Quem ou o que definirá o futuro da humanidade? Se essa tarefa for confiada às máquinas, isso representaria o fim dos nossos tempos? Essas foram algumas das perguntas que nortearam a festa exclusiva Worthy Successor, organizada pelo empresário americano Daniel Faggella, com a participação de pesquisadores em inteligência artificial (IA), filósofos e especialistas em tecnologia de prestigiados laboratórios e universidades de todo o mundo.
- IA: Juiz dos EUA rejeita que Meta tenha violado direitos autorais ao treinar sua inteligência artificial
- Cálculo: IA pode adicionar US$ 429 bi ao PIB do Brasil, mas ganhos dependem de qualificação de mão de obra
O local escolhido foi uma mansão luxuosa situada sobre um penhasco com vista para a ponte Golden Gate, em San Francisco, Califórnia, avaliada em US$ 30 milhões. Lá, entre drinks sem álcool e tábuas de queijos, cerca de 100 especialistas debateram sobre a expansão da inteligência artificial generativa (IAG) e seu poder de transformar nossa realidade para sempre.
“Este evento está muito focado na transição pós-humana. Não em uma AGI (inteligência geral artificial) que sirva eternamente como ferramenta da humanidade”, explicou Faggella a um repórter da Wired. Segundo ele, a motivação para realizar o encontro foi a escassez de espaços de reflexão para discutir esse tipo de tema.
- Cansado de Tinder e afins? Você não está só: cresce a demanda por ‘serviços profissionais’ de namoro
“Os grandes laboratórios, as pessoas que sabem que a AGI provavelmente colocará fim à humanidade, não falam sobre isso porque os incentivos não permitem”, disse, referindo-se a empresários do setor como Elon Musk, Sam Altman e Demis Hassabis, que “foram bastante francos sobre a possibilidade de que a AGI nos mate a todos”. Apesar disso, “todos estão correndo a toda velocidade para construí-la”.
Nesse cenário, para Faggella, o “objetivo moral” da IA deveria ser criar uma forma de inteligência tão poderosa que “alguém preferiria, de bom grado, que fosse ela (e não a humanidade) a determinar o futuro caminho da própria vida”.
Ginevera Davis, escritora radicada em Nova York, protagonizou a primeira palestra do evento e alertou que os valores humanos podem ser “impossíveis” de traduzir para a IA. Além disso, afirmou que a tecnologia nunca compreenderá o que significa ser consciente.
Seguindo essa linha, defendeu que o caminho mais adequado seria buscar uma “alinhamento cósmico” — isto é, construir uma IA capaz de procurar e encontrar valores ainda mais profundos do que os que conhecemos hoje.
Em seguida, o filósofo Michael Edward Johnson argumentou que, embora uma mudança tecnológica radical seja iminente, a comunidade científica e tecnológica ainda carece de um marco ético claro para enfrentar essa transição.
- Novidade: Meta lança óculos de inteligência artificial da Oakley com gravação de vídeo em 3K
Ele também sugeriu que criar uma IA sem compreender completamente o que é a consciência pode ser uma aposta arriscada. Por isso, propôs ensinar tanto humanos quanto máquinas a perseguir e alcançar “o bem”, em vez de simplesmente ordenar que a IA obedeça aos comandos humanos.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2023/5/l/OnVl80SD2g98kuT2DzFg/adi-goldstein-eusvweosble-unsplash.jpg)
Faggella conduziu a terceira e última palestra do evento. Especificamente, o fundador da empresa de pesquisa em IA Emerj afirmou que a humanidade não durará para sempre na sua forma atual. Diante disso, será essencial projetar um sucessor que não apenas sobreviva, mas também tenha a capacidade de criar novos tipos de significado e valor.
- Artigo: ‘O futuro com a inteligência artificial não está dado’
Ele destacou duas características fundamentais para esse sucessor: ter consciência e autopoiese — ou seja, a capacidade de evoluir e gerar novas experiências. Além disso, com base em ideias de filósofos como Baruch Spinoza e Friedrich Nietzsche, mencionou a imensidão do valor existente no universo, o que justificaria a criação de algo capaz de revelar “o que vem depois”. Faggella chamou essa visão de “cosmismo axiológico”.
Se a humanidade cumprir essa missão, o especialista arriscou que a IA não apenas herdará nosso planeta, mas também o potencial do universo.
Ao final do evento, a grande maioria dos convidados voltou para casa em Ubers ou Waymos — os táxis autônomos que fazem sucesso em cidades tecnológicas como São Francisco. “Este não é um grupo que defende a destruição do homem. É um grupo que, se algo, defende frear o avanço da IA para garantir que estamos indo na direção certa”, concluiu Faggella.