A coalizão xiita “reconstrução e desenvolvimento”, liderada pelo primeiro-ministro do Iraque, Mohamed Shia al Sudani, obteve uma grande vitória no Parlamento após as eleições de terça-feira, afirmaram à AFP nesta quarta-feira fontes próximas ao governo. Os iraquianos foram às urnas em um momento crucial para o país, com as eleições sendo observadas de perto pelo Irã e pelos Estados Unidos. Apesar de um raro momento de estabilidade, a população vive um clima de descrença política e vê o pleito como uma farsa que beneficia apenas as elites e as potências regionais.
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Outras duas fontes indicaram à agência francesa que a aliança se tornou o principal bloco do hemiciclo, com cerca de 50 cadeiras. A comissão eleitoral do país anunciará os primeiros resultados oficiais da apuração ao longo da tarde. Estas são as sextas eleições realizadas no país desde a queda do ditador Saddam Hussein em 2003. Os nacionais votaram na terça-feira para eleger o Congresso de 329 cadeiras, e a taxa de participação superou os 55%, mais do que os 41% registrados em 2021, indicou a comissão.
Sudani, que busca um segundo mandato, após ter governado sob a bandeira da estabilidade e da reconstrução, destacou-se na cena política após sua chegada ao poder há três anos, apoiado por uma turma de grupos pró-iranianos. Antes das eleições, no entanto, alguns de seus antigos aliados políticos juraram impedi-lo de formar uma coalizão governista para continuar governando.
As eleições abrem caminho para a nomeação de um novo presidente, um cargo majoritariamente honorífico reservado a um curdo, e de um primeiro-ministro, tradicionalmente xiita. Um sunita ocupará o cargo de presidente do Parlamento, conforme estabelece a convenção.
Como é impossível que uma única aliança obtenha a maioria absoluta, se sua vitória for confirmada, Sudani terá que formar uma coalizão para garantir sua reeleição. Nas administrações anteriores, os partidos congressistas da maioria xiita chegaram a acordos de compromisso para trabalhar juntos e formar um governo. Depois da apuração dos votos, haverá semanas, e possivelmente meses, de negociações para que os partidos cheguem a um consenso com a maior participação possível.
O país de 46 milhões de habitantes sofre com infraestruturas e serviços públicos deficientes, além de corrupção endêmica. Muitos iraquianos perderam a esperança na política e veem as eleições como uma farsa que beneficia apenas as elites e as potências regionais. Mais de 21 milhões de pessoas têm direito a voto, mas temia-se que a participação fosse menos que a da anterior, o que não se confirmou.
Minutos após a abertura dos centros eleitorais, vários líderes políticos votaram no luxuoso hotel Al Rasheed, na capital. Mas quatro horas depois, jornalistas da AFP relataram uma baixa participação em várias cidades. Em Bagdá, as ruas decoradas com cartazes de candidatos estavam desertas, exceto pela presença de seguranças, embora houvesse eleitores nos centros eleitorais de alguns bairros.
O Iraque tem desfrutado de dias mais tranquilos nos últimos anos, enquanto tenta superar décadas de guerra e repressão sob o regime de Saddam e desde a invasão liderada por Washington que o derrubou. Muros de concreto que antes protegiam prédios de carros-bomba agora protegem novos e luxuosos empreendimentos de apartamentos, além de promissores cafés, academias e spas.
Após uma longa ocupação americana, anos de derramamento de sangue entre seitas e uma insurgência jihadista, o Iraque se tornou um improvável refúgio no Oriente Médio, pelo menos em comparação com muitas outras partes da região. Salvaguardar essa paz arduamente conquistada é uma das principais prioridades dos iraquianos.
Para Mohammed Mehdi, um funcionário público de 30 anos, votar é um direito e não uma forma de fazer mudanças. Depois de votar em Bagdá, ele disse que os políticos investiram fortemente na promoção do voto, “isso prova que meu voto é valioso, então vou usá-lo”.
Mas para outros iraquianos, persiste a sensação de que tudo continuará igual, com ou sem votação.
— A cada quatro anos acontece a mesma coisa. Não vemos rostos jovens nem novas energias capazes de promover mudanças — lamentou o estudante universitário Al Hasán Yasin.
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Apesar do ceticismo, mais de 7.740 candidatos, quase um terço deles mulheres, concorrem às 329 cadeiras do Parlamento. Apenas 75 independentes estão no pleito, sob uma lei eleitoral que os críticos consideram favorecer os partidos maiores.
‘Estabilidade, segurança e desenvolvimento’
O primeiro-ministro Sudani, que chegou ao poder em 2022 graças a uma aliança de partidos e facções xiitas ligados ao vizinho Irã, enfatizou seu “sucesso” em manter o Iraque relativamente imune à agitação que envolve o Oriente Médio.
— O povo iraquiano chegou a um ponto em que não tolera mais conflitos, guerras e todas essas aventuras desastrosas — disse o primeiro-ministro ao The New York Times. — As pessoas querem estabilidade, segurança e desenvolvimento.
Desde que as forças lideradas pelos Estados Unidos derrubaram Hussein, um sunita, a maioria xiita do Iraque, há muito oprimida, permanece no poder e a maior parte dos partidos mantém laços com o Irã. Desde então, Bagdá está presa em um cabo de guerra entre Washington e Teerã, a potência xiita regional.
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O premier garantiu a retirada gradual dos cerca de 1.300 soldados americanos ainda presentes no Iraque até setembro de 2026. Autoridades americanas, porém, já estão negociando a manutenção de uma presença no país, alegando que ela é necessária para combater os remanescentes do Estado Islâmico.
O poder regional do Irã diminuiu nos últimos dois anos, desde que seu aliado palestino, o Hamas, liderou o ataque de 7 de outubro de 2023 contra Israel. Nos últimos anos, uma série de poderosas milícias ligadas ao Irã têm ganhado influência política no Iraque.
Esses grupos, em sua maioria xiitas, foram criados em 2014 como parte das chamadas Forças de Mobilização Popular para combater o Estado Islâmico, a força jihadista sunita que tomou o controle de grandes partes do país e atacou brutalmente os xiitas iraquianos. Alguns obtiveram apoio militar e financeiro de Teerã.
A ameaça do Estado Islâmico diminuiu, mas as milícias apoiadas pelo Irã se fortaleceram. Seus líderes argumentam que têm o direito de manter armas enquanto as forças americanas permanecerem no Iraque. E têm pressionado fortemente as autoridades iraquianas para expulsar as tropas americanas.
Nesta eleição, quase todas as milícias apoiadas pelo Irã estão apresentando uma lista parlamentar. O Kataib Hezbollah, a mais poderosa dessas milícias e a mais próxima de Teerã, desfilou com comboios de carros buzinando pela cidade de Kut, no sul do Iraque, para encerrar sua campanha eleitoral, com suas bandeiras estampadas com um punho segurando um rifle erguido.
(Com AFP e The New York Times)

