Cristina Aché tinha apenas 15 anos quando fez seu primeiro filme, “Os primeiros momentos” (1973). À época, não pensava em ser atriz, mas já demonstrava um interesse pelo cinema ao faltar aulas no colégio para frequentar a Cinemateca do MAM. Lá, acabou se aproximando de realizadores e foi convidada por Pedro Camargo para o filme, estreando já como protagonista.
O que veio a seguir foi uma ascensão meteórica e uma trajetória de muito destaque nos anos 1970 e 1980, quando trabalhou com alguns dos maiores cineastas brasileiros, como Reginaldo Faria (“Quem tem medo de lobisomem”, 1975), Bruno Barreto (“Amor bandido”, 1978), Cacá Diegues (“Chuvas de verão”, 1978), Neville d’Almeida (“Os sete gatinhos”, 1980), dentre outros. Ela também teve importante parceria com o cultuado cineasta Joaquim Pedro de Andrade (1932-1988), com quem foi casada e teve dois filhos, e com quem trabalhou em três longas: “Guerra conjugal” (1975), “Vereda tropical” (1977) e “O homem do Pau-Brasil” (1981).
Afastada das telas há 18 anos, desde que atuou em “Encarnação do demônio” (2008), último longa de José Mojica Marins (1936-2020) como seu mais famoso personagem, o Zé do Caixão, Cristina é tema da mostra retrospectiva “Filmes com Aché: uma Cristina do Cinema Brasileiro”, que acontece até o fim do mês na Caixa Cultural, no Centro do Rio, que conta com a exibição de quase toda filmografia da artista, além de uma série de debates e conversas com o público. Os encontros contam com a participação de colegas que fizeram parte da trajetória da atriz, como Débora Bloch, Helena Ignez, Carla Camurati, Daniel Filho, Tony Ramos e Lúcia Murat, dentre outros.
— Sou uma pessoa extremamente crítica, então, por muito tempo não revi os meus filmes. Mas agora, com o passar dos anos, é possível se descolar um pouco do trabalho e ter uma visão mais distanciada e analisar o conjunto e a trajetória completa. Tem sido uma experiência muito bonita — conta Cristina, a poucos dias de completar 69 anos no próximo dia 11. — É incrível poder relembrar meus trabalhos e pensar como eles se colocaram dentro do panorama do cinema brasileiro da época.
Cristina Aché em “Amor bandido”, de Bruno Barreto
Divulgação
Apesar de ter feito participações em novelas da TV Globo, como “Vejo a lua no céu” (1976), “O amor é nosso” (1981) e “Novo amor” (1986), foi no cinema que a atriz construiu sua trajetória antes de desenvolver outra grande paixão: o teatro.
— Eu tenho a sensação de que o cinema me escolheu. Depois, quando resolvi estudar e me preparar como atriz, eu escolhi o teatro — lembra a atriz, que participou da premiada montagem de “Deus”, adaptação de texto de Woody Allen, em 1998, ao lado de Murilo Benício e Otávio Muller.
Vida na França
E foi o teatro que levou Cristina a deixar o Brasil no início dos anos 2000. Incomodada com as dificuldades burocrática dos editais de cultura da época, que dificultavam os trabalhos como atriz e produtora cultural, ela decidiu ir para Paris, na França, para um período de estágio no Théâtre du Soleil (sem relações com a companhia Cirque du Soleil). Acabou entrando para o corpo de artistas da instituição e viajou o mundo encenando e trabalhando em peças.
Atriz e produtora Cristina Aché
Ana Branco / Agência O Globo
— Meu interesse pelo Soleil veio através da minha amiga Juliana Carneiro da Cunha e do fato de fazerem um teatro não convencional. Um teatro em que todo mundo faz tudo. Você atua, você faz a roupa, você limpa o banheiro, você cuida da recepção de artistas estrangeiros visitando Paris. Foi uma escola de vida — lembra Cristina, que passou quase quatro anos na companhia. — Minha vontade nunca foi deixar o Brasil. Quando voltei, já tinha 55 anos, estava um tempo fora do mercado e com preguiça de pedir emprego na TV ou no cinema.
Ao trabalhar com figurinos no Soleil, Cristina conheceu a artista têxtil e diretora de arte Ysabel Maisonneuve, com quem aprendeu a milenar técnica japonesa de tingimento shibori.
— Montei um ateliê, comecei a trabalhar com tintura de tecidos e quando vi, tinha mudado de profissão. Não foi algo que me deixou infeliz, foi natural e até hoje trabalho com isso — diz a artista, que hoje vive em Petrópolis, na Região Serrana. — Mas depois de um tempo, me deu a vontade de voltar a atuar. Comecei a me preparar, conversei sobre algumas oportunidades, mas infelizmente, veio a pandemia. Agora, está me dando muita vontade de voltar a fazer cinema e teatro. E vou voltar a contar histórias.
Geralmente citada como “musa” do cinema dos anos 1970 e 1980, Cristina conta que nunca se incomodou com o rótulo, até porque nunca se deixou ficar presa nesta condição.
— Esse papo de musa acho uma besteira, mas nunca me incomodou, sempre achei que era algo elogioso, não era uma coisa pejorativa. Quem falava isso, falava com um certo carinho. Lembro do Cazuza, que dizia: “Você é nossa Nastassja Kinski” — conta Cristina. — O que eu nunca quis foi ficar nesse papel da starlet, da estrela que decora texto e fica endeusada em um só lugar. Isso, para mim, não é ser ator. É ser famoso. Me interessa ser artista em um outro lugar e é disso que sinto falta.

