O objeto irresistível desta semana foi a tornozeleira violada. Quem não viu e reviu o vídeo em que se ouve Rita de Cássia Gaio Siqueira, agente penitenciária, perguntando com delicadeza “que horas o senhor começou a fazer isso, seu Jair?” – e exibindo a tornozeleira eletrônica danificada com ferro de solda?
“Meti um ferro quente aqui”. “Comecei no final da tarde”. “Curiosidade”. “Alucinação”. “Paranoia”. “Medicamentos”. “Suspeita de escuta instalada no aparelho”.
Não importa se você é lulista, bolsonarista ou muito pelo contrário, o episódio da tornozeleira violada entrou para o anedotário político brasileiro para sempre. Quando um réu condenado resolve violar com ferro quente perfurante uma tornozeleira, desrespeitando uma medida de controle judiciário, o que vem a nossa cabeça?
Burrice. Surto. Estratégia de fuga. Ou todas as respostas num teste de múltipla escolha. Eu escolheria a primeira opção. O clã Bolsonaro não pode ter sua burrice subestimada. É uma qualidade que passa de pai para filhos.
O vídeo viralizou, com todo o mérito para Rita de Cássia, nome da santa das causas impossíveis. Ela é diretora-adjunta da Secretaria de Administração Penitenciária do Distrito Federal. Rita foi condecorada por “ato de bravura” nos ataques golpistas de 8 de janeiro de 2023. Na ocasião, ela agiu para evitar danos maiores às sedes dos Três Poderes. Agora, foi uma entrevistadora impecável.
O vídeo chegou a ser tachado de fake, gerado por IA, por não mostrar nem Rita nem Bolsonaro, só a vítima violada. Foi preciso provar que o Supremo tinha atestado a veracidade. E que seu Jair tinha confessado o ato.
Era um sábado. Eu não tinha nenhum programa especial. Ver em looping a tornozeleira violada, as análises na GloboNews e os memes nas redes sociais parecia inevitável. O que me salvou foi meu feed. E o algoritmo que conhece meus interesses.
O feed, como todos sabem, é um fluxo contínuo de conteúdo que aparece na tela inicial de um perfil. Não sei o que aparece no teu celular, mas reflete teus desejos. Mostre-me teu feed e te direi quem és. Essa é uma adaptação do pensamento de Goethe: “Diz-me com quem andas e direi quem és. Saiba eu com que te ocupas e saberei também o que te poderás tornar”. Feed também significa “alimentar”.
Meu feed, que alívio, não tem nada a ver com Bolsonaro, ódio, indignação, revolta, tragédia. Embora eu siga o autoexilado Eduardo Bolsonaro para rir com suas estripulias, e o Flávio Bolsonaro para saber o quanto ele irrita Michelle e quando vai se candidatar a presidente, eles pouco surgem no meu feed.
No sábado da tornozeleira violada, meu celular exibiu balé, dança contemporânea, cinema, literatura, mulheres, filosofia, fotografia, surfe, birdwatching, receitas, gatos, viagens, arquitetura, Pina Bausch. E xadrez – não o de Bolsonaro e dos generais, mas o chess.com. Jogo xadrez com robôs e meus treinadores virtuais.
Certos perfis iluminam meu cotidiano e alimentam fantasias. Exibem a leveza da vida. A necessidade de abandonar o que é tóxico e que pode me adoecer. O universo é lotado de energias positivas. Precisei encarar uma dieta radical de alimentos de baixa fermentação. Prefiro me concentrar no permitido e não no proibido.
Aí vai uma lista de perfis que eu curto. @thecoolhunter @ralphbeaubrundanceclasses (coreógrafo e dançarino do Haiti) @women_in_art_ @existential.reflections @mental.aspect @architamoda @philosophybreak @artof.cinema @sobreliteratura_ @vintagememories66 @slow_living_hotels @arikaye (imagens exuberantes) @filmicca @popmybub @davidszauder (delírios de IA) @fuckmyeyes@matt_mccreary1 (dançarino irlandês que une parkour a teatro).
Resista a se afogar em rancores e notícias ruins. Comemore estar vivo.

