De jogos simultâneos na última rodada até a classificação dos terceiros colocados ao mata-mata, algumas mudanças foram impostas na Copa do Mundo como legado do chamado “Jogo da Vergonha”. Em 1982, a então Alemanha Ocidental bateu a vizinha Áustria por 1 a 0 em tom de camaradagem, em um resultado que serviu para classificar as duas e eliminou a Argélia na fase de grupos. A curiosidade é que, 44 anos depois, os argelinos poderão se beneficiar em um cenário idêntico, e justamente enfrentando os austríacos.
As duas seleções entram em campo em Kansas City às 23h de hoje, na partida final do grupo J, que tem a Argentina garantida na liderança. Ambas têm três pontos, com a Áustria aparecendo em segundo por ter um saldo de gols superior (0 contra -2), mas a questão é que o empate serve para uma comemoração mútua: os quatro pontos, que têm sido a nota de corte para os terceiros colocados avançarem neste Mundial, posicionarão a Argélia entre os oito melhores.
Evidentemente, a principal disputa em campo é pela vice-liderança da chave, mas até nisso há uma ironia. O segundo colocado enfrentará na segunda fase a Espanha, que ontem garantiu a ponta do grupo I. Já o terceiro cairá no caminho de outro líder, sendo mais provável neste momento a Suíça, melhor colocada do B — pode ser interessante fugir do confronto contra uma das favoritas ao título.
Acima de tudo, Áustria e Argélia ainda brigam pela sobrevivência, já que uma derrota por mais de um gol pode inviabilizar a classificação ao mata-mata. Mas é inevitável apontar a ironia do destino que cerca o jogo de hoje, podendo guardar uma revanche para os africanos.
Em 1982, os dois países estavam no grupo B, ao lado de Alemanha Ocidental e Chile — que perdeu todos os jogos. Na primeira rodada, a Argélia surpreendeu ao vencer os alemães por 2 a 1, enquanto a Áustria bateu os sul-americanos por 1 a 0. Depois, a seleção liderada por Karl-Heinz Rummenigge goleou os chilenos por 4 a 1 e os austríacos fizeram 2 a 0 nos argelinos, no único confronto entre estes países ao longo da História.
Os jogos da última rodada foram disputados em dias diferentes. Em 24 de junho, a Argélia bateu o Chile por 3 a 2. Os demais adversários se enfrentaram na cidade de Gijón no dia 25, com a Áustria, líder, podendo eliminar a Alemanha, mas também sabendo que uma vitória alemã por até dois gols de diferença serviria para classificar as duas. Afinal, haveria um empate triplo de quatro pontos — à época, uma vitória valia dois — e os europeus avançariam no saldo de gols.
Por sinal, imaginava-se que o jogo contaria com forte rivalidade, já que a Áustria venceu por 3 a 2 um jogo entre eles em 1978, e impediu que a Alemanha avançasse da segunda fase daquela Copa. Ou seja, era inimaginável um “jogo de compadres”.
Aos 10 minutos, o centroavante Horst Hrubesch, conhecido como “A Besta”, abriu o placar, e não houve mais jogo no estádio El Molinón. Os dois times trocaram passes sem objetivo e recuaram diversas vezes a bola até os goleiros (que ainda podiam pegar recuos com as mãos). Ao perceberem a falta de atitude dos jogadores, os torcedores na arquibancadas entoaram gritos de “Fora!” e “Que se beijem!”. Os argelinos no local exibiram notas de dinheiro, e um alemão queimou a bandeira de seu país em protesto. Nas transmissões do jogo, também houve revolta e alguns comentaristas se recusaram a seguir no ar.
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Apesar das críticas e dos pedidos de anulação da partida, o resultado foi mantido. A Argélia ficou no terceiro lugar, com quatro pontos, mas saldo inferior aos adversários. A Áustria foi eliminada na segunda fase, em um triangular com França e Irlanda do Norte. Já a Alemanha chegou à final, onde foi derrotada pela Itália.
— Não jogamos para ser populares. Fomos pelo resultado. Isso é tudo — disse o goleiro alemão Harald Schumacher em um documentário gravado anos depois.
Para evitar a repetição deste caso, a Fifa determinou a partir de 1986 a realização de jogos simultâneos dentro dos grupos na última rodada. Além disso, nas três edições seguintes, os melhores terceiros colocados avançaram ao mata-mata, regulamento que voltou em 2026.
A repercussão do jogo entre Alemanha Ocidental e Argélia foi péssima, e ecoou no Brasil com fortes críticas às duas seleções. Na capa da edição do dia 26 de junho de 1982, o GLOBO definiu o jogo como “mole”, e dedicou outras matérias com “imoral”, “farsa” e “combinado” no título.
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O resultado de 44 anos atrás ainda repercute na Argélia. O site “Echorouk Online” lembrou do jogo, a que chamou de “manipulado”, e definiu como “a vergonha de Gijón”, apelido também muito difundido. O desejo é de revanche no Norte da África.
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