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A Praça Onze que o Rio destruiu foi de Tia Ciata, do samba e da religiosidade

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novembro 21, 2025
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Hilária Batista de Almeida, a Tia Ciata: sua casa foi um dos imóveis colocado abaixo na Praça Onze, no passado — Foto: Reprodução

Com fortes dores na perna e sem diagnóstico mesmo após consultar os principais médicos do Rio de Janeiro, o então presidente da República Venceslau Brás recorreu, no início do século XX, a uma figura decisiva da Praça Onze: Tia Ciata. Mãe de santo respeitada e líder comunitária, ela consultou os búzios, preparou remédios com ervas naturais e, dias depois, a ferida do presidente estava cicatrizada. O episódio deu início a uma relação de amizade improvável entre o sisudo chefe de Estado e a mulher reverenciada por sambistas e moradores da região.

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Nos fundos da casa de Tia Ciata, o samba prosperava. Em uma época em que o ritmo era alvo de repressão, a mãe de santo usava sua influência, inclusive junto à polícia, para proteger músicos e permitir que se reunissem. Ali se consolidaram os traços do gênero que marcaria a identidade carioca. A Praça Onze, então habitada por ex-escravizados e judeus, tornou-se palco central dessa transformação cultural.

Hilária Batista de Almeida, a Tia Ciata: sua casa foi um dos imóveis colocado abaixo na Praça Onze, no passado — Foto: Reprodução

A modernização da cidade, porém, mudaria o cenário. Ao longo do século XX, sucessivas gestões públicas demoliram casas e apagaram boa parte da antiga Praça Onze, incluindo a residência de Hilária Batista de Almeida, a Tia Ciata. Hoje, resta apenas um fragmento simbólico: o espaço onde está o monumento a Zumbi dos Palmares. A escolha do local não é casual, é um aceno à memória de resistência que ali floresceu.

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  • Zumbi: símbolo da resistência ergue-se no Centro do Rio
  • Príncipe dos Alufás: a prisão que expôs a perseguição religiosa na Praça Onze
      • A Praça Onze que o Rio destruiu foi de Tia Ciata, do samba e da religiosidade

Zumbi: símbolo da resistência ergue-se no Centro do Rio

Fruto de décadas de mobilização de movimentos sociais, especialmente do movimento negro, o busto em homenagem a Zumbi dos Palmares foi inaugurado em 1986 em um dos pontos mais simbólicos da luta contra a escravidão no Rio de Janeiro. Com sete metros de altura, a escultura não busca retratar o rosto do líder, cuja fisionomia original é desconhecida, mas sim reproduz uma máscara iorubá de Ifé, referência direta às matrizes africanas que moldaram a história do país.

Celebrações pelo Dia da Consciência Negra em volta do busto de Zumbi dos Palmares na Avenida Presidente Vargas — Foto: Custodio Coimbra / Agência O Globo
Celebrações pelo Dia da Consciência Negra em volta do busto de Zumbi dos Palmares na Avenida Presidente Vargas — Foto: Custodio Coimbra / Agência O Globo

A inauguração ocorreu em clima de celebração, reconhecendo Zumbi como símbolo máximo da resistência negra. Líder do Quilombo dos Palmares, localizado onde hoje é Alagoas, Zumbi foi capturado após ser traído por um aliado. Preso, torturado e morto em 20 de novembro de 1695, teve a cabeça decepada e exposta no Pátio do Carmo, em Recife, numa tentativa de desmobilizar a luta quilombola.

Príncipe dos Alufás: a prisão que expôs a perseguição religiosa na Praça Onze

No coração da antiga Praça Onze, berço do samba e da cultura negra carioca, um episódio de 1927 evidenciou a repressão sistemática a espíritas, candomblecistas e curandeiros no início do século XX. Henrique Assumano, conhecido como Príncipe dos Alufás, líder espiritual respeitado por negros, pobres e também por membros da elite, foi detido enquanto atendia uma cliente em sua própria residência.

Assumano era figura influente. Recebia músicos como Sinhô e intelectuais como José do Patrocínio, não cobrava pelas consultas e mantinha no sobrado da antiga Visconde de Itaúna. Era um ambiente marcado por ervas penduradas, chifres de carneiro e caramujos gigantes, materiais comuns em práticas de cura, mas vistos com suspeita pelas autoridades.

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No final dos anos 10 e início dos anos 20, o número 119 da Rua Visconde Itaúna, na Praça Onze, abrigou a casa de Tia Ciata, onde sambistas se reuniam escondidos da polícia. Numa das rodas do local nasceu "Pelo telefone", marco fundador do samba — Foto: Augusto Malta / Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro
No final dos anos 10 e início dos anos 20, o número 119 da Rua Visconde Itaúna, na Praça Onze, abrigou a casa de Tia Ciata, onde sambistas se reuniam escondidos da polícia. Numa das rodas do local nasceu “Pelo telefone”, marco fundador do samba — Foto: Augusto Malta / Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro

A repressão tinha amparo legal. O Código Penal de 1890 criminalizava o “exercício ilegal da medicina”, o “curandeirismo” e o que classificava como “magia negra”. Com base nessa legislação, Assumano foi levado à Repartição Central da Polícia, acusado de falso espiritismo e cartomancia. À frente das ações repressivas estavam o delegado Augusto Mattos Mendes e o chefe de polícia Coreolano Araújo, conhecidos pela perseguição a religiões de matriz africana.

Apesar do aparato policial, o processo contra Assumano acabou arquivado por falta de provas que o enquadrassem nos crimes atribuídos à chamada “macumba”. A trajetória do líder religioso permanece cheia de lacunas e contradições, mas também de fascínio: um curandeiro que transitava entre pobres e ricos, estudioso do Alcorão e personagem central da história espiritual da Praça Onze.

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O prefeito Eduardo Paes e o vice-prefeito Eduardo Cavaliere anunciaram nesta quinta-feira, dia 20 de novembro, a demolição do horrendo Viaduto Trinta e Um de Março e o surgimento da Praça Onze Maravilha. Que Tia Ciata e os seus sejam reverenciados hoje e sempre.

Projeto Praça Onze Maravilha foi oficialmente anunciado pela Prefeitura do Rio nesta quinta-feira — Foto: Custódio Coimbra
Projeto Praça Onze Maravilha foi oficialmente anunciado pela Prefeitura do Rio nesta quinta-feira — Foto: Custódio Coimbra

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