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'A realidade não bate à porta, ela abre e entra na sua casa': diz o escritor Leonardo Padura sobre Cuba

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junho 3, 2026
in News
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'A realidade não bate à porta, ela abre e entra na sua casa': diz o escritor Leonardo Padura sobre Cuba


Leonardo Padura, de 70 anos, considerado o escritor cubano vivo mais lido do mundo afirma que em Cuba, a realidade do país independe da classe social e pode ser sentida por todos. Mas que apesar das condições de vida “complicadas”, não deseja morar em outro lugar.
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— Em Cuba, não importa se suas condições econômicas permitem que você tenha uma relação diferente com a realidade. A realidade não bate à porta; ela abre e entra na sua casa— afirmou o escritor Leonardo Padura em entrevista à AFP ao refletir sobre Havana, sua cidade e cenário de seus romances.
O escritor concedeu a entrevista nas instalações do Instituto Cervantes, em Paris, durante uma turnê pela França para apresentar a versão francesa do livro “Ir a La Habana”. A turnê ocorre enquanto o país, sob embargo dos Estados Unidos desde 1962, enfrenta uma profunda crise econômica, além de frequentes apagões, situação agravada pelas restrições energéticas impostas por Washington desde janeiro.
Em meio ao caos, Padura considera-se “afortunado” por sua situação econômica.
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— Mesmo assim, quando falta energia, fico sem conexão e posso passar um dia inteiro esperando para conseguir acesso à internet ou aos dados móveis, justamente para poder trabalhar. Eu dizia ao meu irmão há alguns dias: ‘Cada vez que saímos de carro, não é que tenhamos feito mais uma viagem; é que teremos uma viagem a menos, porque não sabemos quando voltaremos a ter gasolina.
Mas a realidade também alimenta os romances desse escritor, que se define como “disciplinado” ao planejar uma nova história e como “muito cuidadoso, até excessivo” na hora de revisar seus textos.
Escrever o livro “Ir a La Habana”, no qual revisita a história de sua cidade natal por meio de crônicas realistas e ficção, foi uma dívida e uma necessidade que conseguiu cumprir em 2024. Mas as ruas da capital cubana também são o cenário das aventuras de seu alter ego literário, o detetive Mario Conde.
— Vou registrando Havanas diferentes ao longo do tempo e Havanas diferentes no espaço— contou.
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Questionado sobre como descreveria a Havana atual, respondeu:
— Há um pouco mais de deterioração, mas, em essência, a estrutura da cidade e as necessidades das pessoas continuam sendo as mesmas. Talvez tudo isso tenha se acelerado nos últimos anos desde que escrevi o livro.
No início da entrevista, Padura avisou que não queria falar sobre a situação de Cuba, tema sobre o qual vinha sendo constantemente questionado desde sua chegada à França. No fim, porém, acabou aceitando abordar o assunto, como se fosse uma daquelas realidades que entram sem pedir licença.
— Há exatamente dez anos, o que acontecia em Cuba? Havia um show dos The Rolling Stones, Barack Obama estava visitando Cuba, ocorreu uma partida de beisebol entre a seleção cubana e equipes das grandes ligas— enumerou.
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Sobre a situação atual, concluiu:
— É como se fôssemos dois países diferentes.
Futuro incerto
Entre esses dois momentos, Donald Trump deixou o poder em 2017 e retornou à Casa Branca em 2025, de onde aplica uma política de “máxima pressão” contra a ilha comunista.Padura acredita que as mudanças em Cuba devem ser impulsionadas pela própria sociedade, mas teme que os Estados Unidos possam lançar uma operação militar ou até realizar bombardeios.
— Espero que isso não aconteça, porque os danos colaterais podem ser muito dolorosos— advertiu.
Diante do contexto atual, ao ser perguntado sobre como imaginaria uma história ambientada em uma Havana do futuro, respondeu:
— Não se trata apenas de como poderia ser a Havana de amanhã ou depois de amanhã. Havana já está bastante destruída, mas, se houver quatro bombas, será uma Havana completamente diferente. O futuro é um enorme ponto de interrogação para todos no mundo, e a incerteza é universal. Mas, no caso cubano, é uma realidade muito palpável, muito dolorosa e que está diante de nós— concluiu.

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