Na decisão que determinou a prisão preventiva de Paola Stefany Neto Cirino, suspeita de matar a facadas um casal de idosos, a juíza Juliana Beretta Pinto afirma que não existem até o momento indícios de que a mulher sofra de patologia psiquiátrica ou que seja incapaz de compreender a ilegalidade dos próprios atos. Após ser presa em Itabira nesta quinta-feira, Paola Cirino alegou ter cometido os crimes após ouvir “vozes” e afirmou que poderia ter tido um surto psicótico após tomar remédios.
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A audiência de custódia que converteu a prisão em flagrante da suspeita em preventiva data desta sexta-feira. Segundo a magistrada, não existem elementos que comprovem ser Paola Cirino “portadora de doença mental ou desenvolvimento mental incompleto (…) que denotem sua semi-imputabilidade ou inimputabilidade”.
A magistrada acrescenta ainda que os laudos periciais não apontam resquícios na urina e sangue de remédios psiquiátricos ou entorpecentes. Segundo a juíza, nenhum documento apresentado pela defesa demonstra que a suspeita seja portadora “de patologia psiquiátrica ou que seja incapaz de, em razão dela, compreender o caráter ilícito da conduta”. Ela, no entanto, acrescenta que deverá ser instaurado um incidente de insanidade mental para verificar a capacidade da mulher de compreender as consequências dos próprios atos.
Nesta quinta-feira, após a prisão de Cirino, a defesa da suspeita disse que a mulher tem diagnóstico “sensível” relacionado à saúde mental. O advogado Bruno Correa Lemos acrescentou, no entanto, não ter tido ainda acesso aos documentos que comprovam a condição.
— Assim que essa documentação chegar, nós faremos um estudo muito responsável e técnico dessa documentação para verificar se, ao longo da ação penal, nós formalizaremos algum pedido de insanidade mental — disse Lemos, que acrescentou — É uma mulher que possui um histórico pessoal extremamente conturbado, conforme foi dito pela própria Polícia Civil e também por alguns familiares da Paola. É uma pessoa que sempre buscou tratamento médico psiquiátrico.
Em depoimento aos policiais, a tia de Paola Cirino, Nilza Maria Neto, afirmou que a mulher “apresentava comportamento normalmente tranquilo”, apesar de “certa instabilidade emocional”. A suspeita teria chegado a iniciar um tratamento em um Centro de Atenção Psicossocial (Caps) em Ribeirão das Neves, mas não teria dado continuidade ao acompanhamento.
O crime
De acordo com a investigação, Paola sedou e matou a facadas Cláudio e a empresária Maria Clotilde Moreira Maciel Atala Inácio, de 76 anos, antes de furtar joias, dinheiro e outros bens do apartamento. Entre os objetos levados estavam relógios de luxo avaliados em R$ 108 mil, vendidos posteriormente na Praça Sete, na região central da capital mineira.
Os relógios foram localizados e devolvidos pelo comprador à Polícia Civil na quinta-feira. Em nota, a corporação afirmou que, até o momento, não há indícios de que ele tenha agido de má-fé.
— O comprador dos relógios de luxo chegou à delegacia com os itens, prestou depoimento, foi ouvido e entregou os relógios. Se durante as investigações for comprovado que ele tinha outro tipo de envolvimento com o crime, ele responderá criminalmente — pontuou Barletta.
Segundo o Departamento Estadual de Investigação de Crimes Contra o Patrimônio, da Polícia Civil de Minas Gerais, a principal linha de investigação é a de latrocínio (roubo seguido de morte).
Paola foi presa na madrugada de quinta-feira (2), em Itabira, na região central de Minas Gerais. Em depoimento, confessou o crime, afirmou que ouviu “vozes” durante um “surto psicótico” e disse ter colocado comprimidos do calmante na bebida servida ao casal antes dos assassinatos. De acordo com Barletta, ela se mostrou “bastante confusa” durante o interrogatório, apresentou “falas desconexas” e demonstrou arrependimento.
O delegado também revelou que o primo de Maria Clotilde, responsável por indicar Paola para trabalhar na casa dos idosos, passou a suspeitar que também tenha sido dopado pela diarista.
— O primo que indicou Paola também foi ouvido. Ele relatou que ela realizava trabalho, pelo menos duas vezes por semana, em sua residência. Ele contou que, agora, depois do duplo homicídio, suspeita que também tenha sido dopado por ela. Em um episódio, ele passou mal — contou Barletta.
Segundo o delegado, as investigações estão na fase final.
— As investigações já estão caminhando para o final. Se algum outro produto roubado for identificado, constará no relatório final. Agora, vamos consolidar todas as informações que temos no documento de inquérito — concluiu.
Entenda o caso
Paola Stefany Neto Cirino foi presa sob acusação de matar um casal de idosos em um apartamento de alto padrão em Belo Horizonte. No interrogatório, ela disse que foi ao local para realizar um serviço de limpeza e que decidiu furtar joias, relógios, dinheiro e outros objetos de valor depois de encontrá-los no quarto do casal. Questionada pelo delegado sobre por que matou as vítimas “de forma tão cruel”, respondeu que não tinha nada contra elas.
— Ela alegou que nunca havia visto essas pessoas na vida. Inclusive, estava bastante arrependida, mas que algumas vozes, por surto psicótico, teriam decidido que, para além da subtração dos objetos, deveria retirar a vida das pessoas com a faca, esse meio cruel que ela utilizou — detalhou Barletta.
Segundo o delegado, Paola afirmou ter pegado remédios que ela mesma usava em tratamento psiquiátrico contra a depressão, colocado quatro comprimidos de um “calmante fortíssimo” em um suco servido ao casal e aguardado entre 30 e 40 minutos até que eles começassem a adormecer.
— Ela decidiu, então, passar às agressões com a faca. Ela disse que, posteriormente a perceber que eles estavam mortos, e ela tentou se garantir disso, que eles não iriam mais reagir, passou a se limpar. Perguntei se ela tomou banho, ela nega, [mas] acredito que ela tenha tomado, a perícia encontrou vestígios disso. Ela assume que trocou de roupas, utilizou roupas da vítima, da senhora, e também pegou a faca que foi utilizada e limpou. Essa faca está na casa. A gente vai tentar apreender essa faca e fazer uma perícia — ressaltou.
Inicialmente, o boletim de ocorrência apontava que Cláudio havia sido atingido por 17 facadas. Posteriormente, Barletta esclareceu que essa contagem se referia apenas aos golpes no tórax. Segundo o perito, o advogado sofreu mais de 40 facadas. Maria Clotilde também foi atingida por diversos golpes, mas a quantidade exata ainda depende da conclusão dos laudos.
As vítimas foram encontradas mortas pelo filho na terça-feira. Imagens de câmeras de segurança mostram a diarista entrando no prédio às 7h30 e saindo às 15h30 de segunda-feira, carregando duas sacolas e uma bolsa. Roupas com manchas de sangue foram localizadas em uma caçamba de lixo.
Após o crime, Paola voltou para casa em Ribeirão das Neves, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, e, no dia seguinte, hospedou-se em um hotel na Savassi. Na quarta-feira, viajou para Itabira com o filho, onde foi localizada e presa sem resistência.
— Ela se demonstrou ser uma mãe muito carinhosa, estava muito preocupada com a criança. Quando a gente chegou, ele ficou muito assustado, mas pelo que a gente pôde perceber eles já estavam conversando sobre essa prisão. Ela estava abraçada com ele na cama, chorando. Já esperava que pudesse ser encontrada, já que a repercussão dos fatos foi elevada. Ela disse: “Eu estava me vendo na televisão a todo momento, estava me sentindo envergonhada, queria nem mais sair na rua” — disse Barletta.
O advogado de Paola, Bruno Correa Lemos, afirmou que ela tem “diagnóstico sensível relacionado à sua saúde mental” e disse ainda não ter tido acesso aos documentos que comprovam a condição da diarista. Acrescentou que “as razões defensivas serão apresentadas no momento processual oportuno, com base nos elementos constantes dos autos e nas provas que vierem a ser produzidas, sempre com respeito às instituições e à atuação das autoridades competentes”.

