No centro das suspeitas envolvendo a relação do senador Jaques Wagner (PT-BA) com o banqueiro Augusto Lima, ex-sócio do Banco Master, um apartamento de R$ 2,45 milhões em Salvador tem por trás uma empresa administrada por um ex-metalúrgico que era dono de oficinas mecânicas em São Paulo. A Polícia Federal (PF) aponta que o imóvel foi destinado como “vantagem indevida” ao parlamentar em troca de atuação política no Congresso.
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As suspeitas envolvendo o imóvel recaem sobre a Epitome S.A, consultoria de gestão empresarial responsável pela transação imobiliária, que não chegou a ser concluída. A empresa tem como representante Luiz Antônio Lombardi, que, em um período de cinco anos, deixou de administrar oficinas mecânicas na zona norte da capital paulista para se tornar executivo de empresas com capital social que somam R$ 56 milhões.
A PF aponta Lombardi como “pessoa interposta” ou “titular aparente” no negócio, ou seja, alguém que atuava para esconder o verdadeiro dono. O ex-metalúrgico é amigo de infância do advogado Daniel Monteiro, indicado nas investigações como “operador técnico e estrutural” do escândalo do Master e encarregado de arquitetar a ocultação patrimonial de negócios envolvendo o banco.
Apartamento pedido por Wagner a ex-sócio do Master fica em condomínio com características de alto padrão
Reprodução
Em entrevistas, Wagner admitiu que pediu a Lima para comprar o apartamento, ainda em construção, e o plano era dá-lo à sua filha, mas disse que não houve contrapartida política. A defesa do parlamentar disse que “não fará novas manifestações sobre temas que envolvam este procedimento”.
Já a defesa de Lima afirma que “ele jamais adquiriu o imóvel mencionado e não possui participação nas empresas apontadas como supostas compradoras na negociação”. “A investigação também não demonstra qualquer atuação funcional por parte do senador Jaques Wagner em benefício de Augusto Lima ou do Banco Master, requisito indispensável para a configuração dos crimes investigados”, diz, em nota.
Mensagem interceptada pela PF mostra o interesse de Wagner no imóvel. “A unidade é a 1702 e o preço é 2,45 mi”, escreveu o senador a Lima. Com 245,3 m² de área privativa, o apartamento tem quatro suítes e fica em um condomínio com características de alto padrão, como quadra de tênis, espaços para animais de estimação e guaritas blindadas.
Conforme a PF, Lima acionou um funcionário para tratar das burocracias relativas ao empreendimento. O trabalho, segundo as apurações, foi feito com auxílio de Monteiro, que atuava como advogado do Master e controla um fundo acionista da Epitome.
Teia de fundos
Antes de negociar o imóvel em Salvador, a Epitome recebeu R$ 2,5 milhões do fundo Hockenheim, que, por sua vez, tem como cotista outro fundo, o Le Mans, controlado por Monteiro.
Procurada, a defesa de Monteiro confirmou que nomeou Lombardi para trabalhar numa rede de empresas, incluindo a Epitome, porque ele é um “amigo de longa data e irrestrita confiança”. Questionado sobre o negócio envolvendo o apartamento, o ex-metalúrgico afirmou não ser dono da firma, “tendo tão somente administrado referida empresa”.
“A despeito de ter crescido em um ambiente humilde, Luiz sempre pautou sua trajetória pelo trabalho e dedicação profissional. Atuou por muitos anos junto a empresas do setor da indústria metalúrgica, bem como, mais recentemente, efetivamente exerceu a gestão das empresas a que esteve vinculado”, diz o texto.
A relação entre Monteiro e Lombardi, contudo, vai além da amizade. A carreira empresarial do ex-metalúrgico teve uma guinada nos últimos anos, quando foi indicado para atuar como diretor de empresas criadas entre 2021 e 2024 ligadas ao advogado— os dois cresceram juntos na Zona Norte de São Paulo.
Após passar anos trabalhando na indústria metalúrgica, em 2015 iniciou a carreira de empreendedor ao abrir uma oficina, com capital social de R$ 50 mil, que transformava veículos em trailers de foodtruck. Em 2021, o negócio não ia bem, e ele resolveu abrir uma mecânica que adaptava carros comuns para disputar corridas em autódromos, os chamados “Trackday”.
Dívida e parcelamento
Pessoas que trabalharam com Lombardi relataram que ele costumava se queixar de falta de dinheiro e precisou parcelar a compra de um dinamômetro industrial (equipamento usado para medir a potência dos veículos) de cerca de R$ 6 mil. Anos antes, a prefeitura de Praia Grande (SP) moveu ação para cobrá-lo por dívida de IPTU de R$ 3 mil por imóvel avaliado em R$ 113 mil.
— Ele nunca colocou dinheiro na oficina. Por isso, o negócio não foi para frente — diz o mecânico Renato Ivanoff, ex-sócio de Lombardi.
Inicialmente aberta como “empresa de prateleira” — pessoa jurídica com cadastro na Receita e registros ativos, mas que nunca operou — a Epitome foi ativada e teve capital social elevado de R$ 100 para R$ 2 milhões em 2024, sendo Lombardi nomeado diretor.
Lombardi figura como administrador de outras empresas, como a Rubicão S.A., que tem capital de R$ 19,5 milhões e, em 2025, adquiriu participação de 60% do campo de exploração de petróleo em Itaparica (BA). Ela possui como cotista o fundo Hot plasma, gerido pela Reag, que teve sua liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central.
O ex-metalúrgico ainda consta como diretor da Pegasus, que atua como intermediadora de negócios e tem capital social de R$ 15 milhões. Um dos investidores da Pegasus é o fundo Sebastian, que é vinculado à rede financeira gerida pela Reag. Procurada, a Reag não comentou.
A defesa de Daniel Monteiro afirmou que Lombardi realmente trabalhou para as suas empresas, que são todas declaradas na Receita e CVM e não “tem nada de oculto”. Segundo a advogada Dora Cavalcanti, Monteiro é um advogado especializado em mercado financeiro, cujo “escritório prestou consultoria ao Master em diversas operações legítimas e que atuou no contencioso em mais de 28 mil ações relacionadas ao banco”.

