O jogo deste sábado (27) entre Argentina e Jordânia, pela terceira rodada da Copa do Mundo, acendeu o sinal de alerta para o empresário Cristian Galarza, dono do bar Moocaires, na Mooca, Zona Leste de São Paulo. O motivo é o excesso de críticas e até algumas ameaças recebidas após reportagem do GLOBO (veja vídeo que viralizou mais abaixo) mostrar torcedores brasileiros que abandonaram a seleção verde e amarela para torcer para a Argentina. Embora não seja um fenômeno novo, tanto o bar quanto a rua e um posto de combustível na frente viraram reduto desses torcedores e recebem cada vez mais público em épocas de Copa do Mundo.
– O que acontece? Já chegou isso na Argentina, entendeu? Tem matéria na Argentina sobre o vídeo do GLOBO, sobre esse tipo de situações, e está difícil de explicar para a pessoa porque isso virou um fenômeno (…) Claro, eu tenho que contratar mais segurança, o que já tenho, mas agora eu vou ter que dobrá-la. Meus receios são as represálias de todas as pessoas que estão se debatendo, estão se provocando na internet, e estamos vendo só uma parte, porque a outra parte dos batidores nós não vemos, porque não sabemos o que os caras estão falando, e isso gera ódio, gera desconforto, e para mim, muita insegurança, entendeu? – afirma Galarza, que não quis se estender sobre quais tipos de ameaças andou recebendo.
Nas redes, a maioria dos comentários versa sobre incompreensões pelo motivo que fazem alguns nascidos no Brasil deixar de torcer para seu país. No Moocaires, eles são facilmente reconhecidos pelo sotaque, afinal as músicas características dos “hinchas” são cantadas ali com o tradicional sotaque “macarrônico” da Mooca.
— Pô, meu. Aí, não, Messi. Bate forte, pô. Mas ele tem crédito com a galera — afirmou Elivelton Silva, de 33 anos, um “argentino de Guarulhos”, quando o camisa 10 perdeu um pênalti contra a Áustria, pela segunda rodada da Copa do Mundo, na segunda-feira (22), jogo que acabou 2 a 0 para os argentinos. – A Argentina tem muito mais garra que o Brasil e tenho essa conexão com a seleção desde 2014 – diz o torcedor, que não tem opção de times do país vizinho e torce apenas para o São Paulo F.C.
Bar de SP vira reduto de paulistanos que torcem para a Argentina
— Eu sou argentino da divisa de São Paulo com São Bernardo — brinca o corretor de seguros Renato Coudes, de 51 anos, torcedor dos hermanos desde 1998, embora, em vídeo que viralizou, diz ter virado a casaca quatro anos depois. Para ele, depois que a Copa da França “foi comprada”, não tem mais sentido torcer para a seleção brasileira. Com isso, “perdeu” o penta, em 2002.
— Não faz falta, pois vi o tri (argentino) em 2022 e este ano vamos ver o tetra — diz o paulistano que, ao contrário de outros torcedores no Moocaires, deixou de torcer apenas para a “seleção da CBF”.
– Torço para o (João) Fonseca no tênis, torço para o Brasil no vôlei e no basquete. Só para o futebol que não – afirma Coudes, enquanto ouvia um “não” de desaprovação vindo da turma que acompanhava o jogo no bar da Mooca.
Tanto Silva quanto Coudes não se conheciam antes de frequentarem o Moocaires na Copa. Isso ocorre também com outros torcedores, que encontram no estabelecimento (e fora dele, no postoda frente) um local para frequentar com “os seus”. Ambos dizem que não ligam para as críticas e afirmam que a escolha é pessoal e cada um torce para quem quiser.
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Enquanto os brasileiros que optaram pelo time de Lionel Messi precisam se explicar sobre a troca de preferência de seleção, o dono do Moocaires afirma que também torce pela seleção brasileira e não vê sentido nas críticas que seus clientes recebem. Para Galarza, todos são tratados da mesma forma.
– Às vezes recebo pedidos para reserva de lugares para argentinos em dias de jogos e digo que todos devem pegar a mesma fila – diz o empresário, casado com brasileira e pai de um casal de filhos, ambos nascidos em São Paulo.
– Quando o Brasil joga, é claro que torço para vocês. Hoje vim trabalhar com a camisa do Romário, meus filhos torcem para o Brasil. Eles não são muito fanáticos por futebol, mas tenho um sobrinho que é. Então, às vezes, eu fico pensando no amor de pai, no amor de família, e até prefiro que o Brasil ganhe da Argentina, para não ver o moleque triste, porque ele vai ficar com um trauma. Então, para mim, o amor está por cima do fanatismo, entendeu? – questiona o dono do Moocaires.
– Cada um torce para quem quiser e as pessoas têm que respeitar essas decisões – diz o empresário.
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Galarza diz ter um motivo principal que leva a seu bar cada vez mais brasileiros que torcem pela seleção argentina: os exemplos de seus ídolos mais recentes.
– Messi não se envolve em propaganda política, não fala de governo, entendeu? Quando saiu a lista da Copa do Mundo, enquanto Messi saiu com a bandeira da Argentina, Neymar publicou propaganda de energético e de bets. As imagens dos dois foram construídas de formas diferentes – conclui o empresário.

