Motor da economia no início deste ano, com salto no PIB do primeiro trimestre (de 12,2% ante os três últimos meses de 2024 e de 10,2% em um ano), a agropecuária leva dinamismo econômico ao interior do país, mas alguns sinais mostram pujança menor do que na supersafra de 2023. Custos e juros elevados e cotações internacionais comedidas apertam a rentabilidade dos produtores, moderando o dinamismo, explicam economistas.
Entre os sinais de dinamismo, no primeiro trimestre, as vendas de veículos nas cidades de maior peso na produção agrícola dispararam acima da média do país, a taxa de desemprego nos estados mais fortes do agronegócio ficou abaixo da média nacional, e os aviões mais usados nas fazendas seguiram puxando o crescimento da frota particular.
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No mercado de automóveis, os emplacamentos cresceram 7,1% no primeiro trimestre no país, ante os três primeiros meses de 2024. Nas dez cidades campeãs da produção agrícola — conforme a Pesquisa Agrícola Municipal (PAM), do IBGE —, houve salto nas vendas de 101% de janeiro a abril, na comparação com um ano antes, segundo levantamento da consultoria Bright Consulting, a pedido do GLOBO.
No mercado de trabalho, Mato Grosso, maior estado na produção agrícola, teve taxa de desemprego de 3,5% no primeiro trimestre, ante 7% da média nacional. No Paraná, terceiro maior estado agrícola, ficou em 4% — o segundo principal estado, conforme ranking do valor de produção do IBGE, é São Paulo, mas a economia paulista depende pouco da agropecuária.
No consumo de alta renda, a demanda do agronegócio não para de impulsionar as vendas de aviões. A frota particular terminou 2024 com crescimento de 8,4% ante um ano antes, e o tipo de aeronave que mais cresceu, com salto de 16,8%, foram os turboélices, mais usados nas fazendas, segundo a Associação Brasileira da Aviação Geral (Abag) — pois são mais adequados para pousar em pistas de terra.
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A demanda por eles vem crescendo tanto para a produção — substituindo aeronaves com motor a pistão na pulverização de defensivos agrícolas — quanto porque os produtores rurais, com ganhos em alta, têm preferido usar aviões particulares, conta Raul Marinho, diretor técnico da Abag:
— Uma pessoa de Petrolina me disse que, de lá para Recife, a passagem (nas companhias aéreas) está saindo por R$ 2.500, para uma distância de 500km. Dependendo da frequência e da quantidade de passageiros, o valor do voo privado acaba sendo equivalente.
O mercado imobiliário mira nas cidades que servem de polo do agronegócio. A RNI, incorporadora imobiliária do grupo Rodobens, tradicional em concessionárias de caminhões e consórcios, vem apostando nisso.
Segundo José Renato Engel Vieira, superintendente de Vendas e Marketing, o complexo Rios de Cuiabá, desenvolvido pela RNI na capital mato-grossense, é um exemplo de desenvolvimento regional. A incorporadora lançou sete condomínios de casas na região desde 2010, atraindo outros lançamentos e investimentos em infraestrutura, comércio e serviços.
— Para quem comprou no lançamento (com o imóvel na planta), a valorização chega a 500% — diz Vieira, citando que as casas dos condomínios do complexo têm dois ou três quartos, com 67 metros quadrados em média, e hoje custam em torno de R$ 500 mil.
A RNI não fez lançamentos no primeiro trimestre, se dedicando a “preservar margens”, disse em nota.
Segundo o IBGE, a agropecuária responde por apenas 6,5% do PIB, mas seu impacto vai além, movimentando a demanda por insumos, como máquinas, o processamento de matérias-primas, como a fabricação de alimentos e têxteis, e os serviços, como o transporte.
No primeiro trimestre, passaram pelos terminais portuários do país 47 milhões de toneladas de grãos, uma queda de 1,4% ante 2024, mas a movimentação de soja já registra alta de 4,5%, segundo a Associação de Terminais Portuários Privados (ATP).
Levando isso em conta, o “PIB do agronegócio” somou 23,2% da economia ano passado, segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da USP. É como se cada R$ 1 gerado pela agropecuária puxasse mais R$ 2,78 na indústria e nos serviços, diz Nicole Rennó, pesquisadora do Cepea:
— A agropecuária atrai indústrias, atrai serviços, é muito importante para o desenvolvimento regional.
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Segundo a professora, os efeitos na economia do interior são ainda maiores. O cálculo do Cepea não inclui os impulsos indiretos dos gastos de produtores e empregados do setor no comércio e serviços locais, que não tenham a ver com a produção. Ao explicar o que puxou o PIB no primeiro trimestre, o IBGE citou a supersafra como um dos motores do consumo das famílias.
No caso da agropecuária, esse efeito indireto na demanda é, de certa forma, protegido dos juros altos, avalia o economista-chefe do Bradesco, Fernando Honorato Barbosa. Isso ajudaria a explicar por que a economia segue aquecida, apesar do ciclo de alta dos juros levado a cabo pelo Banco Central (BC) desde setembro:
— Às vezes, pode parecer que não está funcionando a política monetária, mas o crescimento do agro é um efeito exógeno, completamente fora do controle do BC.
Os juros altos ajudam a explicar por que o impulso da agropecuária este ano será menor do que foi na supersafra de 2023. A preocupação se espalha entre os produtores.
— O que sentimos hoje é a falta de crédito. E o pouco crédito disponível, está com o juro muito alto — afirma Alexandre Baumgart, sócio e presidente das Fazendas Reunidas Baumgart, que produzem soja, milho e gado de corte em Rio Verde (GO), numa área de cerca de 25 mil hectares. — Cortei meus investimentos em quase 40%, para poder sustentar o negócio. Não podemos mexer no caixa.
Orcival Guimarães, sócio da Boa Esperança Agropecuária, que produz soja, milho e algodão em quase 60 mil hectares, de norte a sul de Mato Grosso, classifica os juros atuais como “insuportáveis”. E lembra que o maquinário no qual é preciso investir, como tratores, plantadeiras e colheitadeiras, que custam de R$ 1 milhão até R$ 2,5 milhões, é comprado a prazo.
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Segundo economistas e produtores, juros altos ajudam a reduzir a rentabilidade, ou seja, o quanto sobra no bolso após pagar os investimentos. Os custos de produção estão elevados, e as cotações internacionais, em tendência de queda. Tudo isso modera ganhos com a quantidade produzida, mesmo que seja recorde.
— O que vem comprometendo a rentabilidade do produtor é o preço depreciado no mercado internacional, desde o fim do ano passado — afirma Renato Conchon, coordenador do Núcleo Econômico da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).
Ainda assim, a economia do Centro-Oeste, celeiro da soja, do milho e do algodão, deverá crescer 6,7% neste ano, acima do dobro do crescimento do Sudeste (2,9%), segundo projeção da consultoria MB Associados.
