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para investidores, startups latino-americanas precisam se preparar para a internacionalização

BRCOM by BRCOM
junho 12, 2026
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Izabel Gallera, sócia da Canary — Foto: Lucas Tavares/Especial para O Globo

Ainda considerada uma espécie de depositária e fornecedora preferencial de matérias-primas e alimentos, a América Latina não está condenada a ficar a reboque do desenvolvimento tecnológico dos países do Norte Global, ainda que tenha ainda muitas vulnerabilidades a superar para exercer plenamente seu potencial criativo e produtivo.

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A região tem uma série de empresas de tecnologia que já estão entre as mais influentes do mundo quando se fala em inovação, mas como pode avançar mais em um mundo cada vez mais competitivo?

A expansão das empresas de tecnologia da América Latina para o cenário global foi tema ontem do painel “A América Latina pode conquistar o mundo?” no Web Summit Rio 2026. Participaram da sessão conduzida por Maria Luiza Filgueiras, editora-chefe do Valor Pipeline, Marcello Gonçalves cofundador e sócio da DOMO VC, Izabel Gallera, sócia da Canary, e Marcelo Lima, sócio da Monashees.

Izabel Gallera, sócia da Canary — Foto: Lucas Tavares/Especial para O Globo

Para ilustrar o momento atual de expansão dessas empresas para o cenário global, a mediadora usou a figura da “complexa estratégia do tabuleiro do jogo “War”, em que, ao alcançar escala internacional, os negócios inovadores da América Latina entram na disputa pelo aporte massivo de capital geralmente designado para a elite do Vale do Silício, nos EUA.

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Marcello Gonçalves, da DOMO VC, uma das principais empresas de venture capital (capital de risco) a investir em negócios em estágio inicial, com mais de 100 startups em seu portfólio, incluindo Hotmart, Loggi e Gympass, concordou com a analogia:

Marcello Gonçalves, cofundador e sócio da DOMO VC — Foto: Lucas Tavares/Especial para O Globo
Marcello Gonçalves, cofundador e sócio da DOMO VC — Foto: Lucas Tavares/Especial para O Globo

— Sempre que vemos chance de uma empresa se tornar global, a incentivamos. Pensando globalmente, como no “War” Risk” , conquiste a América Latina primeiro, como as duas peças da rodada na América do Sul, e então conquiste o mundo.

Filgueiras observou que muitas empresas brasileiras já passam a ter foco direcionado para “conquistar” o mercado dos Estados Unidos, ao passo que antes começavam pela América Latina.

Izabel Gallera, da Canary, empresa de venture capital com foco em negócios em estágio inicial na América Latina que lidera muitos investimentos na região, acrescentou que atualmente as barreiras geográficas estão menores do que antes. Ela classificou esse movimento de busca de outros mercados por empresas latino-americanas como “diáspora latina” (todos indo da América Latina para os EUA).

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— Não há solução única para todos. Para vender em outro país, depende do seu negócio, da indústria e da equipe que você está construindo e da vantagem que se pode ter ao sair do país de origem. É preciso ter as conexões ou acesso ao talento específico para isso. A barreira do produto hoje em dia, dada a IA, está próxima de zero, mas ainda existe uma barreira de distribuição. As barreiras geográficas estão menores que antes, mas não há volta.

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  • Empreender no maior mercado do mundo
  • Grande demais para sair daqui
  • Contra o ‘mito do mercado grande’
      • para investidores, startups latino-americanas precisam se preparar para a internacionalização

Empreender no maior mercado do mundo

Marcelo Lima, sócio da Monashees, que atua com foco em IA, fintechs e softwares corporativos B2B (para a relação de uma empresa com outra empresa) observa que há também um movimento de latino-americanos e brasileiros sediando suas empresas no exterior. Entre os exemplos estão a Brex, fundada em São Francisco, no Vale do Silício, por brasileiros, em 2017, e a Music AI, fundada originalmente como Moises em João Pessoa (PB), e que hoje tem sua sede corporativa em Salt Lake City, também nos EUA.

“A América Latina pode conquistar o mundo?": Painel foi mediado por Maria Luiza Filgueiras, editora-chefe do Valor Pipeline, com a participação de Marcello Gonçalves, cofundador e sócio da DOMO VC, Izabel Gallera, sócia da Canary, e Marcelo Lima, sócio da Monashees — Foto: Lucas Tavares/Especial para O Globo
“A América Latina pode conquistar o mundo?”: Painel foi mediado por Maria Luiza Filgueiras, editora-chefe do Valor Pipeline, com a participação de Marcello Gonçalves, cofundador e sócio da DOMO VC, Izabel Gallera, sócia da Canary, e Marcelo Lima, sócio da Monashees — Foto: Lucas Tavares/Especial para O Globo

— A qualidade dos nossos fundadores nos permite fazer isso e estamos tentando ser parceiros deles. Embora não haja solução única, é possível investir em empresas locais que eventualmente irão para o exterior, mas também em fundadores que já começaram no exterior — afirmou Lima.

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Izabel acrescentou que mais da metade dos unicórnios (startups que superam avaliação de mercado de US$ 1 bilhão) nos EUA foram construídos por empreendedores imigrantes e que os brasileiros estão indo para lá em maior volume, mesmo com as restrições do governo de Donald Trump à imigração.

Grande demais para sair daqui

Por sua vez, Marcelo Gonzalez, da DOMO VC, ressaltou que é preciso haver adaptação da vontade do empreendedor de se tornar internacional, o que representa um teste mais agudo de competitividade. Para ele, isso é “o mais difícil de encontrar no Brasil”:

— Em geral, os empreendedores brasileiros dizem que o Brasil é grande o suficiente e não têm ambição de serem globais, ou às vezes simplesmente não têm a preparação ou educação certa para isso. É um espécime muito raro. Se você olhar o número de empresas internacionais de tecnologia fora do Brasil, talvez sejam 10 ou 12. Todos esses empreendedores são muito especiais. Não que quem não queira ir não seja especial. Temos empresas incríveis que são grandes o suficiente no Brasil. Mas é necessário algo diferente, que é essa ambição de realmente cruzar limites.

Lima, por outro lado, alertou para a alta incidência de casos de empresas tentaram expandir seus limites e falharam. Cada passo precisa ser bem calculado.

— Geralmente o questionamento que trazemos aos fundadores é que você precisa provar seu conceito em pelo menos um lugar, caso contrário, a complexidade de atacar três ou quatro mercados simultaneamente será muito difícil. Você precisa priorizar quando fará isso — afirmou. — Temos um cemitério de empresas na América Latina que tentaram ir além de um país e falharam.

Marcelo Lima, sócio da Monashees, fala no Web Summit Rio 2026 — Foto: Lucas Tavares/Especial para O Globo
Marcelo Lima, sócio da Monashees, fala no Web Summit Rio 2026 — Foto: Lucas Tavares/Especial para O Globo

Ele explica que o tamanho da economia brasileira acaba deixando os empreendedores mais confortáveis no mercado doméstico. O mesmo não acontece em outros países latino-americanos, que têm mercados mais limitados para crescer.

— Se você está no Brasil, ninguém questionará o quão grande essa empresa pode ser, então geralmente as empresas brasileiras esperam mais tempo. Já empresas no Chile ou na Colômbia, se não forem globais, terão muita dificuldade em atrair capital internacional, a menos que sejam uma fintech ou foquem em um mercado muito grande — afirmou Lima.

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Dos casos de sucesso às histórias de fracasso sobre o tema de se tornar global, extraem-se lições e surgem alguns mitos, que foram abordados pelos convidados no painel do último dia do Web Summit Rio 2026. Izabel destacou a resiliência dos empreendedores latinos, em média, “muito mais resilientes do que os de outros países”:

— Historicamente, não há muita liquidez ou dinheiro disponível na América Latina, então você tem que fazer muito com pouco. Essa é uma força que podemos exportar para sobreviver e prosperar em diferentes geografias. Mas não acho que ser global seja extremamente simples. É preciso ter fundamentos. Você deve pensar bem e garantir que tem um bom motivo não apenas para atuar no exterior, mas para ter a chance de vencer com seus atributos e modelo de negócio.

Contra o ‘mito do mercado grande’

Para Gonzalez, as soluções criadas no Brasil, ainda que locais, precisam ter o contexto global:

— Se existe um mito é o de que o Brasil é grande o suficiente e que impede as empresas de pensarem globalmente. Às vezes, as soluções são muito brasileiras ou muito latino-americanas. Isso é bom, mas se você está em Israel, Chile, Equador ou Colômbia, precisa ser global desde o primeiro momento. Mercados pequenos geram empresas pequenas, então você precisa buscar um mercado grande. O mito do mercado grande é o que impede os brasileiros de crescerem internacionalmente.

Por outro lado, ele observou que, se a empresa decide se internacionalizar e começa a ter parte da receita em dólares no exterior, fica mais valorizada, mas isso pode ser uma armadilha que acomoda o empreendedor, achando que já é “grande o suficiente”. Para Marcelo Lima a decisão de internacionalizar um negócio deve vir após uma série de considerações. E citou algumas:

— Se o empreendedor faz isso apenas para fins de financiamento e não por ambição ou capacidade de expandir o produto, geralmente vai falhar. Outro ponto é priorizar. Por vezes, decide ir para o México e envia alguém júnior da equipe. Ou você coloca um fundador e gasta o tempo certo priorizando, ou será muito difícil ter sucesso. Anos atrás, empresas no Brasil pensariam naturalmente na Argentina primeiro. Depois talvez no México, que é longe, quase como os EUA. Agora vemos fundadores incríveis pensando que o trabalho para ir ao México às vezes é o mesmo que ir para os EUA, então decidem se provar lá. Não é para todas as empresas, depende do modelo de negócio, mas é um aprendizado natural.

Ele destacou o aumento da experiência internacional dos executivos brasileiros:

— Há 15 anos, quando uma empresa do portfólio decidia ser global, tentávamos contratar alguém com essa experiência no Brasil e havia pouquíssimas pessoas. Hoje temos mais conhecimento e experiência, o que tornará isso mais comum no futuro.

Mas o caminho do sucesso ainda enfrenta algumas barreiras, a mediadora lembrou que algumas startups latino-americanas são avaliadas abaixo de startups similares dos EUA, no Vale do Silício e até da Índia. Gonzalez explicou que há exceções, mas em geral as empresas latino-americanas têm que ser avaliadas a um valor muito menor do que qualquer empresa americana ou europeia porque o ambiente de venture capital é diferente.

— Eles têm IPOs (oferta pública incial de ações em Bolsa, uma forma como fundos de venture capital podem sair de um negócio com lucro), séries C, D, E, e nós, não. No fim das contas, a empresa aqui deve fazer muito mais com muito menos por muito mais tempo. Empresas com acesso a capital que podem crescer mais rápido terão melhores avaliações. Um dos erros que cometemos como mercado nestes 15 anos é nos compararmos aos Estados Unidos. Não somos os EUA, e nosso capital de risco será fundamentalmente diferente, terá que ser “tropicalizado”.

Uma forma de saída dos investidores de risco mais usada no Brasil é por meio de fusões e aquisições (M&A, na sigla em inglês), o que na avaliação do especialista acaba reduzindo a avaliação de mercado dos cardápio de negócios disponíveis.

Por outro lado, Maria Luiza Filgueiras lembrou que há muitas empresas globais de tecnologia contratando talentos na América Latina, inclusive via teletrabalho, indagando o impacto para as empresas locais. Izabel destacou que a oferta dos salários em dólares ou euros para um custo de vida em reais torna essa disputa mais acirrada.

— Algumas de nossas empresas focadas em IA e tecnologia perdem talentos para empresas nos EUA ou Europa por causa dessa discrepância. Talvez a cultura, o fato de estarem juntos em um escritório e terem uma proposta de valor de proximidade possa, de alguma forma, diminuir essa lacuna, mas veremos com o tempo — concluiu.

A cobertura do Web Summit Rio 2026 na Editora Globo é apresentada pelo Itaú.

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