Décadas preso em um tanque raso em Mendoza, na Argentina, a centenas de quilômetros do mar, não apagaram da memória de Jorge o caminho para casa. A tartaruga marinha, originária da Praia do Forte, na Bahia, passou mais da metade da vida em cativeiro, até ser devolvida ao Oceano Atlântico no dia 11 de abril de 2025. Com braçadas fortes, não hesitou em enfrentar as agitadas águas do litoral argentino. Mergulhou rumo ao calor do nordeste brasileiro e, após 70 dias de viagem, chegou ao litoral do Rio de Janeiro.
- Vacinação contra gripe e sarampo no Rio: veja os pontos extras neste fim de semana
- Velório de Preta Gil: fãs enfrentam fila mais de uma vez para último momento com a cantora
Aos 60 anos, Jorge, uma tartaruga cabeçuda (Caretta Caretta), de aproximadamente 100 quilos, encontrou a liberdade nas águas do Atlântico, após viver 37 anos em uma piscina de 20 mil litros de capacidade e somente 1,5 metro de profundidade, no aquário de Mendoza. E os últimos três anos num espaço maior no Aquário de Mar del Plata, em Buenos Aires, com três metros de profundidade e quase 150 mil litros de água.
Desde que foi liberado no litoral argentino, está sob supervisão do Grupo de Investigação de Mamíferos Marinhos, formado pelo Aquário de Mar del Plata, Museu Argentino de Ciências Naturais e Instituto de Pesquisas Marinhas e Costeiras da Universidade Nacional de Mar del Plata. Assim, utilizaram as redes sociais do grupo para informar que após mais de dois meses em alto mar e 3.500 quilômetros percorridos, Jorge chegou nesta quinta-feira na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro.
Segundo os dados do monitoramento, Jorge estaria entre a Ilha de Paquetá e o bairro da Ilha do Governador. Agora, faltam pouco mais de 1.300 quilômetros para chegada na sua “água natal”.
Na Baia de Guanabara, o animal ganhou o monitoramento do Projeto Aruanã, que colabora com uma rede de cientistas formada em 2023, com pesquisadores do Brasil, Argentina e Uruguai, dedicados à conservação de tartarugas marinhas no Atlântico. A equipe recebe diariamente dados da localização do animal obtidos de um aparelho rastreador via satélite acoplado em seu casco.
Segundo o grupo, Jorge entrou na Baia de Guanabara no dia 16 de julho, o que acendeu um alerta de preocupação. Embora tenha uma vasta biodiversidade, o espaço possui diferentes riscos à sobrevivência de tartarugas marinhas, como a poluição por esgoto e poluentes químicos como tráfego de embarcações e prática da pesca.
— A ideia é conduzir Jorge para fora da Baia de Guanabara, para ele seguir o seu caminho até a Praia do Forte, na Bahia. Aqui não é o lugar mais seguro para ele ficar — afirmou Suzana Guimarães, coordenadora do projeto Aruanã.
- Senador Vasconcelos tem alta de roubos a transeunte; veja dados do Mapa do Crime
- Vídeo; Combustível adulterado e venda ilegal: postos de gasolina na Tijuca e em Madureira são interditados
De acordo com a especialista, o retorno do animal ao oceano, que tem espécie ameaçada de extinção, representa um feito inédito e uma oportunidade para ciência compreender melhor o processo de reabilitação e conservação marinha. Por isso, é importante o cuidado com essa trajetória.
Suzana contou que o projeto já entrou em contato com institutos de pesquisa e comunidades de pescadores que atuam na Baía de Guanabara, mas também é importante que a população do Rio fica ciente da presença do animal. Em caso de avistamento, é necessário entrar em contato com a equipe Aruanã e dar o posicionamento mais detalhado possível do avistamento.
— A ideia é conduzir o animal para fora da Baía de Guanabara, para ele seguir o caminho dele até a Praia do Forte, na Bahia — completou Suzana, que também alertou que em caso de avistamento, é necessário manter distância do animal e não tentar qualquer tipo de captura.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/X/r/S4pJAqRQWBp9RKGlUyJg/screenshot-3.png)
Viveu todo esse período comendo ovos cozidos e carne bovina, enquanto nadava em água salgada que buscava simular o oceano, habitat que perdeu contato quando foi capturado em 1984. Na época, um grupo de pescadores encontrou Jorge preso em redes de pesca, ferido e confuso pelo frio da Bahía Blanca, cidade na província de Buenos Aires e localizada na rota migratória da espécie.
Naquele momento, a reabilitação e reintrodução de tartarugas marinhas não eram práticas comuns, portanto, Jorge foi levado para Mendoza. Lá, se tornou a tartaruga marinha que mais tempo viveu em cativeiro no mundo inteiro, além de virar uma celebridade. No entanto, mesmo amado pela comunidade local, havia uma pressão para fosse levado de volta ao mar.
A pressão ganhou força nos últimos anos e uma petição com mais de 60 mil assinaturas foi entregue, assim como uma ação judicial em 2021. Por isso, a Prefeitura de Mendoza topou o desavio de devolver o animal ao oceano e reuniu uma equipe com pesquisadores do Aquário de Mar del Plata, do Museu Argentino de Ciências Naturais e do Instituto de Pesquisas Marinhas e Costeiras da Universidade Nacional de Mar del Plata.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/m/3/UDHOvXTeKKZg9qCkmHOQ/whatsapp-image-2025-07-25-at-14.56.29.jpeg)
Depois de tanto tempo em cativeiro, Jorge perdeu muitos dos seus instintos de sobrevivência. Então, seu retorno ao habitat natural demandou um processo de adaptação que levou três anos.
Em entrevista ao jornal La Nacion, da Argentina, Alejandro Saubidet, diretor científico do Aquário de Mar del Plata, afirmou que a devolução contou com etapas, sendo a primeira delas uma readaptação à água salgada. Dessa forma, a salinidade da piscina onde ele vivia subiu pouco a pouco até atingir 3,3%, número similar ao habitat natural.
A equipe realizou exames de sangue para acompanhar a capacidade de Jorge em expelir o sal. Depois, foram feitas radiografias e avaliações de sua saúde e articulações. Após os testes, passou a viver sob temperatura controlada entre 20°C e 24ºC, faixa próxima as condições que Jorge encontraria no Atlântico.
Na sequência, a dieta foi alterada. Os ovos cozidos e a carne bovina deram lugar aos alimentos vivos, como caranguejos e caramujos.
— Aprendeu rápido a caçar e se alimentar sozinho — afirmou Saubidet.
Após estas etapas, os especialistas criaram correntes na piscina. No dia 11 de abril deste ano, Jorge finalmente deixou o aquário com um telêmetro (medidor de distância) preso à sua concha, com direção ao Oceano Atlântico. Depois de quarenta anos longe do mar, poucos segundos foram o suficiente para tartaruga marinha mergulhar e pegar a corrente que levaria ao Brasil.
Agora, Jorge está na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, local onde desde 2022 passou a ser identificado como rota migratório da espécie. Segundo Suzana Guimarães, uma das razões é o espaço ser rico em camarões e caranguejos, alimentos favoritos da tartaruga cabeçuda.