O monólogo “Selva: solidão”, em cartaz no Teatro Glaucio Gill, em Copacabana, até o dia 29, pode deixar os espectadores (positivamente) atordoados. Tudo por conta da intensidade com que o ator Vinicius Teixeira dá vida a três personagens que dialogam entre si ao longo de 1h15m de espetáculo. A conversas entre um jovem atendente de uma rede de fast-food, um garoto de programa e um professor na faixa de idade 60+ costuram o tema do espetáculo: a solidão do homem gay.
Aos 34 anos, Teixeira foi um dos “bandivos” da novela “Três Graças”. Na pele de Vandilson, o ator exercitou os músculos dramáticos na pele de um jovem criminoso violento, ambicioso e carente, moldado pela infância difícil numa comunidade.
Em conversa com O GLOBO, o Vinicius da vida real se mostrou um apaixonado pela arte que escolheu transformar em profissão, pouco depois da aprovação para a Faculdade de Educação Física, na Uerj.
— Eu passei para o segundo semestre. Como ficaria seis meses sem estudar, aceitei o convite de uma amiga para estudar teatro com ela — conta. — Durante esse curso parece que a minha vida se encaixou, me tornei uma pessoa superdisciplinada, coisa que nunca havia sido na escola regular.
Alemão (Lucas Righi) e Vandilson (Vinicius Teixeira) em ‘Três Graças’, da TV Globo
Estevam Avellar/TV Globo
Quem ouve a história de como tudo começou, no Teatro Escola Rosane Gofman, no início da década passada, nem poderia imaginar como tudo estaria agora. Ao longo dos últimos dez anos, Vinicius fez participações nas novelas “Babilônia” (2015) e “Rock story” (2016) e na série “Carcereiros” (2018), além de outros trabalhos para plataformas de streaming. E, antes de ser convidado para “Três Graças”, Vinicius já trazia no currículo o papel principal no filme “O melhor amigo” (2024), dirigido por Allan Deberton, atualmente disponível no canal Telecine, dentro do Globoplay.
— “Três Graças” foi a primeira novela que fiz do início ao fim e acho que ela veio na hora certa. Se eu tivesse tido esse sucesso mais jovem, talvez eu tivesse me deslumbrado.
Pista de dança
Neste contexto da notoriedade pop que uma novela das nove pode trazer, Vinicius não pensou duas vezes ao decidir retomar a temporada de “Selva: solidão”, que já havia encenado no ano passado. O monólogo foi escrito pelo ator em parceria com o diretor do espetáculo e professor de teatro Jefferson Almeida.
— A peça é uma reflexão desse modo de viver na sociedade que nos leva para a solidão, que já foi até romantizada por aí como “solitude” — diz o dramaturgo, que dirige a Definitiva Companhia de Teatro há 18 anos.
Quando as portas do teatro se abrem, a música alta impacta os espectadores. A sensação é a de quem entra numa pista de dança, até porque a faixa que recebe o público é “Din daa daa”, de George Kranz, na versão da drag americana Kevin Aviance, um dos maiores clássicos da cultura ballroom (pense nas batalhas de “voguing”) dos anos 90.
— Descobri essa música no documentário “Paris is burning”, que já vi várias vezes — diz, citando o doc de Jenny Livingston, lançado em 1990, que registra a cultura das “houses” das drags de Nova York nos anos 80.
Vinicius Teixeira estrela o monólogo ‘Selva: solidão’
Divulgação
Em sintonia com as batidas poderosas da faixa icônica, Vinicius recebe a audiência já incorporado por um dos personagens mais agitados do monólogo: Jonathan, um jovem que dança e dá pinta como se não houvesse amanhã, nutrindo o orgulho de ser quem é. Tal como Vinicius.
— Parte do que eu sou é ser gay. Nunca escondi de ninguém — diz o rapaz para quem viver no armário nunca foi uma opção. — Eu cresci ouvindo que um ator gay não faria sucesso. Mas, se o mercado não me quiser porque eu sou gay, o mercado é que tem que mudar e não eu.
É com essas certezas que Vinicius mergulha sem medo nos personagens que decide interpretar. Como se diz na gíria das pistas de dança, o rapaz “se joga”.
— O Vinicius é sempre elogiado por conta da versatilidade dele. Acho que isso acontece porque, apesar de estar inteiro em cena, ele consegue desaparecer no personagem. A força dele está aí — completa Jefferson.
‘O beijo no asfalto’
Ainda que Vinicius admita que as coisas tenham evoluído bastante, o ator lembra que ainda há muita coisa a fazer para que a diversidade sexual e afetiva seja apenas vista como normal.
— Lembro de, quando eu era adolescente, ver os personagens do Bruno Gagliasso e do Erom Cordeiro, que se apaixonavam na novela “América”, e eu não entendia por que tudo tinha que ser tão difícil para eles.
Vinte anos depois da novela de Gloria Perez, Vinicius lembra que ainda nos dias de hoje há “colegas que não se assumem temendo perder trabalhos”.
— É por isso que eu acho que a gente tem que falar sobre isso em todas as oportunidades que tivermos — afirma.
E oportunidades não faltam. Logo depois de “Selva: solidão”, Vinicius estará no elenco do espetáculo “O beijo no asfalto”, de Nelson Rodrigues, que estreia no mesmo teatro Glaucio Gill em 9 de julho. Nesta nova montagem, o ator dividirá a cena com atores consagrados, como Eduardo Sterblitch, Edson Celulari e Ernani Moraes.
A presença intensa de Vinicius Torres nos palcos é decifrada por um ex-colega de set em “Três Graças”, o experiente ator, diretor e dramaturgo Miguel Falabella.
— O Vinicius imprime na tela os muitos palcos pelos quais ele já passou. Acima de qualquer coisa, ele é um homem de teatro.

