Uma câmera nas mãos pode mudar a forma de enxergar a Cidade de Deus e o próprio futuro. É essa experiência que o FLAGRA oferece a jovens da comunidade, atualmente com uma turma de 15 participantes. Criado em 2024 por Nayane Silva, Gabriel Miranda, Thiago Lima e Carlos Lopes, o projeto promove aulas gratuitas de fotografia e incentiva o desenvolvimento de um olhar diferente sobre o território onde vivem, para criar imagens que revelam memórias.
O nome não é aleatório. FLAGRA têm letras que simbolizam as palavras que guiam o projeto: Fotografia, linguagem, arte, grito, representação e afeto. Além das aulas teóricas e práticas na Cidade de Deus, são realizadas visitas a museus, centros culturais e também outras favelas, para que os alunos reconheçam diferentes produções artísticas. Mesmo que orientados por professores, os jovens do projeto têm liberdade para fotografar o que sentem que precisa ser registrado. A ideia é que cada participante aprenda a criar sua própria narrativa.
Nayane Silva é coordenadora e curadora do projeto. Moradora da Cidade de Deus, começou sua trajetória por meio de uma formação em fotografia popular na Maré e conta que essa experiência transformou a forma que enxerga a fotografia. Compreendeu que essa pode ser uma ferramenta de educação.
Para ela, o aprendizado nas aulas é percebido quando as fotos deixam de ser apenas um registro e passam a carregar significado: “Sabemos que alguém aprende quando passa a fotografar de forma consciente, respeitando as pessoas retratadas, compreendendo o contexto das imagens e construindo relatos com intenção.”
Aula Projeto FLAGRA
Projeto FLAGRA
A primeira exposição do FLAGRA foi nomeada como “Eu só quero é ser feliz”, foi realizada na quadra da escola de samba do território, Mocidade Unida da Cidade de Deus e apresentou fotos de 9 alunos, que capturaram imagens representativas do bairro 13. Ao lado das fotos, havia uma tela interativa para que respondessem a pergunta “o que é ser feliz pra você?”.
Cada fotografia apresentada carrega uma história por trás. Como a de Luiz Felipe Evaristo, de 24 anos, que encontrou o projeto em um momento de angústia, sem saber o que aconteceria na sua vida profissional. Trabalhava com carteira assinada e, por causa da rotina, não conseguia frequentar as aulas. Até que decidiu pedir demissão e foi até a praça onde as aulas aconteciam. Naquele dia, pensava apenas na oportunidade de segurar uma câmera e mostrar ao mundo o que, até então, existia apenas dentro dele.
Foto produzida durante aula do projeto
Projeto FLAGRA
Hoje, Luiz diz que o projeto ampliou sua perspectiva de futuro e despertou o desejo de seguir carreira na fotografia esportiva. Mas, entre todas as imagens que já registrou, a que mais o marcou não retrata uma paisagem ou um evento. É a fotografia de uma uma cena na qual reconheceu a própria história: “A fotografia mais especial que fiz a partir do projeto foi a fotografia de uma criança na janela. Aquele registro foi muito especial porque eu me vi naquela cena. Durante muito tempo eu também me senti preso, olhando o mundo pela janela e imaginando como seria viver outras possibilidades. Quando fiz aquela foto, percebi que não estava registrando apenas uma imagem. Eu estava registrando um sentimento que também fazia parte de mim.”
Foram nesses encontros que Luiz começou a perceber que esse espaço de arte também era pra ele. Diz que ao aprender que a fotografia não é só apertar o botão, entre aulas práticas e teóricas, começou a entender que também estava aprimorando responsabilidade, respeito, convivência e trabalho em equipe. Assim, quebrando aos poucos a barreira de imaginar outra vida pra si.
Criança olhando pela janela
Projeto FLAGRA
Logo no primeiro dia encontrou acolhimento, recebeu uma nova família e passou a enxergar alternativas que antes pareciam inalcançáveis. Mas chegar até esse momento não foi simples: “O maior desafio foi querer fotografar sem ter uma câmera. Durante muito tempo eu fotografava com os olhos, aprendi a observar antes mesmo de conseguir registrar. A fotografia ainda é algo muito caro para quem vem da favela, e muitas vezes parece que esse universo não foi feito para nós, porque quem cresce na favela muitas vezes acha que alguns lugares não são para nós. Mas o projeto mostra exatamente o contrário, que nossos sonhos também têm espaço.”
Essa arte também é provocadora. É o que explica AF Rodrigues, professor do FLAGRA, ao comentar que a turma começa a enxergar novas leituras do mundo através das trocas em sala. Primeiro, ele ensina a parte teórica. As funções, os modelos, as lentes. E depois de tudo o que já foi dito, o momento esperado chega, o de pegar a câmera e colocar o aprendizado em prática, estabelecendo diálogo: “É possível identificar a transformação de quem tá ali em sala de aula trocando ideia, desvelando algumas questões que antes não passavam nos processos reflexivos da vida cotidiana de cada um. O discurso começa a ficar mais maduro.”
Menino em cima do telhado com câmera
Projeto FLAGRA
A motivação do professor para ensinar no projeto nasceu da própria experiência como aluno. Foi na Escola de Fotografia Popular, na Maré, que ele vivenciou uma formação baseada na troca de conhecimentos, uma experiência que hoje busca reproduzir. Ver pessoas de diferentes faixas etárias tão envolvidas com a fotografia o faz lembrar do próprio processo de aprendizado e da importância das pessoas que, em algum momento, decidiram compartilhar seus conhecimentos com ele.
Agora, ele enxerga o ensino como uma forma de manter essa troca em movimento, os saberes que recebeu ao longo da trajetória ganham novos caminhos quando chegam a outros alunos. “Eu recebo essa doação, esses saberes, e tenho isso no meu horizonte. Do que eu tenho aprendido, do que eu tenho conquistado a partir de solidariedades e pessoas diversas. Eu tento passar para frente esses saberes”, afirma.
Aula Projeto FLAGRA
Projeto FLAGRA
Para os fundadores do projeto, as fotografias produzidas pelos participantes carregam uma diferença em relação aos registros feitos por pessoas que chegam de fora para retratar a comunidade.
Quem vive na Cidade de Deus, segundo Nayara, possui uma relação de proximidade com o território. Conhece suas histórias, estabelece vínculos de confiança e por isso consegue perceber detalhes do cotidiano que muitas vezes passam despercebidos por quem está apenas de passagem. A cada clique, não se revela apenas uma nova imagem da Cidade de Deus, mas também novas possibilidades para quem aprende a contar sua própria realidade.
Foto produzida durante aula do projeto
Projeto FLAGRA

