Os cariocas vivenciam mais uma série de dificuldades e sacrifícios para utilizar os ônibus da cidade nesta terça-feira, em razão da greve dos rodoviários, iniciada no dia anterior. Está sendo realizada uma audiência de conciliação no Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região (TRT-1). Uma assembleia da categoria ocorrerá em seguida. Desde o início da manhã, usuários enfrentam ônibus superlotados, filas de no mínimo uma hora de espera e correria para não perder o transporte que chega com atraso. Passageiros relatam redução dos coletivos, com linhas que costumavam ter mais de cinco veículos os rodando em dias normais, hoje contavam apenas com um na frota. O Rio Ônibus informou que há 1.400 ônibus circulando – o mínimo previsto era de 1.800, o que correspondente a 50% da frota.
Paralisação: Passageiros enfrentam falta de ônibus e pontos lotados em segundo dia de greve dos rodoviários no Rio
Disputa de poder: Alerj fecha semestre turbulento votando vetos e homenagens de olho nas eleições
Nas primeiras horas da manhã, o Terminal Gentileza chegou a ter oito grandes filas para linhas de ônibus. Só para o ônibus 606 e SV606, eram três ao mesmo tempo. E os que aguardavam pelo 160 – Leblon se depararam com quatro filas.
Os ônibus que chegavam já saíam superlotados. Mal os passageiros embarcavam, novas filas se formavam.
— Não posso ficar esse tempo todo em pé, meu joelho começa a doer – conta uma passageira que desistiu de aguardar pelo transporte na fila do ônibus da linha 160 – Leblon, e se sentou em um banco próximo. Ela preferiu não se identificar.
Passageiros sofrem com atraso de ônibus durante greve de motoristas no Rio
Fabiano Rocha / Agência O Globo
Em alguns pontos da Avenida Brasil, no sentido Centro, os passageiros amargaram esperas de 50 minutos por um coletivo, tempo que costuma ser de 20 minutos. O problema se repetia em São Cristóvão, próximo à estação de trem.
— Tem espaço lá atrás, gente. Se a porta quebrar, vai descer todo mundo, e já não tem ônibus hoje — gritou um homem que tentou entrar no coletivo, mas não conseguiu pela falta de espaço. — O ruim é isso aí: a pessoa é humilhada e amassada. A pessoa vai amassada desse jeito? — No vídeo gravado pela equipe do GLOBO, é possível ver um passageiro ficando preso entre as portas do coletivo.
Do Leme à Prainha: Rio lança Dia da Praia inédito no mundo e faz mutirão gigante com limpeza em 60 pontos da orla
“A pessoa é amassada e humilhada”, diz passageiro ao tentar entrar em ônibus lotado
Preços nas alturas nos aplicativos
No Centro, Dalcir Theodoro chegou a se sentar nos degraus da escadaria da estação do metrô, enquanto esperava um ônibus para a Freguesia. Ele saiu de casa às 4h30 para ir ao trabalho e, às 8h32, ainda estava na rua. Segundo o assistente administrativo, a terça-feira está pior que o primeiro dia da paralisação.
— Ontem já paguei o dobro do valor normal para chegar ao trabalho, hoje não posso mais — contou ao se levantar para “esticar as pernas”.
O problema era pior para quem dependia de dois coletivos para se locomover. Foi o caso das amigas Mayisa de Barros, de 23 anos, e Myllena Ferreira, de 21. Elas estavam num ponto de ônibus na Avenida Presidente Vargas após terem descido de um coletivo da linha 371, Praça Seca, que estava superlotado.
— Veio muito lotado, com uma pessoa em cima da outra praticamente. Até roubaram o celular de uma moça, pegaram o aparelho da bolsa dela e ela nem sentiu. O ônibus lotado demais, né? — lamentou Mayisa.
Na espera por outro coletivo, o da linha 457, as amigas, que trabalham no mesmo local em Copacabana, na Zona Sul, decidiram dividir um carro por aplicativo que estava com valor inflacionado. Normalmente, a corrida daquele ponto até Copacabana custa R$ 35,00 e, hoje, estava R$ 70.
Passageiros embarcam no ônibus lotado no ponto em São Cristóvão
Márcia Foletto / Agência O Globo
Orientação da prefeitura
O Centro de Operações de Resiliência (COR), da prefeitura, orienta a população para dar preferência ao deslocamento por metrô, trens e barcas, serviços que operam normalmente.
O Rio Ônibus informou que há 1.400 ônibus circulando — o mínimo previsto era de 1.800, que corresponde a 50% da frota. Segundo o sindicato, esse número representa mais do que o dobro em relação ao mesmo horário desta segunda-feira. Durante a madrugada não houve novos registros de vandalismo, como foi registrado na segunda-feira, com danos aos veículos.
Ainda conforme o Rio Ônibus, os consórcios reforçam o apelo para que todos os motoristas e rodoviários compareçam às garagens, cumprindo a decisão judicial que determina a operação de pelo menos 50% da frota.
Reforço nos trens e no metrô
A TrensRJ informou que preparou uma operação especial com reforço na oferta de viagens em todo o sistema nesta terça-feira, em função da greve. Segundo a concessionária, ao longo do dia, serão disponibilizadas 30 viagens extras além da grade convencional, com redução dos intervalos entre trens nos horários de maior demanda.
A operação conta ainda com reforço das equipes de estações, segurança, manutenção e monitoramento operacional, com atuação dedicada para orientação e suporte aos clientes durante todo o período de maior fluxo. A TrensRJ afirmou que monitora a movimentação nas estações em tempo real e pode realizar ajustes operacionais adicionais, caso necessário, para garantir maior fluidez e segurança na operação.
Veja como está a circulação nos ramais:
Ramal Japeri – intervalo médio de 8 minutos
Ramal Santa Cruz – intervalo médio de 9 minutos
Ramal Deodoro – intervalo médio de 8 minutos
Ramal Saracuruna – Gramacho x Central do Brasil com intervalo médio de 12 minutos; Saracuruna x Gramacho com intervalo médio de 30 minutos
Ramal Belford Roxo – intervalo médio de 15 minutos
O MetrôRio informou que segue com a operação reforçada nesta terça-feira.
BRT
A MOBI-Rio informou que nesta terça-feira, às 6h, o sistema BRT registrou um aumento de 26% da frota em sua operação em comparação à segunda-feira. Segundo a companhia, nos horários de pico de segunda-feira a frota atingiu 68% do plano operacional previsto. Segundo a Mobi-Rio, dos 541 articulados que costumam circular neste horário, há 361 nas ruas. Esse número representa 67% da operação programada.
Audiência pode definir rumos da greve
A principal expectativa para esta terça-feira é a audiência de mediação entre o Sindicato dos Rodoviários e o Rio Ônibus. Após a reunião, o Sindicato dos Rodoviários fará uma assembleia da categoria, em frente ao tribunal. A expectativa é que as negociações resultem em uma proposta de acordo que possa encerrar a greve.
O presidente do Sindicato dos Rodoviários, Sebastião José, afirmou, na segunda-feira, que a categoria manterá a paralisação até a realização da audiência.
— Esperamos sinceramente que o TRT já defina essa situação para que os usuários não continuem sendo prejudicados. O fato de a Justiça considerar a legalidade da greve é de grande importância e uma grande vitória para a categoria, pois reconhece as dificuldades que os trabalhadores do setor vêm sofrendo durante todos esses anos, com salários defasados, terminais sem banheiros e bebedouros e com o aumento da violência.
O dirigente também disse que, até o momento, o sindicato não recebeu retorno das empresas sobre as reivindicações apresentadas.
Os rodoviários reivindicam piso salarial de R$ 4 mil para motoristas de ônibus convencionais, R$ 5 mil para condutores de ônibus articulados, aumento no vale-alimentação e adoção da jornada de trabalho na escala 5×2.
No sábado, o TRT-1 reconheceu a legalidade da greve e negou o pedido do Rio Ônibus para declarar a paralisação ilegal. A desembargadora Maria Helena Motta determinou que pelo menos 50% da frota de cada linha permaneça em circulação e fixou multa de R$ 50 mil para ambos os sindicatos em caso de descumprimento da decisão.
A magistrada também proibiu as empresas de contratar motoristas temporários para enfraquecer o movimento e de demitir funcionários que aderirem à greve. O pedido para impedir descontos salariais será analisado posteriormente.
— O direito de greve é garantia constitucional de extrema relevância, contudo deve coexistir harmoniosamente com a continuidade das atividades essenciais indispensáveis ao atendimento das necessidades da comunidade. O transporte público urbano funciona como um serviço de suporte básico e sua interrupção integral inviabilizaria o deslocamento dos cidadãos e comprometeria o funcionamento de outros setores vitais, tais como hospitais, escolas e serviços de segurança pública (…) A extensão geográfica e a densidade demográfica do Município do Rio de Janeiro exigem um patamar de contingência superior (aos 30%) para evitar o colapso completo da mobilidade urbana — afirmou a desembargadora.
*Estagiária sob supervisão de Leila Youssef
Initial plugin text
P

