Pesquisadores da Escola de Medicina Icahn do Monte Sinai e do Instituto Bernhard Nocht para Medicina Tropical (BNITM) descobriram que, após a infecção, o vírus Ebola pode sobreviver despercebido no corpo humano por meses ou até anos em áreas com pouca vigilância imunológica, como no sistema nervoso central. Os resultados foram recentemente publicados na revista científica Nature Microbiology.
Daveigh Chase: Como quadro de desnutrição da atriz de 35 anos evoluiu para uma meningite e a morte em poucos dias
Vida Boa: Casal de chefs que cozinhou para o astro pop Bruno Mars ensina receita de óleo picante de amendoim
Os cientistas utilizaram um modelo de organoide cerebral, uma estrutura em laboratório gerada a partir de células-tronco que simula o cérebro humano, para investigar os efeitos de longo prazo da infecção pelo Ebola, explica Lina Widerspick, primeira autora do estudo e ex-pesquisadora do BNITM, em nota:
“Esses organoides cerebrais nos permitem investigar em detalhes os mecanismos que o vírus Ebola e outros filovírus utilizam para persistir no sistema nervoso central humano. Por meio de experimentos nesse sistema-modelo, podemos obter insights que nos ajudam a aprimorar a compreensão dos efeitos a longo prazo da persistência, como a inflamação grave e às vezes fatal observada em sobreviventes da doença pelo vírus Ebola com meningoencefalite”.
Estudo da USP: Quem come mais arroz e feijão reduz o consumo de ultraprocessados, gordura e açúcar em 45%
No estudo, os pesquisadores descobriram que o Ebola e outros filovírus, como o Marburg, conseguem se replicar por até 120 dias nas estruturas que se assemelham ao cérebro humano. Além disso, observaram que o patógeno infectou diferentes tipos de células do sistema nervoso, como neurônios, astrócitos e células da microglia.
Segundo os cientistas, o vírus Ebola conseguiu se disseminar de diferentes maneiras no ambiente, mostrando que ele continuava infeccioso. A resposta imunológica dos organoides cerebrais tentou, mas não foi capaz de eliminar o vírus com sucesso durante a infecção persistente.
“Observamos respostas imunológicas e inflamatórias elevadas nas fases tardias do cultivo de organoides cerebrais. Concluímos, portanto, que uma infecção persistente pelo vírus Ebola em tecidos imunologicamente privilegiados pode levar a uma inflamação local. Essa observação é consistente com o fato de que alguns sobreviventes da doença pelo vírus Ebola desenvolvem inflamação nos olhos, nas meninges ou no cérebro meses após a infecção”, explica César Muñoz-Fontela, chefe do grupo de pesquisa em Imunologia de Vírus do BNITM e autor do estudo.
Como incluir na dieta: Os 10 minerais essenciais para o funcionamento do corpo
Tecidos e órgãos imunologicamente privilegiados, como o sistema nervoso central, são áreas em que o sistema imunológico reage de forma atenuada e controlada devido ao caráter mais sensível da região. Como resultado, nem sempre consegue eliminar vírus completamente desses locais.
A equipe de pesquisa também identificou mutações e defeitos nos genomas do vírus Ebola em organoides cerebrais com infecção persistente em estágio avançado, uma estratégia que patógenos podem desenvolver para permanecer de forma atenuada no organismo.
“Muitas dessas mutações foram propostas como capazes de reduzir ou impedir a replicação viral em infecções naturais. Como o vírus Ebola se comporta nesse sistema-modelo de forma semelhante ao que ocorre nas infecções humanas, isso reforça a adequação de nossos organoides cerebrais para a investigação da persistência de filovírus”, diz Gustavo Palacios, professor de Microbiologia na Escola de Medicina Icahn do Monte Sinai e autor do artigo.
Novo estudo: Mounjaro pode mudar a forma como o corpo utiliza energia; entenda
Mais investigações são necessárias para determinar se essas mutações estão causalmente associadas à persistência dos vírus nos pacientes, complementa o especialista:
“Estudos adicionais são agora importantes para investigar as interações a longo prazo entre vírus e hospedeiro, ampliando nossas pesquisas para filovírus menos estudados, como os vírus Reston, Floresta Taï, Bombali e Bundibugyo, e para aprofundar nossa compreensão dos mecanismos de persistência filoviral”.
Surto de Ebola continua crescendo
Em meados de maio, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, decretou que o surto atual de Ebola na República Democrática do Congo (RDC) e em Uganda representa uma emergência de saúde pública de importância internacional, o estágio mais alto de alerta da organização.
Esse é o 17º surto de Ebola desde que o vírus foi identificado pela primeira vez, em 1976, e a terceira vez em que a OMS decreta emergência internacional pelo patógeno. Recentemente, porém, os Centros Africanos de Controle e Prevenção de Doenças alertaram que, se não for contido, esse pode se tornar o pior surto da história.
Segundo o último informe da RDC, de 16 de junho, já são 875 casos confirmados da doença e 202 mortos, uma taxa de letalidade de 23,1%. Destes, 40 casos foram confirmados apenas nas 24 horas anteriores. Em Uganda, de acordo com a OMS, até o dia 14 eram 19 casos confirmados e 2 óbitos, uma taxa de letalidade de 15%.
A organização classifica o risco na RDC e em Uganda como “muito alto” e “alto” para os países que compartilham fronteiras terrestres com eles. Já os riscos regional e global permanecem “baixos”. Ainda assim, a OMS alerta que diversos fatores continuam a dificultar a resposta ao surto.
“A crescente distribuição geográfica das zonas de saúde afetadas, a transmissão persistente em contextos urbanos e ligados à mineração, as taxas subótimas de acompanhamento de contatos em algumas províncias e a insegurança contínua nas áreas afetadas continuam a complicar as operações de resposta e a aumentar o risco de maior disseminação dentro da República Democrática do Congo e para os países vizinhos”, diz no último relatório de monitoramento.
Um diferencial é que a espécie do Ebola que causa o surto atual é a Bundibugyo, para a qual não há vacinas ou tratamentos aprovados. Essa cepa causou apenas outros dois surtos, registrados em 2007 e 2012.

