, compositor e músico), Mauro Diniz (músico), Mingo Silva (músico), Moacyr Luz (cantor e compositor), Nilze Carvalho (cantora e instrumentista), Paulão 7 Cordas (músico), Paulinha Diniz (sambista), Paulinha Franco (influencer), Paulo Celso Pereira (jornalista), Pedro Miranda (cantor, compositor e músico), PH Mocidade (músico), Rafael Pinheiro (fotógrafo), Raoni Ventapane (músico, cantor e compositor), Rodrigo Ferrari (livreiro), Teresa Cristina (cantora), Tetê Pagodeira (frequentadora), Tiago Prata (músico), Tiago Testa (cantor e percussionista), Tinga (intérprete de samba-enredo), Toninho Geraes (cantor e compositor), Tyno Cruz (fotógrafo), Wanderley Monteiro (compositor), Wend Caster (passista) e Xande de Pilares (cantor e compositor).
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Saiba quais foram as outras rodas mencionadas:
Também receberam votos dos jurados: Samba do Peixe, Canto de Batuqueiro, Canto di Vó, Me encontra lá, Moça Prosa, Pagode do Feijão, Resenha do Mamute, Roda do Suru Bar, Samba de Caboclo, Samba do Sacramento, Samba que elas querem, Sambay, Batuke do Pretinho, Canta canta Minha Gente, Festa da Raça, Jequitibá, Motivo pra beber, Na porta de casa, Pagode da Gigi, Roda Aos Novos Compositores, Roda do Espaço Paulão 7 Cordas, Roda do Grupo Jequitibá. Samba da Feira, Samba do Passeio e Sambotica.
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