Zacarias era o “trapalhão” preferido de muitos fãs do inesquecível quarteto formado também por Didi, Dedé e Mussum. Quando Mauro Faccio Gonçalves, o ator por trás do personagem, morreu, no dia 18 de março de 1990, há 35 anos, o Brasil recebeu a notícia como um baque. Algo em torno de 30 mil pessoas participaram do cortejo fúnebre em Sete Lagoas, Minas Gerais, terra natal do humorista.
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“A gente estava esperando por ele para gravar. É como se eu tivesse perdido o meu filho caçula. Só quem passou por isso sabe o que estou sentindo”, disse Renato Aragão, o Didi, lamentando a perda repentina do colega, falecido aos 56 anos, depois de oito dias internado na Clínica São Vicente, no Rio. “As crianças se identificavam muito com ele porque o Zacarias era a própria criança”.
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Lamentável, ele era um dos mais interessantes do grupo. A criançada gostava demais do Zacarias. Ele fazia o tipo ingênuo, meio ignorante. Posso dizer que dos quatro era o melhor, muito intuitivo, um cara gozado, que não imitava ninguém”, descreveu a humorista Dercy Gonçalves. O céu deve estar mais engraçado agora, Zacarias está divertindo todo mundo lá em cima”, lamentou Agildo Ribeiro.
Mauro Faccio Gonçalves veio ao mundo ator. Filho de uma família do teatro, com um mês de nascido já estava lá, em cima do palco, no colo de um “colega” durante uma peça amadora em Sete Lagoas. Já na juventude, ele bem que tentou fazer papéis dramáticos. Arriscou-se até mesmo em um monólogo, mas, em vez de chorar, o público ria nas cenas que deveriam ser as mais tristes.
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O mineiro chegou a estudar Arquitetura e trabalhou como bancário em Belo Horizonte, mas a vocação era mesmo a comédia. Depois de ganhar certa projeção em rádios e TVs de seu estado, o artista se mudou para o Rio em 1963, a convite do empresário e apresentador Manuel da Nóbrega. Ao longo daquela década, atuou em programas como “Praça da Alegria” e “Café sem concerto”.
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Em 1974, o ator foi chamado por Renato Aragão para Os Trapalhões. Numa entrevista ao GLOBO publicada em dezembro de 1987, Mauro contou que criou o Zacarias inspirado em um vendedor de frutas de Sete Lagoas. O jeito tímido e infantil do personagem caiu nas graças do povo, que amava a risada inconfundível e dava gargalhadas ao ver seu desespero quando alguém tirava-lhe peruca.
“Eu, Didi, Dedé e Mussum somos todos crianças”, disse o comediante na mesma entrevista de 1987. “Tudo o que conseguimos devemos às crianças e, para elas, pedimos respeito e muito carinho”.
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Sua morte foi recebida com enorme surpresa. No fim de 1989, o artista havia adotado uma dieta para emagrecer sem o devido acompanhamento médico e acabou perdendo quase 20kg. Então, começou a apresentar sintomas de estresse e fraqueza. A situação se agravou em janeiro, quando o humorista passou a ter problemas respiratórios e foi internado. Ele faleceu devido a uma infecção pulmonar.
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Boatos diziam que Mauro Faccio morrera por complicações geradas pelo vírus HIV, mas isso nunca foi confirmado. O assunto voltou ano passado, quando, durante o show da cantora Madonna na Praia de Copacabana, no Rio, o rosto de Zacarias foi projetado no telão, em um tributo a pessoas mortas com Aids. O jornalista Rafael Spaca está dirigindo um documentário sobre Os Trapalhões que deve abordar esse e outros temas relacionados ao quarteto, mas o filme ainda não tem data de estreia.
No dia do enterro do ator, várias escolas de Sete Lagoas ficaram fechadas. Muitos alunos se juntaram à multidão que se despediu de Bidu, como ele era chamado na cidade. Sua mãe, Virginia Gonçalves, presente no cemitério com os outros dez filhos, passou mal. E um grupo de escoteiros mirins cantou o hino da organização para homenagear o humorista, que tinha sido um membro na infância.
Renato, Manfried Sant’Anna, o Dedé, e Antonio Carlos Bernardes, o Mussum, também participaram do velório. Filas enormes se formaram diante deles para dar pêsames, mas muita gente pediu autógrafos e quis tirar fotos. Bernardes lamentou dizendo que as pessoas confundiam o personagem com o ser humano. “O preço do palhaço é não poder ficar triste. Ninguém entende”, disse ele.
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