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Se o resultado já era esperado, a demora da única votação do dia surpreendeu o público na Praça de São Pedro, no Vaticano. Cerca de 45 mil pessoas lotavam o local no fim da tarde. Com o cair da noite e da temperatura, muitos fiéis e turistas perderam a paciência e anteciparam a volta para casa ou para os hotéis de Roma.
— Eles demoram tanto que eu pensei que tivessem escolhido o novo Papa — comentou a professora capixaba Géssika Rodrigues, que resistiu na praça até o momento em que a fumaça negra saiu da chaminé da Sistina.
Ela veio à Itália para acompanhar a canonização do jovem Carlo Acutis, que estava prevista para o fim de abril, mas foi adiada. Com a morte do Papa Francisco, a brasileira esticou a viagem para acompanhar o funeral do Pontífice e a escolha de seu sucessor.
Religiosos que vivem em Roma e acompanham o dia a dia da Igreja pareciam mais resignados com a falta de consenso no início do conclave.
— Era difícil o Papa ser escolhido hoje, por ser apenas a primeira votação. Seria um milagre — resignou-se a freira salvadorenha Francesca Ramirez.
Para que todos pudessem ver o momento mais aguardado, o Vaticano instalou telões na praça e ao longo da Via della Conciliazione, já em território italiano.
O clima era de tranquilidade, e muitas famílias romanas levaram crianças para assistirem ao momento histórico de transição na Igreja.
A Santa Sé projetava uma primeira votação bem mais curta, com a divulgação do resultado no máximo até as 19h30 (12h30 em Brasília). São duas as principais hipóteses para o atraso. A primeira é a possibilidade de o cardeal Raniero Cantalamessa ter falado muito na meditação que abre os trabalhos na Capela Sistina.
O prelado italiano tem 90 anos e não vota, mas é responsável por fechar as portas da capela e usar a palavra como pregador da Casa Pontifícia.
A segunda conjectura está ligada à presença de um número recorde de cardeais eleitores, 133, sendo mais de 80% deles estreantes em conclaves. Com tantos eleitores inexperientes, a Santa Sé pode ter subestimado o tempo necessário para todos cumprirem os ritos previstos na votação.
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Como os cardeais estão confinados e sob medidas rígidas de isolamento, essas hipóteses não foram confirmadas nem negadas pela Santa Sé. Mais cedo, na missa solene que precede o início do conclave, o cardeal Giovanni Battista Re afirmou aos votantes que a eleição do Papa é um ato humano de “máxima responsabilidade”.
O decano do colégio de cardeais disse que o mundo atravessa um momento “difícil e complexo”. Ele pediu que os colegas se empenhem para escolher o Pontífice “de que o nosso tempo necessita”.
— A eleição de um novo Papa não é uma simples sucessão de pessoas — disse o cardeal italiano, acrescentando: — É um ato humano pelo qual se deve deixar de lado qualquer consideração pessoal e ter na mente e no coração apenas o coração de Jesus Cristo e o bem da Igreja e da Humanidade.
Na homilia, Re classificou a eleição do Papa como uma escolha de “excepcional importância”.
— Invocar o Espírito Santo é a única atitude digna e necessária enquanto os cardeais eleitores se preparam para um ato de máxima responsabilidade — disse. — Oremos para que Deus conceda à Igreja um Papa que saiba despertar as consciências de todos e despertar energias morais.
Citando o Papa João Paulo II, ele pediu que a visão do “Juízo Final”, obra-prima de Michelangelo na Capela Sistina, “lembrasse a cada um a grande responsabilidade de colocar as chaves supremas nas mãos certas”.
Após uma série de reuniões fechadas em que os cardeais debateram as divisões na Igreja, Re disse que a unidade “não significa uniformidade, mas comunhão sólida e profunda na diversidade”.
Os cardeais devem voltar à Capela Sistina para a segunda votação na manhã de hoje, por volta das 10h30 (5h30 de Brasília). Estão previstos quatro escrutínios até o fim do dia. Se em algum deles um dos cardeais receber mais de 89 votos, a chaminé vai liberar fumaça branca para indicar a escolha do novo Papa.
Caso contrário, são esperadas duas sessões de fumaça negra, no fim da manhã e no fim da tarde. E a votação recomeçará no dia seguinte.
— Espero que tenhamos um Papa até sexta-feira — disse a freira Francesca, já no caminho de volta ao convento.

