A cantora iraniana Parastoo Ahmadi foi condenada a 74 chibatadas por se apresentar sem usar o hijab, segundo relatos de ativistas de direitos humanos. A decisão, segundo essas organizações, aumentou o temor entre artistas iranianos de um endurecimento da repressão cultural no país.
Quem é a cantora?
Parastoo Ahmadi é uma cantora, compositora e cineasta iraniana nascida em 1997 na cidade de Nowshahr, no norte do Irã. Formada em Direção de Cinema na Universidade Sooreh, em Teerã, ela é conhecida por usar a rica herança poética e mitológica iraniana para tratar de temas contemporâneos.
Sua condenação está relacionada a uma apresentação realizada em 2024, quando ela cantou sem utilizar o véu islâmico, cujo uso é exigido pelas autoridades responsáveis pela fiscalização dos costumes no Irã.
Parastoo Ahmadi
Reprodução
O espetáculo foi realizado ao lado de oito integrantes de uma equipe de produção e transmitido ao vivo pelo canal da cantora no YouTube. Durante a apresentação, Parastoo interpretou o hino patriótico Az Khoon-e Javanan-e Vatan (“Do Sangue da Juventude da Pátria”). O vídeo do chamado “Concerto Caravanserai” viralizou.
Segundo ativistas de direitos humanos, um tribunal criminal da província de Qom condenou a cantora e vários músicos envolvidos no espetáculo.
Além das 74 chibatadas, o tribunal teria determinado que Parastoo Ahmadi fique proibida de deixar o país por dois anos e de exercer atividades artísticas pelo mesmo período.
A decisão, no entanto, ainda não foi publicada pela agência oficial de notícias do Judiciário iraniano.
Quais foram as acusações?
Advogados e organizações de direitos humanos que consultaram documentos do tribunal afirmam que as acusações incluem atentado ao pudor e produção e divulgação, na internet, de “conteúdo vulgar e imoral”.
Para defensores dos direitos humanos, a condenação demonstra que a situação no Irã permanece inalterada apesar dos discursos oficiais.
Bahar Ghandehari, diretora de advocacy do Centro para os Direitos Humanos no Irã, organização sediada nos Estados Unidos, afirmou que o caso “é mais um lembrete de que as condições dos direitos humanos no Irã não mudaram, apesar da campanha de propaganda das autoridades iranianas durante a guerra para melhorar sua imagem”.
Segundo Ghandehari, o episódio evidencia “a distância entre a propaganda do regime e a realidade”.
Repercussão
Na rede social X, a professora de Literatura Persa da Universidade da Pensilvânia, Fatemeh Shams, criticou a decisão judicial.
“Se você chama essa violência explícita por qualquer outro nome que não seja ‘crime contra a humanidade’; se, em meio a uma batalha tão evidente e inegável contra as mulheres, você fala em ‘paz’, mas não escuta as vozes das vítimas; se coloca os ‘interesses nacionais’ acima da liberdade, da justiça, da dignidade humana e do direito à vida; e se se diz ‘contra a guerra’, mas permanece em silêncio diante da guerra travada todos os dias contra mulheres, meninas e presos políticos, então você já não permanece fiel nem à verdade nem à justiça.”
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Ela também escreveu: “A paz não é apenas o silêncio dos mísseis ou o fim das chamas dos bombardeios. A paz só tem sentido quando os corpos de mulheres e manifestantes inocentes deixam de ser alvo de violência desenfreada; quando chicotes, tortura e forcas deixam de ser instrumentos de governo.”
E acrescentou: “A paz verdadeira e duradoura só será possível quando nenhuma mulher for tratada como criminosa por trabalhar, estudar, cantar ou escolher seu próprio estilo de vida; e quando nenhum inocente for lançado em celas escuras ou enviado à forca pelo ‘crime’ de protestar, exigir justiça ou expressar uma opinião”.

