Antes da convocação, Thiago estava muito emocionado, sensível com tudo. Trouxemos a mãe dele de surpresa para Londres, onde moramos, para viver esse momento. Foram dias intensos, mal o via em casa. Ficava no quarto concentrado, dizendo: “Tá tudo bem, só preciso me acalmar”. É a realização da vida dele, vestir a camisa da seleção e disputar uma Copa do Mundo. Thiago é muito sensível. Estava ali chorando, ansioso. Antes de falarem o nome dele, fechou o olho: “Ai meu Deus”. Thiago fora da nossa casa é forte, derruba qualquer coisa. Mas dentro da nossa casa se sente seguro de demonstrar essa sensibilidade. Em cada comemoração de gol, expressa o brado de vitória. Cada gol, cada jogo, é aquele menino lá dentro gritando para ele mesmo: “Eu consegui, eu superei”. Thiago pode ser definido por isso: nunca vai normalizar o que não é normal.
Cheguei na vida dele com o Cruzeiro indo para a Série B (2020), ele sofrendo muito com as críticas. Teve um início de depressão, começou a se tratar com psicólogo. Em 2021, nasceu nosso primeiro filho e foi uma reviravolta. Javi nasceu no dia do aniversário do Thiago, 26 de junho. Ele se desfez daquele menino e se tornou o homem que é hoje a partir da paternidade. E acredito que se encontrou nela por ter perdido o pai muito cedo, aos 13 anos, com problemas de saúde. Eu o vejo a todo momento lutando para ser um pai presente, apesar da rotina cansativa. Faz questão de estar com as crianças, deixa o telefone de lado. A gente tem uma lei. Toda vez que chega, tem que ficar com as crianças, tudo é a gente, a gente vive a realidade: não tem babá, cozinheira. É uma família comum, que tenta aperfeiçoar os laços. A paternidade salvou o Thiago da depressão.
Esse momento da depressão foi na época em que a gente não morava junto, em Belo Horizonte. Era um menino de 18 anos sofrendo pressão num time profissional, lidando com críticas. Me lembro quando ele pensou em bater com o carro. Me ligou, começou a chorar muito. Foi até a minha casa e falou que estava muito difícil, pesado. Que estava pensando em tirar a própria vida. Thiago estava realmente perdido, pedindo socorro, e entrou com psicólogo. Com o nascimento do Javi, ele deu uma virada de chave até em relação ao luto do pai, pelo qual sofre até hoje. Acho que é uma dor que Thiago nunca vai superar. Quando acontecem momentos marcantes, ele para, chora e fala: “Só queria que meu pai estivesse aqui para viver isso comigo”. Tudo que Thiago é hoje tem muito a ver com quem o pai foi na vida dele.
Quando Thiago perdeu o pai, a mãe dele abraçou tudo. Minha sogra criou três meninos sozinha. Além do treino, Thiago trabalhava literalmente com o que aparecesse: servente de pedreiro, confeiteiro, até carregador de compras das senhoras na feira. Por ter perdido o pai muito cedo, ele sabe dar valor a cada vida que está ao seu redor. Seja a mãe, seja o irmão, seja eu, nossos dois filhos. A principal característica dele é ser protetor. Assim como o pai dele era apaixonado pela minha sogra, Thiago traz essa intensidade para o nosso casamento, de valorizar, de estar junto. É muito romântico, dá flores. Não passa um dia sem me elogiar. Sabe valorizar o amor, o sentimento. Ele traz muito do que a mãe passou, do que o pai significou para a família dele. O luto precisa ser vivenciado, e Thiago não conseguiu fazer isso. Quando o pai morreu, pessoas próximas falavam: “Você precisa virar homem e crescer, seu pai morreu e não vai voltar, você precisa fazer alguma coisa para ajudar sua família”. E talvez não fosse a hora de virar esse homem. Foi muito difícil para ele.
A característica maior do Thiago como pai é o instinto de herói. As crianças falam: “Meu papai está aqui, não preciso ter medo”. Eles têm uma admiração muito grande pelo pai, de vê-lo em campo. “Esse aqui é o meu papai, meu papai é jogador”. Têm orgulho de ter um pai como ele. Thiago é um menino que tem uma história de vida muito linda, que chegou o tempo de o Brasil conhecer. Toda vez que a gente o vê em campo, sabendo desse lado da história dele, é uma emoção. Quando faz um gol, Thiago dá a vida para comemorar. No pênalti que converteu na partida antes da convocação (Brasil 5 x 1 Panamá), vibrou muito porque era um grito de: “Consegui”. Aquele menino lá atrás olhando para ele hoje e falando: “Não desistimos e conseguimos”.
Mas Thiago tem um lado um pouco fechado. De chegar e ficar observando, olhando. Isso tem a ver com a história de vida, da família. Teve muita humilhação. Então, ele demora a confiar nas pessoas. Quando chega em um ambiente em que não conhece todo mundo, não vai se abrir. Passa por tímido. É um meio de defesa, para não se machucar como já se machucou várias vezes. Vai observar até ver que: “beleza, posso ser eu”. E quando se abre, Thiago é um cara totalmente brincalhão, alegre, espontâneo.
A capacidade de se abrir tem muito a ver com a terapia, algo que era muito distante para ele, porque veio de um lugar que, de certa forma, não se atentava a isso, não dava muito valor aos sentimentos. E isso o abalou. Ele falava: “Não preciso disso, vou conversar, vou fazer o quê? Vou conversar com você”. Thiago falava comigo e achava que estava bem. Abri a mente dele para começar a terapia, e ele gostou. Nossa psicóloga, Ana, foi um divisor na nossa vida. Muita coisa que ele tinha de mágoas com as pessoas, a forma como ele as tratava, sempre desconfiado, aquela barreira que ele tinha criado para poder proteger a gente da humilhação ou da vergonha que ele passou, que era um gatilho para ele… Ana foi desmontando aquele coração. Hoje, Thiago ressignifica tudo isso.
*Em depoimento ao repórter Diogo Dantas

