Entre as deliberações na reunião do Gabinete de Segurança de Israel que decidiu pela reocupação da Faixa de Gaza, na noite de domingo, um ponto mais imediato que o futuro do enclave ao fim da guerra também foi encaminhado. As autoridades políticas e militares aprovaram a possibilidade de retorno da entrada de ajuda humanitária em território palestino — que foi interrompida em sua totalidade a partir de 2 de março, por força de um bloqueio israelense —, mas apenas quando for “necessário”. Apesar de organizações internacionais que atuam com a assistência aos palestinos afirmarem que a falta de comida e água já está contribuindo para um aumento de doenças e mortes evitáveis, o entendimento durante a reunião de cúpula foi de que “atualmente há comida suficiente” em Gaza, segundo uma fonte israelense informada sobre a discussão.
- Contexto: Piora da fome em Gaza leva a saques de lojas e cozinhas comunitárias dois meses após Israel bloquear entrada de ajuda
- Leia também: Israel aprova plano militar que inclui a ‘conquista’ de Gaza
Nenhum carregamento de ajuda humanitária entra em Gaza há mais de 60 dias, desde que o governo israelense determinou o fechamento total da fronteira, quando o cessar-fogo para troca de reféns que foi acordado com ajuda de negociadores internacionais colapsou. Mesmo insumos considerados essenciais, como água, comida, medicamentos e combustível, que em outros momentos do conflito eram autorizados a entrar no enclave por meio de agências internacionais e ONGs foram vetados, sob argumento recorrente de que o Hamas desvia os carregamentos e os usa em benefício próprio.
À medida que o fornecimento de água, alimentos e medicamentos diminui, doenças e enfermidades evitáveis aumentam — e também a probabilidade de morte por causa delas, segundo médicos que trabalham no enclave. Grupos de ajuda humanitária estão soando o alarme em mensagens cada vez mais drásticas, alertando que o apoio humanitário aos moradores de Gaza está “à beira do colapso total”. Nos últimos dias, jornalistas locais e autoridades de saúde palestinas publicaram vários vídeos de crianças doentes e esqueléticas.
Um sistema de monitoramento de desnutrição apoiado pela ONU, a Classificação Integrada de Fases de Segurança Alimentar, iniciou recentemente uma nova revisão para determinar se as condições em Gaza configuram fome. A ONU afirma que 91% da população analisada — pouco menos dos cerca de dois milhões que se acredita estarem em Gaza — já enfrenta “insegurança alimentar”, com a maioria permanecendo em níveis de “emergência” ou “catastróficos”. A autoridade israelense que supervisiona o acesso à ajuda humanitária em Gaza argumentou repetidamente que o relatório contém “falhas factuais e metodológicas, algumas delas graves”.
No final do mês passado, a agência da ONU que auxilia refugiados palestinos informou que seus suprimentos de farinha haviam acabado, e o Programa Mundial de Alimentos (PMA) informou que havia entregue o restante de seus suprimentos a cozinhas comunitárias. A única comida disponível para muitos moradores de Gaza — especialmente aqueles entre os 90% da população que está deslocada e vive principalmente em tendas — vem de centros de caridade locais, alguns dos quais foram saqueados à medida que a crise de fome se agrava. Em meio ao caos, o Hamas anunciou ter executado saqueadores que roubaram estoques de armazéns.
A desnutrição tem efeitos devastadores em todo o sistema médico. Vítimas de queimaduras causadas por bombardeios não conseguem obter alimentos suficientes para a cicatrização de enxertos de pele. No Hospital al-Shifa, o médico Ghazi al-Yazji, chefe do setor de nefrologia, observa impotente os pacientes definharem.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/H/H/XWmxlgRsAbLGGslcfBKg/gaza-siege-toll-5.jpg)
— Pacientes em diálise precisam de uma dieta balanceada, mas todos sobrevivem principalmente com alimentos enlatados — disse.
A escassez de medicamentos fez com que ele reduzisse as sessões semanais de diálise de seus pacientes de três para duas vezes por semana, e as encurtasse. O racionamento fará com que toxinas se acumulem gradualmente em seus corpos, explicou.
- Bombardeado a partir do Iêmen: Israel expande ofensivas com convocação de reservistas em Gaza e ataques aéreos na Síria
Embora o governo de Israel não tenha detalhado como ou quando a ajuda humanitária voltaria a fluir para Gaza, declarações de interlocutores do governo e de organizações internacionais apontam que a ideia para quando houver a retomada — o que não deve acontecer imediatamente, uma vez que a avaliação é de que os recursos não se esgotaram, e que a aprovação não foi unanime, com o ministro de extrema direita Itamar Ben-Gvir votando contra — é que seja por meio de um modelo diferente de distribuição.
Um plano noticiado em primeira-mão pelo jornal Times of Israel indica que não haveria mais distribuição e armazenamento em massa de recursos, em um modelo de gestão individualizado por família. Em resumo, cada família palestina teria que indicar um representante, que seria autorizado a entrar em uma zona segura no sul do enclave para receber os alimentos. Empresas privadas e organizações internacionais seriam responsáveis pela entrega dos insumos, enquanto a defesa do local seria feita por contratados privados.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/t/t/sYzcQkSQqxwUI1BB02gw/110939755-palestinians-queue-for-a-portion-of-hot-food-distributed-by-a-charity-kitchen-at-the-nusei.jpg)
Fontes israelenses e árabes ouvidas pelo jornal indicam que as Forças Armadas teriam participação apenas para dar uma camada externa de segurança e na fiscalização das cargas — em um método que imaginam que dificultaria desvios de recursos pelo Hamas. Mesmo sem cronograma ou formato oficiais, organizações internacionais rejeitaram massivamente os termos.
O Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU (Ocha) afirmou que o modelo israelense “significará que grande parte de Gaza, incluindo as pessoas com menor mobilidade e mais vulneráveis, continuará sem suprimentos”.
- Saiba mais: Navio de ajuda humanitária com destino a Gaza pega fogo após suposto ataque de drone na costa de Malta
O Conselho Norueguês para Refugiados, ONG internacional com atuação o enclave, indicou que o plano israelense de concentrar a distribuição em centros controlados pelos militares é “fundamentalmente contrário aos princípios humanitários”.
— Não podemos e não faremos algo que seja fundamentalmente contrário aos princípios humanitários — disse Jan Egeland, que lidera a organização, em entrevista à AFP. — Isso forçaria as pessoas a se deslocarem para obter ajuda e a fome continuaria para a população civil. Não teremos participação nisso. Se em um conflito armado intenso, um lado tenta controlar, manipular e racionar a ajuda entre os civis do outro lado, isso vai contra tudo o que defendemos. (Com NYT e AFP)
