De pequeno me lembro dos bandidos produzidos por Hollywood: filmes tipo “bandidos e mocinhos”. Os primeiros eram sempre desdentados, cabelos gordurosos, falando um espanhol preguiçoso e invariavelmente com um chapéu de abas largas desabando sobre o rosto. Descobrir os malfeitores era um segredo de Polichinelo. Só Navajos e Cherokees competiam em maldades. Já adulto, descobri que os filmes de “bang-bang” nos contavam a história da colonização do oeste americano, informações que não temos no Brasil.
Já a década de 50 foi o auge do cinema mexicano. De Maria Felix a Gabriel Figueroa, muitos brilharam. Buñuel, naturalizado mexicano em 1948, também dirigiu filmes inesquecíveis, como “Los olvidados”. Na mesma época, Mario Moreno, “Cantinflas”, era meu ator preferido. Já começava a provocar risos nos créditos e arrasou nos grandiosos estúdios de Churubusco. Depois, no início de década de 70, diante da concorrência de Hollywood, veio a decadência. Os filmes mexicanos desapareceram das telas. Aliás, o cinema do mundo inteiro foi minguando diante do poderio avassalador de Hollywood. Ficamos monotemáticos e só sobre o Vietnã fizeram centenas de filmes, em sua maioria mostrando a “vitória arrasadora” dos Estados Unidos na invasão da Ásia.
Agora, o início desta Copa trouxe de volta memórias antigas, e eu torcia para que o México fosse o principal palco da maioria dos jogos. Mas – hélas! – o país é o anfitrião de apenas 13% das partidas, sendo que 75% acontecem nos EUA e as restantes no Canadá. Aliás, diante do tratamento dispensado pelo governo dos EUA a alguns times e atletas de outras nações, a proporção é injusta e justificaria um boicote.
Visitei o México recentemente. Minha ignorância era imensa, mas os impactos que guardei me recompensaram em grau semelhante. Pode ser que tudo lembre aquele samba do saudoso Stanislaw Ponte Preta, mas assim são os turistas. Passamos por lugares que nos impressionam positivamente, mas circulamos por uns poucos que nos decepcionaram e nos despertaram o ímpeto de voltar logo para um sofá do Airbnb e comer pipoca diante da TV. Turistas são assim mesmo: superficiais e cheios de opiniões. Quase todas oriundas de comparações, principalmente com o país de origem.
Contrariamente à minha memória retrógrada do México, formada pelos preconceitos dos filmes americanos, a primeira sensação marcante foi o orgulho evidente do povo, o orgulho de ser mexicano, herdeiros de uma história multissecular: Maias, Astecas, Méxicos… (como se chamavam os povos originários de língua náuatle, construtores do outrora poderoso Império Asteca). Tudo o que não nos ensinaram nas escolas ou nos filmes.
Quando os branquelos, sob a liderança de Cortés, aportaram no México em 1519 encontraram a civilização dos invadidos bem mais avançada que aquela que eles próprios haviam anteriormente estabelecido em Cuba. Um mundo rico e complexo, com mais de 300 mil habitantes. O espanto foi hipnótico. Diante dessa civilização tão rica, nada aproveitaram. Se dedicaram a matar e saquear. Com novidades como armas de fogo e cavalos, sequiosos de sangue, apurado nas guerras contra os mouros, partiram para cima com cobiça e fúria. Treinados na arte de matar, além dos arcabuzes, carregavam em seus corpos algo invisível e mais letal: a varíola. Contra os vírus, o Novo Mundo não tinha imunidade. Depois foi só fazer alianças calculadas e estimular a desídia e o ódio. Deram então início a três séculos de domínio colonial, extraíram as riquezas mais evidentes, como ouro e prata, e mandaram o butim para financiar o Velho Mundo.
Hoje, depois de cinco séculos, fomos apresentados aos museus mexicanos. Dezenas. Lindos e imensos prédios com um conteúdo fundamental: a história do México, da qual tanto se ufana seu povo. Ali encontramos uma história que remonta a séculos. Ali, ao contrário dos museus europeus, cujo conteúdo em boa parte é a acumulação de pilhagens, encontramos uma riqueza insuspeita e originária dali mesmo. Nos admirados museus europeus, seja da África, das Américas ou da Ásia, onde com escusas da cristianização dos “bárbaros”, milhões foram mortos e mutilados e tiveram seus despojos enviados para as “matrizes”, quase só encontramos peças “importadas” enfeitando suas prateleiras. Salvando-se, é claro, as obras dos grandes artistas da Renascença, do Barroco, do Romantismo, do Impressionismo e de todas as vanguardas inovadoras. Sempre entendendo que foram as riquezas das terras colonizadas, as principais responsáveis pela fartura do Velho Mundo.
Hoje, diante de tantas evidências — e dos protestos cabíveis —, reivindicações ainda tímidas lograram recuperar peças devolvidas a suas origens, a seus legítimos proprietários.
Essa mesma Europa, com a OTAN hoje mendicante aos pés dos Estados Unidos (outrora também colônia de um outro império), atribui à Rússia um ímpeto predador que um dia foi seu. Disfarçam ou se esforçam para apagar da memória que a França e a Alemanha, com seus exércitos invasores, ousaram entrar estepes adentro. No caso da França, como sabemos, 500 mil homens comandados por Napoleão foram trucidados, entre outros, por um certo general inverno. A tragédia abalou a reputação de invencibilidade do imperador dos franceses. Já no caso alemão, rompendo um estranho pacto, a orgulhosa “blitzkrieg” chafurdou seus tanques na neve e, depois de perder dezenas de milhares de jovens, recuou suas tropas esbagaçadas. Assim, a tentativa de subjugar russos resultou em uma campanha desastrosa onde também morreram outras centenas de milhares, num desfile fúnebre de cadáveres — militares e civis; invadidos e invasores.
Mas, findo o aparte, voltando às impressões da viagem ao México, me lembrei da exposição montada há alguns anos aqui no Rio de Janeiro que, se não me engano, ganhou o nome de “O Século de Ouro”. A espetacular exposição, com obras, entre outros, dos geniais El Greco e Velásquez, atraiu milhares de visitantes. O que não estava claro era por que os séculos XVI e XVII foram batizados “de ouro”. Mesmo num lindo livro, impresso em papel nobre, com mais de 200 páginas e editado na ocasião, misteriosamente não se revelava a origem da denominação. Na realidade, a adjetivação “de ouro”, nada mais foi que um genérico, evidenciando que as toneladas de metais preciosos saqueados na então “Nova Espanha” financiavam as artes, as dívidas e a opulência do reinado do imperador Carlos V (Carlos I, rei de Espanha) e seus descendentes — os reis Filipe I, II, III e IV —, viabilizando também uma produção artística que marcou a época.
Contrariamente aos filmes que vi na infância, assim é o México; governado pela independente liderança de Claudia Sheinbaum, que assumiu o cargo em 1º de outubro de 2024 e é a primeira mulher a comandar o país em 200 anos de República.
Por conta de frequentes compatriotas com os quais cruzamos no país, desconfio que o número de turistas brazucas aumentou consideravelmente. Por outro lado, sabemos que hoje o turismo não é feito apenas de cartões postais maquiados, mas pelo interesse inequívoco com relação ao passado e ao presente dos países visitados. E nesse departamento, o México é um dos mais ricos que temos à mão. E para contar essa sua história, dispomos não somente dos registros pré-hispânicos, como, também, de exuberantes artistas do quilate de Diego Rivera, Frida Kahlo e Siqueiros.
Passar tantos anos de costas para a América Latina pouco nos acrescentou. Escapulir do eurocentrismo e se aproximar de culturas próximas será sempre algo benéfico. Não só pela vizinhança, como para tentar entender nossa formação. E quem sabe conseguirmos igualmente valorizar nossa própria História.
Com os olhos postos nesse ideal, torceremos para nosso time azarão jogar a final no MetLife em East Rutherford, na região metropolitana de Nova Jersey, nos Estados Unidos e conquistar a cobiçada taça.

