A essa altura do campeonato, com a intolerância religiosa não parando de crescer e ataques físicos acontecendo à luz do dia, com agressores filmando para postar nas redes sociais, é alentador saber que o Iphan está em vias de realizar o primeiro tombamento cultural federal de um terreiro no Estado do Rio. Ameaçada de morte, a ialorixá Mãe Maria de Xangô observa tudo à distância. Hoje, ela está em São Paulo esperando o desfecho de uma saga por reconhecimento que já se arrasta nos corredores do poder há muitos anos.
O terreiro Axé Oloroke Pantanal, em Duque de Caxias, é um dos mais antigos em atividade da Nação Efon no país. Nascido em Salvador, na Bahia, Cristóvão Lopes dos Anjos foi figura essencial para a construção desse espaço, para muitos, sagrado. Morador também de Caxias, o famoso pai de santo Joãozinho da Gomeia indicava mais e mais pessoas para que se consultassem com “os baianos que estavam chegando”. Em maio de 1951, já se via no terreiro o Iroko, o dendezeiro, a jaqueira, o bambuzal e as demais plantas dos cultos. A maior festa do ano acontece todo 1º de maio, data em que o Iroko foi plantado. Desde o começo, a comunidade se reúne diante da árvore para pedir e agradecer. As rezas católicas também eram ouvidas. Mãe Maria é neta de Cristóvão.
Com o tombamento, traz-se um caráter de patrimônio federal, o que altera e muito a realidade. “O tombamento federal leva a uma proteção do Iphan e, por consequência, da Polícia Federal e de demais órgãos de igual competência”, explica a historiadora e superintendente regional Patrícia Correa, que tem gestão marcada pelo olhar às minorias. Esse passo tem também a importância de estimular que outros terreiros busquem o Iphan. A intolerância é crime no Brasil, está no artigo 20 da Lei nº 7.716, de 1989, mas infelizmente poucos pagam a conta dos ataques.
Já que falei de Joãozinho
Conhecido como Rei do Candomblé, Joãozinho da Gomeia saiu da Bahia e fez de seu terreiro em Duque de Caxias um dos mais frequentados do país nos anos 1950. Recebeu artistas e personalidades, ganhou capas de revistas e enfrentou ataques racistas e homofóbicos. Em 1956, ao participar de um baile no Teatro João Caetano vestido de vedete, foi exposto pelo jornal de Tenório Cavalcanti com a manchete “Desfile de anormais”. Morreu em 1971, após complicações numa cirurgia para retirar um tumor cerebral. Disputas pela sucessão e saques marcaram o abandono do terreiro, cujo terreno foi tombado em 2021. Na Avenida, essa memória ganhou outro destino: a Grande Rio contou sua trajetória e denunciou a intolerância religiosa no desfile de 2020, conquistando o vice-campeonato do carnaval carioca.
Candomblé nas ruas de Belford Roxo
Ex-empregada doméstica, Mãe Isabel de Oyá fundou, em 2002, o Afoxé Raízes Africanas e levou um cortejo de cantos, tambores e devoção aos orixás às ruas de Belford Roxo. A iniciativa deu visibilidade ao candomblé numa cidade marcada pela intolerância religiosa, onde terreiros já foram incendiados. Mineira, Isabel chegou à Baixada ainda menina, trabalhou na lavoura de café e, aos 13 anos, tornou-se trabalhadora doméstica. Guardava a lembrança da mãe que, sem dinheiro para roupas, unia panos com nós até formar um vestido — imagem que associava à África. Em 2003, 16 mulheres, filhas de Oxum, batizaram o afoxé na quadra do Império Serrano. O grupo passou a participar também do carnaval do Rio, e sua fundadora recebeu o reconhecimento de Mestra em Cultura Popular. Viva.
Da Pedra do Sal à Baixada
O Ilê Axé Opô Afonjá, em Coelho da Rocha, São João de Meriti, preserva uma ligação com a Pedra do Sal, um dos berços da luta contra a escravidão na cidade. Fundada em 1886 pela baiana Eugênia Anna Santos, a Mãe Aninha, a casa atravessou mudanças de endereço em meio às reformas urbanas, demolições e perseguições que atingiram comunidades negras e terreiros do Rio. Em 1947, Mãe Agripina e Tia Conceição iniciaram as obras do barracão em Coelho da Rocha, que está até hoje de pé.
Por fim
Patrimônio vai muito além do físico. Alguns teimam em não compreender. Paciência. Passarão.
A fé da Baixada pede proteção
