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outubro 7, 2026
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'A sensação era quase como escrever um documentário sobre o futuro', diz Alejandro G. Iñárritu sobre 'Digger'

Por · outubro 7, 2026
'A sensação era quase como escrever um documentário sobre o futuro', diz Alejandro G. Iñárritu sobre 'Digger'


“Confundimos, do meu ponto de vista, a realidade com a verdade”, disse o cineasta Alejandro G. Iñárritu na semana passada, poucos dias antes da estreia de seu novo filme, “Digger”. Uma sátira mordaz sobre mudanças climáticas, magnatas corporativos e propaganda, estrelada por Tom Cruise como um magnata do petróleo impenitente e extravagante, “Digger” não oferece nenhuma explicação fácil. Conceitualmente e estilisticamente, o filme é uma grande ousadia, especialmente com uma reviravolta que deliberadamente situa a ação em algum lugar entre a verdade e a realidade.
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A atuação é exagerada. “Tudo é apenas para chamar a atenção, para conseguir curtidas, para causar desconforto, para irritar. É a cultura em que vivemos”, disse Iñárritu.
Tom Cruise em ‘Digger’
Divulgação
As críticas foram em grande parte negativas (e a bilheteria de estreia foi desastrosa), mas Iñárritu disse estar confortável com a polarização do filme. “Prefiro isso a uma recepção morna”, afirmou em uma recente entrevista em vídeo. O roteirista e diretor mexicano, de 63 anos, teve a ideia para “Digger” após filmar seu drama invernal vencedor do Oscar, “O regresso”, em 2015, e “Digger” está em gestação desde 2017, com quatro co-roteiristas, passando por vários altos e baixos da indústria e da produção. “O filme foi cancelado três vezes; perdi três anos da minha vida”, disse Iñárritu. Ele continuou voltando a ele, disse, porque reflete algo urgente sobre o mundo como ele é agora. “O filme não é perfeito”, admitiu. Mas “eu gosto de correr riscos”.
Qual foi a inspiração deste filme?
No final de “O regresso”, estávamos nos virando como podíamos em algumas locações que supostamente teriam neve. Acabamos em Ushuaia (na Argentina, a cidade mais austral do mundo) no verão, correndo atrás de gelo. Porque perdemos o gelo nesses lugares — algo que nunca tinha acontecido na história da região. Então, esse foi o ponto de partida: essa ideia das mudanças que estavam acontecendo e de que o que nos contam sobre elas nem sempre reflete a realidade. Mesmo quando nossos corpos sentem as mudanças, a confusão já está plantada.
Então, trata-se de manipulação da informação. É assim que os governos totalitários operam desde o início dos tempos: não acredite no que você vê.
Trata-se de ganância, poder, irresponsabilidade e responsabilidade, e de como quem controlava a narrativa ditava o que a realidade deveria ser, e não o que ela é. Originalmente, este roteiro se chamava “Blá, blá, blá”. O filme era conceitualmente sobre a arma mais perigosa que nós, seres humanos, possuímos: este pequeno órgão chamado língua. A linguagem pode ser uma ponte para a realidade, mas também pode ser uma arma para destruí-la.
Pensamos que um personagem que abraçasse isso deliberadamente poderia ser interessante: muito humana, muito absurda, ao mesmo tempo aterradora — e engraçada, esperamos.
Como evoluiu a sátira?
Os primeiros rascunhos eram muito diferentes. Eu estava abordando as cenas de desastre em cenários reais, em locais reais. Foi muito, muito caro — fui (explorar locações) ao Ártico duas vezes com cientistas. E o roteiro não estava pronto. Estávamos usando toda a nossa imaginação para conseguir a sátira e o comentário. Mas, enquanto explorávamos, a ficção basicamente era perseguida pela realidade, e a realidade às vezes até a ultrapassava. Porque as coisas que imaginamos nove anos atrás começaram a acontecer.
Naquela época, não havia nenhuma plataforma de gelo se desprendendo. E de repente aconteceu. A Groenlândia não era assunto de conversa; o metano não era um tema recorrente na mídia. Agora, o metano é um dos maiores monstros de todos os tempos. A pandemia chegou. Quando estávamos filmando, com os incêndios em Los Angeles, quase perdi minha casa. Todos nós estávamos lidando com vários acontecimentos; foi muito assustador. Então pensamos: “Espere um minuto, não dá mais para improvisar”. Não havia mais espaço para sátira. Portanto, o tom não é satírico. A sensação era quase como escrever um documentário sobre o futuro.
Você teve pesadelos sobre aonde esse filme te levaria?
Sim. (As mudanças climáticas e a situação do mundo) são algo muito grande e tão complexo. É desconfortável; nos paralisa. Para o bem ou para o mal, a única maneira que encontrei para enxergar isso foi colocando essa questão no centro do filme, e essas pessoas questionam como lidar com ela. No teatro, podemos nos compreender, criar um espelho. Essa é uma tradição na América Latina, de Dom Quixote a Ernesto Sabato. É também o teatro brechtiano, questionar e provocar questionamentos.
Se eu tiver sucesso ou não, dependerá do que as pessoas verão ou perceberão, mas essa foi pelo menos a minha tentativa de iniciar o processo. Porque estamos todos juntos nessa peça.
Você tem receio de que as pessoas não entendam?
Acho que definitivamente é um filme incomum. É um filme provocativo. Para mim, esse é o papel de um filme: iniciar uma conversa. Meu gosto pessoal é por filmes que tentam me dizer algo de uma maneira diferente. Há pessoas que querem mais certeza na narrativa, e isso também é válido. Este filme não é como um sorvete. Então, sim, para ser sincero, esperávamos isso.
Tom Cruise disse que é fã do seu trabalho há muito tempo. Como vocês se conheceram?
Ele foi muito generoso quando fiz meu primeiro filme, “Amores brutos” (2001). Ele estava exibindo o filme e as pessoas comentavam: “Tom Cruise está promovendo seu filme”. Eu disse: “Nossa!”. Mas só nos encontramos em 2011. Ele foi super simpático, e conhecia cada corte e ângulo de cada tomada dos meus filmes, mais do que eu.
Em ‘Birdman’, você explorou a história de Michael Keaton como Batman (ele é perseguido por uma figura mascarada e alada). Ao escolher Tom para esse papel, você pensou em qual seria a compreensão que o público teria do personagem?
Preciso de alguém que… você não consegue parar de assistir. E acho que ele tem esse poder. Ele é o anti-herói. Eu o chamo de catástrofe adorável porque, mesmo quando ele faz coisas desprezíveis, é difícil parar de assisti-lo. É um arquétipo da humanidade. Ele representa que o poder é algo que vicia, e ele tem tanto medo de perder o poder que… o lucro será o problema de todos nós. É assim que eu acho que o mundo está funcionando agora.
O filme lembra outras histórias distópicas como ‘Brazil’ e ‘Dr. Fantástico’. Quais foram suas referências?
Estávamos tentando encontrar o tom certo, o que foi muito difícil. Nos ensaios, mostrei “Jejum de amor” (1940), com Cary Grant falando sem parar. Fiquei fascinado com a maneira como ele lidava com o diálogo acelerado, que é muito musical. Então, para o elenco entender que velocidade não significa perder o subtexto ou o poder das palavras, é algo que precisa ser praticado.
Visualmente, há um pintor (dinamarquês), Vilhelm Hammershöi, todas as paletas que ele usou são tão dessaturadas, apenas esses poucos elementos de cor que realmente criam uma espécie de atmosfera onírica.
Este filme tem uma visão de mundo bastante sombria. Isso reflete a sua própria perspectiva? Você tem esperança?
Este filme é um filme de desastre, mas o desastre somos nós. O mundo é tão belo e tão incrível. Há tantos recursos, e o equilíbrio do ecossistema é simplesmente absurdamente belo. Se pudermos nos reunir na mesma sala, na mesma realidade, e entender em que ponto da narrativa nos encontramos, acho que isso traz esperança.

'A sensação era quase como escrever um documentário sobre o futuro', diz Alejandro G. Iñárritu sobre 'Digger'