Em 2023, quando tinha 47 anos, o administrador Celso Galvão foi pego de surpresa ao receber o diagnóstico de um câncer de próstata com metástase óssea. Sem histórico familiar da doença ou qualquer sintoma aparente, ele mal pode acreditar quando soube que as razões para as idas constantes ao banheiro, notadas pelos amigos com quem costuma tomar mate gelado todo sábado pela manhã, tinham esse motivo.
O oncologista que já havia tratado a mãe de Celso, por sua vez, lhe contou que dali a poucos meses o estudo de um novo medicamento para a doença seria realizado e que para entrar no protocolo da droga experimental (e inovadora) ele teria de aguardar alguns meses sem outro tratamento. O que foi avaliado e aceito por Celso.
— Fiquei nove meses esperando, monitorando. Confiei muito no meu médico e ele em mim. Dois anos depois do diagnóstico, a doença estabilizou e teve uma redução na metástase — contabiliza o baiano de Jequié. — Confiei na ciência e confiei na fé.
Celso é representante do grupo de voluntários brasileiros que aceitam tomar medicamentos experimentais em busca de novas soluções para doenças difíceis de tratar. Assim como foi o caso de Preta Gil (1974-2025) que buscou, nos EUA, uma droga experimental para tratar um câncer colorretal em estágio de metástase. Outros topam entrar em pesquisa exclusivamente por um compromisso com a ciência para prestar um “serviço” à sociedade.
A vontade de colaborar com os pesquisadores, por exemplo, foi o que fez Augusto Codo de Sousa, de 18 anos, topar fazer parte de um estudo clínico para o desenvolvimento de uma vacina para chikungunya, no Brasil — o imunizante tornou-se o primeiro medicamento do tipo para combater a doença no país, aprovado em novembro do ano passado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A decisão de Augusto de colocar seu corpo (e saúde) à disposição da ciência teve influência de berço.
— Por eu ter bastante contato com a área da saúde, meu padrinho é médico anestesista, minha mãe é biomédica, meu irmão farmacêutico, eu sempre vi esse mundo da medicina com outros olhos — explica. — No começo, meus colegas de escola acharam estranho eu estar fazendo parte de um estudo. Diziam: que loucura! Mas quiseram saber mais. Aos poucos, foram me dando apoio para seguir. Se a gente não confiar na ciência, quem vai?
Apenas em 2024, ao menos 315 pedidos de novos estudos clínicos (como são chamados os testes para medicamentos experimentais) do tipo foram realizados junto à Anvisa. O número de participantes no país no momento é difícil de determinar, mas é possível que passe dos milhares. A maior parte deles, seguindo uma tendência global, busca novas alternativas para tratar neoplasias, os tumores, em casos de câncer.
Para entrar num estudo, em geral, o paciente é convidado por um médico que conheça o protocolo ou, mais raramente, é avisado da pesquisa por grupos de pessoas que tenham a mesma doença e se organizam em buscas de direito a tratamentos. A jornada de um voluntário é cercada de exames de monitoramento, além de necessitar de atenção extrema aos sinais do próprio corpo, como forma de buscar eventuais efeitos adversos que possam comprometer o uso do fármaco.
— Um paciente em tratamento, regularmente visita o médico a cada seis meses, ou um ano. No caso dos voluntários em pesquisa clínica, esse prazo se reduz para três meses ou até menos — diz Augusto Mota, oncologista do Instituto Ética, especializado em pesquisas do tipo, em Salvador (BA). — Antes de tudo isso o participante assina um termo de consentimento escrito em linguagem leigas, em que ele possa compreender todos os detalhes. Inclusive os eventuais riscos.
A artista plástica Rita Cerqueira, de 53 anos, por exemplo, fazia exames de sangue quinzenais para avaliar um novo protocolo de quimioterapia que iniciou — em pesquisa clínica — há dois anos. Sua necessidade era tratar uma leucemia mieloide aguda que não reagiu bem aos tratamentos já disponíveis. No meio do caminho, passou por um transplante de medula, tendo o próprio filho como doador, e depois voltou ao protocolo do medicamento, como segurança do controle da doença.
— O medicamento me preparou para o transplante. Depois disso, segui fazendo os ciclos da quimio para me dar suporte no tratamento da remissão. O medicamento foi extremamente importante para mim, espero que também possa ser para outras pessoas — analisa Rita.
No Brasil, vale dizer, todos que participam de estudos do tipo são voluntários. Ou seja, não recebem pagamento pela participação. Nos Estados Unidos, por outro lado, essa participação como paciente pode ser remunerada. O FDA (comparável à Anvisa nos EUA) explica em seu mais recente parecer sobre o tema que o tal pagamento deve ocorrer como um “incentivo” ao recrutamento de pacientes e não deve ser considerado um “benefício” que pese positivamente na decisão de entrar na pesquisa. Aqui, porém, o raciocínio sobre o tema é outro.
— Se você abre a possibilidade de ter uma participação remunerada permanente você abre o risco de ter uma profissionalização de risco, e seria bastante desumano se aproveitar de uma situação de vulnerabilidade econômica para uma situação como essa — explica Jorge Venâncio ex-coordenador da Conep, a instância máxima de ética em protocolo de pesquisa em humanos no Brasil.
A pesquisa clínica no Brasil, porém, deve passar por mudanças nos próximos anos. Isso porque em 2024 foi sancionada uma lei que define a forma que esse tipo de análise deve ser feita no país. A legislação acelerou prazos, reduziu o período que desenvolvedores são obrigados a fornecer o medicamento ao voluntário após o fim do estudo, e também mudou os critérios da aprovação ética. Um ponto específico que levanta polêmica entre especialistas.
Ainda antes de ser regulamentada, a mudança encontra um setor farmacêutico já interessado em investir no Brasil. A Sanofi, por exemplo, diz que investiu R$ 100 milhões em pesquisas realizadas no país em 2024.
— Em 25 anos de carreira nunca vi tanto crescimento nessa velocidade. É uma confiança no Brasil, é um local em que há diversidade (de população), volume de pessoas — aponta Viviane Rezende, líder de estudos clínicos da farmacêutica no Brasil.
Na Novartis, o investimento em pesquisa também repete a cifra de R$ 100 milhões investidos no Brasil em 2024. Entre as doenças estudadas, explica o diretor de pesquisa clínica André Sanches, estão males “tropicais negligenciados” como como dengue, malária, hanseníase e doença de Chagas, entre outras áreas estratégicas como as terapias gênica e celular.
Eli Lakryc, vice-presidente da Área Médica da divisão Farmacêutica da Bayer no Brasil e na América Latina explica que o interesse no Brasil, em geral, está conectado a uma série de fatores. A diversidade populacional, por exemplo, é um desses pilares.
— Quando se faz uma pesquisa clínica, é possível abordar pessoas diferentes, brancas, negras, amarelas e o Brasil tem tudo isso. Estamos todos juntos — diz o executivo. — Temos centros de investigação maravilhosos e há outros se capacitando. O Brasil, além disso, não é muito custoso para fazer pesquisa clínica.
Não basta, contudo, esperar que apenas a movimentação das farmacêuticas deem conta de colocar o país no mapa dos países que mais realizam estudos clínicos. Para movimentar essa área com intensidade é preciso, diz a conselheira sênior da Fundação Gates e pesquisadora sênior do International Vaccine Institute (IVI), Sue Ann Costa Clemens, investir num sistema robusto de desenvolvimento de fármacos, que vá da bancada dos pesquisadores ao mercado global.
— O Brasil tem muitos aspectos positivos. Só que a gente também tem desafios, ou seja, melhorias a fazer. Dentre elas, é importante ter centros de excelência que saibam desenvolver protocolos, pensando em gerar evidências, dados, para um dossiê regulatório, e não só aquela pesquisa acadêmica, que é a maior parte do que a gente tem — diz a pesquisadora que foi fundamental para a realização da pesquisa da vacina de Oxford, contra a Covid-19 no Brasil. — A chave são os desenvolvimentos de ponta a ponta globalizados. Se a gente estiver, por exemplo, dentro de um consórcio internacional, o produto desenvolvido terá, imediatamente, um acesso globalizado — afirma Sue Ann.
Por enquanto, mecanismos já em vigor permitem que pacientes acessem novas drogas, ainda que experimentais. Regina Furuta, de 49 anos, tem uma doença rara chamada HPN (sigla de Hemoglobinúria Paroxística Noturna), cujos desdobramentos incluem quadros de trombose, dores e fraqueza. No caso de Regina, a autorização para o uso do medicamento se deu de maneira diferente, por meio de um mecanismo de “acesso expandido”, previsto pela Anvisa, cujo uso é destinado a pacientes que tenham doenças debilitantes e graves, para as quais não exista outra alternativa farmacêutica , entre outros detalhes.
Neste sentido, o uso do medicamento experimental é autorizado pela agência e deve ser acompanhado pelo médico especialista, em caso de efeitos adversos, além de também ocorrer coleta de dados por parte do desenvolvedor do fármaco. O material, embora coletado com rigor, não pode ser incluído no protocolo de aprovação da droga. Regina, mesmo fora da pesquisa, vê sua atitude de receber um remédio antes da aprovação final como um serviço à comunidade.
— Depois de oito anos de tratamento com outro medicamento, soube que haveria uma nova medicação oral no Brasil. Quis tentar. Eu sou uma só, mas fiz pensando num todo, inclusive (no impacto) para os pacientes que podem entrar em contato com essa doença no futuro– defende.