Não faltavam atrações em campo: Mbappé, Dembélé, Olise, Doué e até o goleiro Orlando Gill, alçado ao estrelato durante a Copa do Mundo. Mas o protagonista do duelo entre França e Paraguai foi outro: o calor. Os 38°C no ar (e sensação térmica muito acima disso) se impuseram no estádio da Filadélfia e afetaram a partida dentro e fora de campo. Graças ao gol de pênalti de Mbappé, que decretou o 1 a 0 no placar, os europeus avançaram às quartas de final, onde irão encarar Marrocos. Mas é justo dizer que, ao apito final, todos foram sobreviventes.
Até mesmo os torcedores. Antes e durante a partida, todos se abanavam num movimento agonizante. No intervalo, chamou a atenção que o lado da arquibancada atingido pelo sol se esvaziou quase que totalmente. O público aproveitou os 15 minutos para se esconder no corredor interno do estádio. Quando o segundo tempo começou, muitos ainda não haviam retornado.
Para os jogadores também foi difícil. Eles recorreram a toalhas molhadas durante as paradas técnicas, mas não foi suficiente. O calor impactou drasticamente a intensidade da partida, que não foi das melhores de se assistir. Nem os muitos talentos franceses impediram que, em bora parte do tempo, o jogo lembrasse os piores do futebol brasileiro.
O primeiro tempo (não por coincidência, quando estava mais quente), foi especialmente abaixo do esperado. O Paraguai se propôs a apenas a defender. E nisso foi muito eficiente. Compactou as linhas, dobrou a marcação pelo lado e não deu espaço a Mbappé e Olise. A França desceu para o intervalo sem ter criado nenhuma grande chance.
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Mas nem tudo pode ser posto na conta da eficiência paraguaia. A marcação imposta pelos sul-americanos pedia uma aceleração por parte dos franceses, o que eles não foram capazes de fazer, dado o calor extremo. Além disso, Barcola não estava numa tarde inspirada, o que limitou os avanços do time de Didier Deschamps pelo lado direito.
Uma cena do começo do segundo tempo também é simbólica em relação a como o calor afetou os jogadores. Até os que estão num outro nível. Aos 5 minutos, uma ligação direta bem feita deixou Mbappé sozinho na frente. O camisa 10 só precisava correr e encarar o goleiro Gill. Mas falhou no domínio e ajeitou com o braço. Na sequência, errou a passada e acabou desarmado.
— Não quero dizer que seja mais fácil (para eles). Mas é mais fácil jogar (no calor) com bloco baixo e esforço mínimo quando é o outro tem que levar o peso da bola, driblar e fazer ações com velocidade. É verdade que o calor extremo tem impacto e não vou dizer que foi maior em nós que neles. Mas, devido ao nosso estilo de jogo, era dificil manter a intensidade — analisou Deschamps.
Apesar disso, a etapa final foi de uma França um pouco mais eficiente. Primeiro porque a entrada de Doué no lugar de Barcola deu opção ao time pela esquerda. Além disso, o Paraguai não conseguiu mais fechar tão bem os espaços como antes. Doué só precisou de uma brecha para entrar na área e ser derrubado por Diego Gómez. Pênalti convertido por Mbappé, aos 25. O atacante igualou Messi na artilharia da edição (7 gols) e ficou a um do argentino no ranking histórico (19 x 20).
Diante da incapacidade do Paraguai em buscar o empate (o time não soube criar uma jogada sequer e dependeu da correria isolada de Enciso), o gol definiu a partida. Para os franceses, passou a ser mais interessante administrar o placar, embora ainda tenham tido mais algumas poucas chances. E o jogo que nunca esteve perto de ser empolgante terminou mesmo marcado pelos muitos momentos de empurra-empurra.
— Sabíamos que tipo de jogo íamos ter. Se tivermos que sujar as mãos, sabemos como fazer. Sabemos jogar futebol sujo. Eles pensaram que íamos chegar e jogar de smoking, mas estávamos lá. Mesmo nesse jogo, fomos melhores do que eles — reclamou Mbappé.
A Fifa chegou a ser alertada pelo sindicato internacional dos jogadores (FIFPRO) e por autoridades da área da ciência sobre os riscos da exposição ao calor excessivo como o que já estava previsto para este sábado. Mas decidiu não mexer no horário da partida.

