Durante alguns segundos, o meia Yasin Ayari fez a partida de estreia da Copa do Mundo da Suécia, anteontem, parecer um duelo contra um ex-clube ao deixar de comemorar o primeiro gol da vitória por 5 a 1 sobre a Tunísia. A resposta para o mistério que fez torcedores coçarem a cabeça veio em sua árvore genealógica: o pai do jogador é tunisiano e, em respeito à sua ascendência, ele escolheu ser mais comedido.
Com o número recorde de 48 seleções, um Mundial ainda mais globalizado ampliou também as histórias de atletas com diferentes origens, podendo tornar cenas como essa mais comuns.
Em um levantamento do GLOBO, dos 1.248 atletas convocados para o Mundial, 292 não nasceram nos países pelos quais defenderão a bandeira — uma média de um a cada quatro jogadores na Copa. Os motivos são variados e vão de naturalização tardia à captação ativa de descendentes com potencial de agregar esportivamente ao país.
— A globalização também tem permitido isso, que outras seleções ascendam e tenham uma força que até pouco tempo atrás não poderiam — diz Tanguy Baghdadi, professor de Relações Internacionais e criador do podcast Petit Journal.
O duelo entre a Argentina e Argélia, pelo grupo J, é o maior candidato a gols de outros descendentes de diásporas hoje, já que dos 26 argelinos convocados, 16 não nasceram no país. Um exemplo é o goleiro Luca Zidane, filho da lenda francesa Zinedine Zidane. O arqueiro de 28 anos nasceu e foi criado na Europa, defendeu a França nas divisões de base e atua no Granada, da segunda divisão espanhola. Ainda assim, aceitou o convite para sua primeira convocação pelo país de seus avós, em outubro de 2025, meses antes do Mundial. A escolha rendeu o destaque na Copa de Nações Africana, em janeiro, quando passou três dos quatro jogos em que atuou sem levar gols. Agora, chega como um dos principais nomes da seleção.
— Existem as questões da ancestralidade, do plano de carreira e, mais do que isso, a esportiva. O atleta quer jogar uma Copa do Mundo, a Federação Argelina precisava de um goleiro porque, depois do Mundial de 2022, o país não conseguiu firmar nenhum nome na posição. Então, fez a captação de Zidane — diz Luis Fernando Filho, comentarista especializado em futebol africano, do Ponta de Lança. — Os países africanos, ainda mais depois de Marrocos chegar à semifinal do último Mundial, aumentaram esse processo de captação de talentos na diáspora.
O atacante Assane Diao, de 20 anos, tornou-se um case de sucesso para o Senegal. Nascido no país africano, ele foi criado na Espanha, jogou nas categorias de base do país e era dado como certo na Fúria, mas descartou o convite e passou a vestir a camisa senegalesa, que conta ainda com outros 11 com dupla nacionalidade. A maior parte de descendentes franceses, por conta do histórico colonial.
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— Quando eram colônias havia uma facilidade maior para essas pessoas irem à França e ganharem a nacionalidade — disse Tanguy. — Os irmãos Désiré e Guéla Doué são nomes impactados por essa história. Enquanto o atacante Désiré, de 21 anos, do PSG, atua na França, representando a mãe, o lateral-direito Guéla, de 23 anos, do Strasbourg-FRA, atua na Costa do Marfim, representando o pai.
Curaçao, que estreia em Copas — apenas o atacante Tahith Chong, do Shefield United-ING, nasceu no país caribenho —, é a seleção com maior número de jogadores originários de outro território para representá-la. Todos os 25 nasceram na Holanda, que fez do país insular sua colônia por mais de 370 anos.
Ao todo, 20 jogadores que estão no Mundial trocaram de federação entre 2025 e 2026, segundo dados da Fifa.

