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setembro 29, 2026
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A proibição dos jogos de azar e o fim da 'era de ouro' dos cassinos no Brasil

Por · setembro 29, 2026
A proibição dos jogos de azar e o fim da 'era de ouro' dos cassinos no Brasil


Os homens todos de smoking ou terno completo. As mulheres de longo, salto alto e luvas segurando cigarros com piteira. Garrafas de champanhe circulando entre roletas e mesas de jogos de carta. No palco, artistas consagrados como Carmen Miranda e Nelson Gonçalves animando farras dançantes que podiam durar a noite toda, enquanto a elite econômica do Rio se divertia perdendo dinheiro em ambientes luxuosos como o Cassino do Copacabana Palace e o Cassino da Urca.
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A “era de ouro dos cassinos” no Brasil começou em 1933, quando o presidente Getúlio Vargas editou um decreto regulamentando a jogatina no Brasil, e acabou sem aviso prévio em 1946, quando Eurico Gaspar Dutra proibiu a atividade. Agora, 80 anos depois, em um contexto bem diferente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva editou uma Medida Provisória determinando a proibição no Brasil das casas de aposta on-line, as chamadas Bets. A medida deve ser votada no Congresso em até 120 dias.
Hoje, são centenas de plataformas de apostas no país. Dados oficiais dizem mais de 43 milhões de brasileiros, ou 27% da população adulta, já realizaram apostas digitais. Mais de 9 milhões o fazem pelo menos uma vez por mês. Um estudo estimou em R$ 62 bilhões tirados do orçamento das famílias em 2025. É uma realidade distante daquela dos anos 1930, quando as pessoas só apostavam quando iam aos cassinos. Além disso, a maior parte do público era formada por pessoas com renda alta.
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De acordo com o livro “Copacabana Palace: Um Hotel e Sua História”, do jornalista Ricardo Boechat, estima-se que o cassino do hoje tradicional hotel na Avenida Atlântica tenha faturado algo em torno de US$ 1 bilhão em 14 anos. Cifra impressionante para a época. A porta com as iniciais “CC”, de Cassino Copacabana, permanecem lá até hoje. Com uma pesquisa no site do Acervo O GLOBO, é possível encontrar diversas matérias e anúncios publicitários sobre eventos “aristocráticos” no local.
Foto publicada em 1944 de show no Copacabana Palace
Arquivo/Agência O GLOBO
Mas havia cassinos em diversas cidades. O Palácio Quitandinha, em Petrópolis, foi construído em 1944 pelo mineiro Joaquim Rolla para abrigar o maior cassino da América Latina. Estiveram naqueles salões estrelas estrangeiras como Orson Welles, Henry Fonda e Greta Garbo. Rolla também era dono do Cassino da Urca desde 1933, quando ganhou parte do estabelecimento num jogo de cartas. A partir de então, construiu um império que incluía também o Cassino da Pampulha, em Belo Horizonte.
Poços de Caldas, no Sul de Minas Gerais, era chamada de “Las Vegas brasileira” ou “Monte Carlo brasileira” porque chegou a ter algo em torno de 20 cassinos funcionando ao mesmo tempo. O movimento era tanto que a região ganhou um aeroporto, inaugurado em 1938.
Mesmo com tanta efervescência, toda aquela cena acabou de uma noite para outra. Em 1941, Getúlio Vargas já tinha banido os jogos de azar no Brasil quando sancionou a Lei de Contravenções Penais, mas os cassinos foram considerados uma exceção jurídica e seguiram funcionando. Cinco anos mais tarde, no dia 30 de abril de 1946, três meses após assumir a Presidência da República, o general Eurico Gaspar Dutra surpreendeu o país com o Decreto-Lei 9.215/1946, enquadrando também os cassinos.
Cerca de 40 mil pessoas, entre artistas, crupiês e produtores, perderam o emprego no país. Dizia-se, nos bastidores, que Dura foi influenciado por sua mulher, Carmela Telles Dutra, conhecida como Dona Santinha, católica fervorosa e contrária ao jogo. No decreto, Dutra argumentou que a “tradição moral, jurídica e religiosa” do brasileiro era incompatível com jogos, que eles são “nocivos à moral e aos bons costumes”, que os “povos cultos” não os toleram e que reprimi-los é um “imperativo da consciência”.

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