As frias praias da Normandia, na França, foram o cenário de uma batalha sangrenta e decisiva para a Segunda Guerra Mundial. Naquela terça-feira, dia 6 de junho de 1944, há 81 anos, mais de 150 mil soldados americanos, ingleses e canadenses realizaram uma ofensiva para libertar a Europa ocupada pela Alemanha nazista de Adolf Hitler. Quando terminou o chamado “Dia D”, as tropas aliadas tinham conquistado o litoral Norte francês. Hoje, a data é celebrada como o começo da derrota do III Reich.
Com o codinome de Operação Netuno, a maior invasão do mar para a terra na História fazia parte de uma mobilização que também envolvia bombardeios intensos e a chegada de milhares de soldados saltando de aviões com para-quedas no interior da França. Toda essa ofensiva havia sido planejada detalhadamente, e em sigilo total, ao longo das nas semanas anteriores. Para escolher a melhor data e os horários exatos da ofensiva, a astronomia teve um papel fundamental.
“As celebrações no aniversário do ‘Dia D’ acertadamente se concentram no heroísmo dos soldados aliados que deram início à liberação da França, mas também podemos aproveitar a oportunidade para reconhecer o papel da astronomia no planejamento e na execução desse evento transformador”, disse o astrônomo Donald Olson, professor de Física da Universidade do Texas, nos Estados Unidos, quando o mundo estava festejando o 75º aniversário do histórico desembarque na Normandia, em 2019.
Olson usou seu conhecimento teórico para explicar, em um artigo, o “Dia D” da perspectiva da ciência dos astros. Em seus livros de memórias, o então primeiro-ministro britânico, Winston Churchill, e o então comandante das Forças Aliadas, o general Dwight D. Eisenhower, escreveram que a ofensiva na Normandia foi calculada para acontecer com a maré baixa ao amanhecer, logo após uma noite de Lua Cheia. Em junho de 1944, essas condições só ocorreriam entre os dias 5 e 7.
A Lua Cheia seria importante por dois motivos. Como a invasão por ar deveria que ocorrer à noite, para surpreender os alemães, o brilho do satélite da Terra seria crucial para que as tropas enxergassem os alvos de bombardeio e os locais de pouso dos soldados paraquedistas. Ainda mais prioritária, porém, era a ampla variação nas marés durante a Lua Cheia, o que beneficiaria a chegada das embarcações na costa da Normandia, onde as marés podem variar em até 6 metros entre a baixa mar e preamar.
Em todo lugar do mundo, a variação das marés é mais ampla nas luas Nova e Cheia. Muita gente leva isso em consideração quando planeja suas férias. Quem pretende ir ao Litoral Norte de Alagoas, por exemplo, para ver as belas piscinas formadas durante a maré baixa ao longo das praias em São Miguel dos Milagres, deve preferir viajar em datas próximas a uma lua Nova ou Cheia, que é quando as marés atingem seu ponto mais baixo, deixando aqueles lindos sulcos alagados no fundo de areia.
Os aliados queriam chegar na Normandia com a maré baixa porque, assim, as centenas de obstáculos de ferro deixados na areia pelos alemães justamente para obstruir invasões poderiam ser avistados e destruídos. Ao mesmo, os arquitetos do “Dia D” entenderam que era preciso alcançar a praia quando a maré estivesse começando a subir, para que as embarcações não ficassem encalhadas na praia com o recuo das águas. Tudo isso foi calculado até se chegar à janela de tempo ideal para o ataque.
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A ideia era realizar o desembarque no dia 5 de junho, mas a ofensiva foi adiada em 24 horas por causa do tempo: chovia bastante. No mesmo mesmo dia 5, a Lua Cheia nasceu às 20h30, 90 minutos antes do pôr-do-sol, e brilhou a noite toda. Eram 1h15 da madrugada do dia 6 de junho quando os primeiros paraquedistas tocaram o solo perto do litoral. Às 5h50, no início do amanhecer, os navios de guerra começaram a bombardear alvos nazistas estacionados na costa da Normandia.
Pouco depois, com os obstáculos expostos pela maré seca, os especialistas em demolição entraram em cena para destruir as defesas e abrir caminho para as pequenas embarcações levando tanques e infantaria. Mas eles tiveram pouco tempo. A maré começou a subir rapidamente (30 centímetros a cada dez minutos), e apenas cinco “vias” foram liberadas. Em seguida, ondas de soldados levados até a costa tiveram que cair no mar e andar com água até o pescoço para chegar à praia, sob fogo pesado.
Houve 4400 mortes confirmadas entre os aliados, além de 5800 soldados feridos ou desaparecidos só no “Dia D”. A praia de Omaha foi o cenário do maior número de vidas perdidas, com 2500 americanos abatidos em combate. Entre os alemães, estima-se em algo entre 4 mil e 9 mil mortos.
