Está todo mundo atrás da sua “melhor versão”. É o que recomendam coaches, influenciadores e o pipoqueiro da esquina. No trabalho, nos relacionamentos e, claro, no espelho da academia. Tem que fazer bonito, dar o seu melhor e, principalmente, estar em forma e bem-vestido.
Pode parecer loucura para a garotada de hoje, mas no século passado existiam poucos tipos de roupa: as de festa, as de sair, as de ficar em casa, que eram os moletons sem forma, as camisetas que tinham virado películas de algodão de tão usadas, as calças que andavam sozinhas de tão antigas.
No fim da linha vinha a roupa de fazer ginástica (preciso explicar para a garotada que antes do treino veio a malhação, e antes da malhação, a ginástica): a camiseta furada, o short desbotado, as meias mais esbeiçadas da gaveta e o tênis que um dia foi branco ou colorido, mas acabou cinza e encardido feito uma ratazana.
Sou nostálgico: ainda considero que essa é a melhor versão para atividades físicas. Aquele figurino que, se estivesse num concurso de fantasias dos anos oitenta, seria chamado de “Esplendor e glória do desleixo”.
Pois descobri uma novidade: agora tem fotógrafos registrando qualquer treino, malhação ou ginástica na cidade. Tipo um personal paparazzo. Sim, leitores, o Rio virou um imenso reality show, uma mistura de Caras e BBB. Os fotógrafos ficam parados na Lagoa, na orla, no Aterro, onde houver alguém correndo. A pessoa passa, eles clicam, postam num site e basta ao atleta ir lá pagar para baixar a sua melhor versão, pronta para ser divulgada.
Pode parecer um surto de vaidade, uma epidemia de narcisismo, mas, segundo muitos amigos, funciona: você joga a foto nas suas redes sociais, ouve um monte de elogios e no dia seguinte volta, feliz, para correr mais. Mal não faz, pelo contrário. E os fotógrafos são espertos: tem o que fica no ponto exato para enquadrar o Cristo ao fundo, tem o que joga uma água na pista para criar reflexos, tem o que transforma qualquer atleta em modelo. Vale a pena, dizem. Sem querer defender o meu ofício, uma boa foto faz maravilhas.
Porém outros amigos reclamam da falta de privacidade: não dá mais para circular anônimo sendo clicado por toda a cidade, avisam. Já tem personal paparazzo no Maracanã, em shows, em eventos. “E se eu quiser ficar na minha, sem aparecer?”, perguntam.
Como é que fica?
Fui correr na Lagoa para conferir a situação. Correr, no meu caso, é força de expressão. Já tinha na ponta da língua o pedido de “sem fotos, por favor” para garantir o meu anonimato. Será que vai soar arrogante demais? Quem sabe solto um “em outro momento, please”? Pior, né? Enquanto meditava sobre a minha empáfia, passei pelo primeiro fotógrafo. Ele me ignorou. Hummm. O segundo olhou para o lado. Opa. O terceiro até me olhou, mas com certa pena. Fez uma cara de “as coisas ainda vão melhorar para você”.
Foi então que me dei conta de que a minha roupa de ginástica destoava dos outros corredores, todos bem-vestidos. Eles caprichando na melhor versão e eu de camiseta puída, short furado e tênis pedindo arrego. Os fotógrafos, ligados nas aparências, consideraram que não valia a pena o esforço.
Alguém com mais autoestima teria corrido ao shopping mais próximo para renovar o guarda-roupa e garantir seu lugar entre os atletas fotogênicos. Pois eu não. Gênio que sou, descobri o segredo do anonimato no Rio de Janeiro: a minha pior versão.
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