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‘A minha geração vive a plenitude’

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agosto 10, 2025
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Trilha sonora: Marcelo e sua gaita, durante a sessão de fotos. Ao lado, diferentes momentos dos dois filhos — Foto: Pedro Dimitrow e arquivo pessoal

Ao completar 50 anos, em 2009, Marcelo Rubens Paiva julgava ser capaz de prever o que o destino lhe reservava. “Minha vida se resumiria a um hedonismo até o fim dos tempos: beber, fumar, frequentar bares e teatros da Praça Roosevelt e da Rua Augusta”, escreve, no recém-lançado livro, “O novo agora” (Alfaguara). Vieram, então, um segundo casamento, dois filhos e uma separação. Tudo isso com uma pandemia no meio e um presidente que elegeu o escritor e sua família como arqui-inimigos. “Viver é perigoso, já dizia Guimarães Rosa”, ironiza ele, por chamada de vídeo, de sua casa, em São Paulo.

Perigoso e surpreendente, como mostram os relatos íntimos e confessionais nas 271 páginas que se debruçam sobre a criação de Joaquim, de 11 anos, e Sebastião, de 9 (carinhosamente chamados de Loirinho e Moreno), seus dois filhos com a filósofa Silvia Feola. Histórias costuradas com anedotas e memórias de familiares, como os pais do autor, o ex-deputado Rubens Paiva, assassinado pela ditadura militar, em 1971, e a advogada Eunice, que pouco pôde conviver com os filhos de Marcelo, devido ao avanço do Alzheimer até a sua a morte, em 2018.

Trilha sonora: Marcelo e sua gaita, durante a sessão de fotos. Ao lado, diferentes momentos dos dois filhos — Foto: Pedro Dimitrow e arquivo pessoal

Aos 66 anos, o escritor reconhece o quanto a própria criação impactou na maneira como exerce a paternidade, mas afirma que o livro parte de uma conclusão: “Descobri que não existe um manual. Você demora a perceber, mas vai ser pai do seu jeito, e o seu filho vai ser filho do jeito dele”. E é por isso que expõe tanto as vulnerabilidades, do ranço machista às inseguranças diante da separação, quanto a vontade de encará-las de frente. Afinal, como também escreveu Guimarães Rosa sobre a vida: “O que ela quer da gente é coragem”.

Conteúdo:

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  • O GLOBO – A forma como foi educado pelos seus pais influencia em como exerce a paternidade?
  • E como foi experimentar isso depois dos 50? Ainda tratam como tabu?
  • Mudou os hábitos nesse aspecto, então?
  • Experimentou a paternidade justamente quando o Brasil começou a vivenciar um aumento do conservadorismo. Uma coisa impacta a outra?
  • A sua família recebe muitos ataques de ódio, inclusive por parte do ex-presidente Jair Bolsonaro. Isso chega até as crianças?
  • Os ataques aumentaram com o sucesso do filme “Ainda estou aqui”?
  • No livro, menciona uma expectativa de que seus filhos sofram bullying pelo fato de você ser cadeirante. Já aconteceu?
  • Tem a ver com a máxima de não se vitimizar defendida pela sua mãe, como acontece na cena do filme em que Eunice pede que todos sorriam na foto para a revista?
  • Também aborda, no livro, a separação entre você e a ex-mulher. Como foi?
  • Que tipo de cuidado tomaram para não os afetar tanto?
  • Ao falar sobre o assunto, reconhece comportamentos machistas. Como lida com isso?
  • Você, inclusive, já alterou algumas obras suas nesse aspecto.
  • Já disse ser um homem sensível e reconheceu ter passado por uma depressão com o fim do casamento. Como lida, então, com as angústias e as frustrações?
  • Falando nisso, como tem se preparado para o período eleitoral, no ano que vem?
      • ‘A minha geração vive a plenitude’

O GLOBO – A forma como foi educado pelos seus pais influencia em como exerce a paternidade?

MARCELO RUBENS PAIVA – Quando você vira pai, imediatamente se apega à maneira como foi criado. E eu me lembro de que meu pai nunca me bateu. Por isso, faço um esforço danado para defender essa causa. Não é preciso dar aquele tapinha numa criança. Não acho isso inocente. Acho até bem traumático. Mas descobri que não existe manual. Um filho nasce completamente diferente do outro. É um aprendizado que você demora a perceber, mas vai ser pai do seu jeito, e o filho vai ser filho do jeito dele.

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E como foi experimentar isso depois dos 50? Ainda tratam como tabu?

Tudo é tabu, né? A sexualidade das mulheres na menopausa, do homem de 60 anos… Isso é patético! A minha geração vive, aos 60, a sexualidade em sua plenitude, tanto as minhas amigas quanto os meus amigos. Você vê os homens grisalhos andando de bike pela cidade, indo à praia, surfando, velejando e querendo ter filhos. Fui pai com essa idade porque tinha amigos com 50 anos fazendo o mesmo, amando a experiência e me incentivando. Ter pequenas vidas atravessando você, exigindo atenção, mostrando outros pontos de vista é muito importante. Aos 66 anos e sem filhos, a minha vida boêmia, uma hora, iria se esgotar.

Chapéu acervo pessoal, jaqueta e camisa Renner — Foto: Pedro Dimitrow
Chapéu acervo pessoal, jaqueta e camisa Renner — Foto: Pedro Dimitrow

Mudou os hábitos nesse aspecto, então?

Ficou no passado. Sigo horários infantis. Acordo, durmo, almoço e janto cedo. O corpo acaba se disciplinando à vida saudável de uma criança. Não tenho mais aquela coisa de passar a noite no bar. Também não sinto falta.

Experimentou a paternidade justamente quando o Brasil começou a vivenciar um aumento do conservadorismo. Uma coisa impacta a outra?

Essa onda está nas escolas e, de repente, você vê os filhos, às vezes, reproduzindo lemas conservadores. Temos que chamar a atenção e ficar atentos. Já peguei livro infantil glorificando Elon Musk como um grande cientista. Então, é preciso mostrar aos filhos o outro lado de uma pessoa como essa. Também tem os influencers e youtubers que dizem muitas besteiras. Meus filhos gostavam do Leo Lins (humorista condenado a oito anos e três meses de prisão pela propagação de discursos considerados discriminatórios), de ouvir falar e tal. Precisamos ensinar e mostrar que algumas regras de respeito ao outro são fundamentais. Racismo, não. Machismo, não. Homofobia, não.

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A sua família recebe muitos ataques de ódio, inclusive por parte do ex-presidente Jair Bolsonaro. Isso chega até as crianças?

No dia em que fui agredido (um homem atirou cerveja e uma mochila contra Marcelo, num bloco de carnaval em São Paulo, no começo deste ano), eles ficaram muito assustados. Às vezes, liam coisas ou os amiguinhos contavam. Tanto que saí do Twitter (X) e fiquei só no Instagram, mesmo assim, sem debater política. A minha família já tinha me alertado sobre isso, e comecei a me preservar mais. Até porque sou um cara que anda de metrô e ônibus.

Os ataques aumentaram com o sucesso do filme “Ainda estou aqui”?

Não, pelo contrário. Acho que os “patriotas” foram seduzidos pelo Oscar. Alguns até torceram.

Em sentido horário: Com os filhos no Consulado Geral da Itália em São Paulo; Joaquim (com o escritor Daniel Munduruku e sozinho); e Sebastião com o padre Júlio Lancellotti. No centro: detalhe de parede com as alturas dos meninos, no apartamento do pai — Foto: Pedro Dimitrow e arquivo pessoal
Em sentido horário: Com os filhos no Consulado Geral da Itália em São Paulo; Joaquim (com o escritor Daniel Munduruku e sozinho); e Sebastião com o padre Júlio Lancellotti. No centro: detalhe de parede com as alturas dos meninos, no apartamento do pai — Foto: Pedro Dimitrow e arquivo pessoal

No livro, menciona uma expectativa de que seus filhos sofram bullying pelo fato de você ser cadeirante. Já aconteceu?

Não. As gerações mais novas estão mais habituadas a respeitar as diferenças. Aconteceu com os meus sobrinhos, há mais de 20 anos. Mas não posso ficar me sentindo culpado por ser deficiente. Eles lidam muito bem com isso, desde pequenininhos. Sempre me ajudam, não tiram sarro, resolvem problemas.

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Tem a ver com a máxima de não se vitimizar defendida pela sua mãe, como acontece na cena do filme em que Eunice pede que todos sorriam na foto para a revista?

Eu nunca me vitimizei como deficiente. De fato, agradeço à minha mãe por ter criado essa ética na família e que hoje transpassa ao Brasil com o filme, visto também no mundo inteiro, exatamente por conta desta característica dela de ser uma pessoa muito ligada à justiça social.

Marcelo acaba de lançar livro "O novo agora", em que relata experiências como pai — Foto: Pedro Dimitrow
Marcelo acaba de lançar livro “O novo agora”, em que relata experiências como pai — Foto: Pedro Dimitrow

Também aborda, no livro, a separação entre você e a ex-mulher. Como foi?

Um pouco traumático, porque eram crianças muito pequenas e, logo depois, veio a pandemia. Um momento errado para se separar, com a minha mãe morrendo, tudo muito difícil. Mas não existe culpado. Estamos superbem, as crianças têm duas casas e quase todos os amiguinhos deles têm pais separados.

Que tipo de cuidado tomaram para não os afetar tanto?

A transparência e o diálogo. Nos damos bem e conversamos muito com eles.

Ao falar sobre o assunto, reconhece comportamentos machistas. Como lida com isso?

A minha geração é muito machista. Tentamos nos corrigir, nos reeducar. Nascemos num mundo completamente injusto para as mulheres. Minha mãe só começou a trabalhar quando ficou viúva, por exemplo. Eram mulheres que tinham que ser do lar. Você olhava para o Congresso, e não havia deputadas, assim como não se via mulheres na Academia Brasileira de Letras ou pilotas de avião. Eu me transformo. Mas, mesmo assim, me vejo, às vezes, reproduzindo atitudes bem machistas. Estamos, finalmente, sendo letrados. É muito importante chamarem a nossa atenção. Também leio muito e me informo. Censurar seus amigos, ser censurado e conviver com jovens ajuda bastante.

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Você, inclusive, já alterou algumas obras suas nesse aspecto.

Tenho essa chance de corrigir, né? Mas tem coisas que acabam passando. Por outro lado, preciso mostrar que o Marcelo com 20 anos era um cara muito sexualizado, numa época em que as mulheres eram objetificadas. E a minha geração viveu a revolução sexual. Todo mundo era poliamor, e o “Feliz ano velho” (1982) é um retrato dessa época. Muita droga, Dancin’ Days e movimento punk. Tudo misturado. Éramos todos pansexuais.

Na faculdade, no final dos anos 1970 e começo dos 1980, todo mundo se beijava na boca. Homem com homem, mulher com mulher. Eu detestava beijar meus amigos na boca porque não gostava da barba. Quanto às drogas, fiquei na maconha. Sempre tive medo das mais pesadas. Nem daime tomei. A maconha me fazia bem como deficiente físico. Era importante para abrir meu apetite, para as dores, para dormir e relaxar. Fiz uso medicinal sem saber. Hoje em dia, nem canabidiol uso.

De cima para baixo: Detalhe de nome escrito pelo próprio filho; Marcelo nos bastidores do ensaio de capa; e na companhia de Joaquim e Sebastião — Foto: Pedro Dimitrow e arquivo pessoal
De cima para baixo: Detalhe de nome escrito pelo próprio filho; Marcelo nos bastidores do ensaio de capa; e na companhia de Joaquim e Sebastião — Foto: Pedro Dimitrow e arquivo pessoal

Já disse ser um homem sensível e reconheceu ter passado por uma depressão com o fim do casamento. Como lida, então, com as angústias e as frustrações?

Fazendo terapia (risos). Mas os filhos me deixam muito feliz. Ter esses moleques comigo é uma bênção. Talvez, consiga viver muitos anos ainda com eles, como uma grande brodagem. Mas é complicado. O mundo está muito deprimido e deprimente.

Falando nisso, como tem se preparado para o período eleitoral, no ano que vem?

A urgência é a democracia vencer o fascismo. Vou lutar com todas as armas para que a extrema-direita não volte.

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